A relação terapêutica sob a ótica da neurociência

Pontos principais do artigo
Com o passar do tempo e o avanço da pesquisa científica na área, tem-se constatado que a relação terapêutica é um dos principais mecanismos associados à mudança, sendo consistentemente associada aos resultados clínicos (Norcross & Lambert, 2018; Norcross & Wampold, 2018).
A construção deste vínculo requer tempo e será influenciada por diversos fatores, desde o alinhamento adequado de objetivos e tarefas terapêuticas, passando pelo aspecto real e genuíno da relação, até o adequado manejo transferencial/contratransferencial por parte do terapeuta (Greenson, 1967; Gelso & An, 2024).
Não há psicoterapia sem vínculo humano e, para que um vínculo seja estabelecido, um contexto de segurança e confiança deve ser fomentado.
Estudos clássicos já demonstraram que relações sociais de qualidade estão associadas a maior longevidade, saúde e felicidade (Holt-Lunstad et al., 2010; Helliwell & Putnam, 2005).
Sob uma perspectiva evolutiva, os seres humanos evoluíram como uma espécie altamente social, cuja sobrevivência dependeu da vida em grupo (Coan & Sbarra, 2015). Sentir-se seguro e pertencente socialmente, portanto, seria uma propensão natural da nossa espécie.
Assim, naturalmente, mecanismos neurobiológicos pró-sociais teriam sido selecionados e estariam presentes até hoje (Dunbar & Shultz, 2007).
Com o avanço da pesquisa e da tecnologia neurocientíficas, determinadas regiões cerebrais já foram associadas ao processamento de informações sociais, sendo o conjunto destas regiões chamado de “cérebro social” (Adolphs, 2009).
Um notável exemplo disso são os clássicos achados de Eisenberger & Lieberman (2004), em que regiões cerebrais voltadas ao processamento de dor física estão também associadas ao processamento de “dor emocional”, mecanismo este possivelmente selecionado com o mesmo intuito: da mesma forma que fisicamente sentimos dor para evitar o aprofundamento do machucado ou para que se tome mais cuidado nas próximas vezes, emocionalmente o argumento evolutivo teria a mesma lógica.
Estar conectado e sentir-se pertencente teria uma clara função evolutiva, sendo uma característica inata à neurobiologia humana. A terapia seria apenas um dos espaços em que isso ocorre.
O processamento da informação social é um mecanismo evolutivo altamente refinado. habilidade de percepção de emoções sociais por meio de diversas pistas não verbais - como o reconhecimento de microexpressões faciais, tom de voz, ritmo da fala, entre outros - recruta sistemas cerebrais especializados.
O processamento destas informações é considerado implícito, ou seja, realizado de forma não deliberada (Dahlén et al., 2022).
As descobertas acerca dos neurônios-espelho dão luz acerca disso: o ser humano processa informações sociais (como emoções e ações) de forma implícita e intuitiva (Rizzolatti & Sinigaglia, 2016).
Na psicoterapia, naturalmente estes mecanismos ganham forma. Isso ocorre, por exemplo, por meio da chamada “sincronização interpessoal”, quando sujeitos emocionalmente conectados passam a ter alinhamento comportamental e fisiológico (Koole & Tschacher, 2016).
Assim, a conexão terapêutica
vai muito além das informações verbais
, envolvendo especialmente processos implícitos não-verbais, os quais permeiam todas as relações humanas.
Apesar da necessidade e importância que as relações sociais possuem para os seres humanos, para cada indivíduo, a formação de vínculos se dará de forma diferente.
A
teoria do apego
formulada por John Bowlby (1977) propõe que os vínculos afetivos iniciais moldariam o funcionamento interpessoal posterior do indivíduo, influenciando a forma como este se relaciona e
regula suas emoções
sociais ao longo da vida.
Nesse cenário, hoje é consenso na literatura que experiências relacionadas a maus-tratos na infância, como negligência e abuso,
podem trazer repercussões significativas para o indivíduo
na forma como este se relaciona socialmente na vida adulta (Fares-Otero et al., 2023), já tendo sido destacadas diversas alterações em nível estrutural e funcional do cérebro que sustentam esses desfechos (Li et al., 2023; Hakamata et al., 2022; Teicher et al., 2016).
Sendo a psicoterapia um espaço que, para além de técnicas específicas, é em si própria sustentada pela relação terapeuta-paciente, são inseparáveis o estilo de apego e as histórias relacionais do sujeito enquanto componentes centrais do processo, uma vez que medeiam o vínculo que se estabelece na díade.
Neste sentido, a
relação terapêutica
pode não apenas ser o contexto no qual técnicas específicas poderão ser aplicadas, como também ser, ela mesma, um instrumento de autorregulação e mudança nos padrões interpessoais do sujeito.
A teoria polivagal propõe que a percepção de sinais interpessoais de segurança transmitidos por mecanismos não-verbais por parte do terapeuta influenciaria diretamente a regulação autonômica do indivíduo, o que possibilitaria a construção de uma relação de confiança e segurança na díade (Porges, 2025).
Dito de outro modo, a própria presença segura e estável do terapeuta atuaria como ferramenta reguladora, por meio de mecanismos implícitos de corregulação autonômica. O terapeuta, assim, atuaria como um agente regulador (Soma et al., 2020).
Nesta linha, no que tange à psicoterapia, diversos modelos terapêuticos já propuseram, por caminhos teóricos distintos, a noção de que a relação terapêutica poderia ser ela mesma o mecanismo de mudança clínica: o vínculo terapêutico pode impactar a forma como o indivíduo se relaciona e se vincula socialmente dentro e, especialmente, fora do consultório.
Por exemplo, na psicanálise, o paciente, por meio de mecanismos de transferência, reproduziria na relação terapêutica sua conflitiva relacional prévia, abrindo espaço para novas formas de compreensão do próprio funcionamento (Freud, 1912/1959).
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Em outro modelo teórico, Young et al. (2003) desenvolveram o conceito de reparentalização limitada na terapia do esquema, postulando que o terapeuta deveria atuar como uma experiência emocional corretiva para o sujeito, buscando reparar – dentro dos limites atinentes à atuação do terapeuta – necessidades emocionais básicas não atendidas ao longo da história desenvolvimental do sujeito.
Já na psicoterapia analítica funcional (FAP), de cunho comportamental-contextual, o terapeuta deveria atuar como um contexto reforçador (ou não) dos comportamentos interpessoais clinicamente relevantes do paciente em sessão, a partir da compreensão funcional do caso (Kohlenberg & Tsai, 1991).
Ainda, vale dizer que todos estes componentes relacionais e neurobiológicos discutidos também estão presentes na pessoa do terapeuta.
Por exemplo, o terapeuta também é afetado emocionalmente pela relação que ali se estabelece com o paciente, tendo ele mesmo um processamento implícito da informação social, com seu histórico relacional e de apego.
Tal noção vem sendo estudada desde os postulados de Freud (1910/1957), quando desenvolve o conceito de contratransferência, ainda hoje discutida e presente de forma transteórica em psicoterapia (Hayes et al., 2018).
O adequado manejo contratransferencial caracteriza-se como prática essencial de qualquer processo terapêutico, independentemente da abordagem teórica.
Os avanços científicos dentro do campo da neurociência possibilitaram que hoje possamos entender os fenômenos relacionais da psicoterapia sob uma perspectiva neurobiológica e evolutiva.
A compreensão destes mecanismos serve, entre outros motivos, para a confirmação de determinadas hipóteses há muito postuladas: a relação que ocorre dentro de um consultório é real, implícita, ancorada em mecanismos neurobiológicos e, especialmente, terapêutica.
Autoria
Autores: Sampaio, L. R.; Santos, E. F. L.; Neufeld, C. B.
Lucas Remião Sampaio:
Psicólogo Clínico, com ênfase em Terapia Cognitivo-Comportamental. Mestre em Psicologia pela PUCRS. Especialista em Neurociências e Comportamento pela PUCRS.
Eloha Flória Lima Santos:
Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento.
Carmem Beatriz Neufeld:
Livre-docente pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP). Pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestra e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de São Paulo (LaPICC-USP). Professora Titular do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP. Ex-Presidente da Federação Latino-Americana de Terapias Cognitivo-Comportamentais - ALAPCCO) (2019–2022 e 2022-2025). Ex-Presidente fundadora da Associação de ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC) (2011–2013 e 2013– 2015). Bolsista Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).