Burnout em psicólogos: sinais clínicos e estratégias de cuidado multinível

Pontos principais do artigo
O trabalho do psicólogo frequentemente envolve um contato direto com o sofrimento humano, uma alta responsabilidade diante do serviço prestado, além da necessidade de atenção constante no exercício profissional e de manejo de eventuais problemas interpessoais.
Essas características exigem um alto custo afetivo e cognitivo, tornando o trabalho emocionalmente demandante e colocando a saúde mental dos psicólogos em risco.
Entre psicólogos, a prevalência de níveis moderados a altos de exaustão emocional varia entre 27,8% e 56%, a depender do estudo e da medida de avaliação (McCormack et al., 2018).
Definido como um fenômeno psicossocial decorrente de estressores laborais crônicos, além da exaustão, o burnout envolve sintomas de comprometimento cognitivo e emocional e distanciamento mental das atividades de trabalho (Schaufeli et al., 2020).
Contudo, antes que o
burnout
se instale como um quadro clínico, trazendo sofrimento significativo e comprometendo a rotina, é comum que o profissional apresente sinais de estresse crônico.
Essa fase intermediária envolve alterações fisiológicas, cognitivas, emocionais e comportamentais que, sem a devida intervenção, tendem a evoluir para o esgotamento (van Dam, 2021). Identificar esse processo exige atenção aos seguintes sinais:
- Físicos: dores de cabeça, alterações gastrointestinais, tensão ou dor muscular, fadiga crônica, dor no peito e diminuição da libido;
- Cognitivos: dificuldade de concentração, esquecimentos frequentes, entraves para novos aprendizados e comprometimento de habilidades de planejamento e controle;
- Emocionais: irritabilidade, tristeza sem motivo aparente, sensação de incapacidade para gerir as próprias emoções e reações desproporcionais aos eventos;
- Comportamentais: isolamento social, aumento de conflitos interpessoais, abandono de hobbies, uso de substâncias ou comportamentos compulsivos.
Consequências do burnout
Quando o profissional apresenta sintomas de burnout, as consequências afetam tanto a sua saúde física e mental quanto o ambiente de trabalho.
No âmbito da saúde, os níveis mais elevados da síndrome estão relacionados a um sofrimento clinicamente significativo, ao aparecimento de
sintomas psicossomáticos
, a uma maior vulnerabilidade à depressão e à ansiedade, além de prejuízos na regulação emocional.
Já no ambiente de trabalho, o burnout tende a diminuir a autoeficácia, aumentar as faltas (absenteísmo), reduzir a satisfação e elevar a intenção de abandonar a profissão (McCormack et al., 2018).
Como a exaustão é o componente principal do quadro, é comum que o profissional passe a economizar energia e a fazer o “mínimo necessário” para tentar sobreviver a um ambiente de trabalho adoecido.
Esse movimento acaba, inevitavelmente, influenciando o serviço prestado. Os níveis mais elevados de burnout geram consequências negativas para os pacientes, estando associados à redução da empatia, à desvalorização de quem é atendido e a eventuais danos secundários (McCormack et al., 2018).
Fatores de risco e proteção
Alguns fatores específicos estão associados a um maior risco para o desenvolvimento de burnout em psicólogos: baixo controle sobre o próprio trabalho, carga horária elevada, excesso de burocracia, maior número de atendimentos por plano de saúde (em comparação à clínica particular) e a necessidade de lidar com comportamentos hostis ou reativos dos pacientes (Rupert & Morgan, 2005; Rodriguez et al., 2020).
Além disso, em nosso estudo em fase de finalização (Rossa & Sticca, 2026), encontramos um dado relevante: as demandas emocionais e cognitivas do trabalho não foram preditoras significativas do burnout.
Por outro lado, a necessidade de suprimir emoções, sim. Esse resultado aponta para uma diferenciação importante: talvez o custo emocional e cognitivo seja inerente à profissão e, portanto, antecipado e mais facilmente manejado pelos profissionais.
Em contrapartida, a necessidade de suprimir sentimentos e opiniões pode não ser esperada e gerar maior sofrimento, por comprometer necessidades como a autonomia e autenticidade (Ryan & Deci, 2024).
No contexto clínico, algumas abordagens já integram a expressão emocional do terapeuta à sessão, o que pode trazer efeitos positivos para o tratamento e para o vínculo (Peluso & Freund, 2018).
Mas, para além do consultório, contar com o suporte de pares e supervisores pode ser um fator protetivo ao abrir espaço para a expressão emocional em relações seguras e propiciar o desenvolvimento de competências clínicas (Alfonsson et al., 2018).
Na nossa prática, esses espaços podem ser grupos de estudos, intervisões ou
supervisões
. Contudo, mais do que simplesmente fazer parte desses espaços, a qualidade das relações construídas ali também é fundamental.
A percepção de suporte profissional e o envolvimento em relações de trabalho tendem a facilitar habilidades protetivas que se desenvolvem em relações interpessoais, como é o caso da flexibilidade psicológica (Hayes et al., 2021).
Esse repertório, assim como outras habilidades de
regulação emocional
, pode auxiliar o profissional a lidar de forma adaptativa com os desafios e amortecer o impacto das demandas de trabalho (Novaes et al., 2018).
Estratégias de prevenção: a importância do cuidado multinível
De forma geral, as intervenções para o burnout devem ser preventivas e multiníveis – ou seja, contemplar mudanças macrossociais, nos contextos de trabalho e individuais.
No nível macrossocial, cabe discutir os
fatores culturais e trabalhistas contemporâneos
que aumentam a pressão e a sobrecarga dos psicólogos, sem fornecer ferramentas de suporte.
Um exemplo disso são as plataformas de psicoterapia que exigem disponibilidade ilimitada do profissional e pagam R$ 35,00 por hora clínica. Além disso, em um mercado cada vez mais competitivo, vende-se a ideia de empreendedorismo e produtividade na qual o psicólogo precisa acumular diferentes papéis: ser terapeuta, produtor de conteúdo, editor de vídeo, contador, estudante contínuo... Essa sobreposição afeta a identidade profissional e favorece a exaustão pela sobrecarga de demandas implícitas.
No nível meso, o ambiente do psicólogo clínico geralmente envolve uma estrutura de trabalho isolada, sem contato direto com colegas, o que já é um fator de risco para o adoecimento (McCormack et al., 2018).
Isso ressalta a importância de participar de grupos entre pares não apenas para discutir casos, mas como espaços de compartilhamento de frustrações, burocracias e dificuldades reais da profissão.
Sabemos também que a instabilidade financeira leva ao acúmulo de horas de trabalho por necessidade de sobrevivência, o que reforça a urgência de discussões amplas dentro da categoria sobre, por exemplo, a precificação da hora, o teto máximo de atendimentos e a garantia de direitos.
Já no nível individual, destaca-se a importância do autocuidado e do desenvolvimento de repertórios que, muitas vezes, ensinamos aos próprios pacientes para lidar com os desafios e que podem ser desenvolvidos em espaços como a psicoterapia.
Entretanto, mesmo diante de um sofrimento clinicamente significativo, estudos mostram que os psicólogos enfrentam barreiras para buscar terapia e auxílio psicológico, como o estigma e sentimentos de vergonha (Tay et al., 2018).
O que este artigo pretende desmistificar é a ideia de que psicólogos devem ter a plena capacidade de autogerir as dificuldades emocionais e profissionais que surgem.
Essa é uma falácia sustentada por estereótipos da profissão, que colocam o terapeuta no lugar de salvador onipotente. Quando, na verdade, oferecer serviços em saúde mental é essencialmente um ato de cuidado humano compromissado, o que envolve, também, o reconhecimento dos próprios limites.
Nesse sentido, a busca por auxílio psicológico é um direito do psicólogo e reflete uma ação autocompassiva diante de todos os desafios da profissão.
Apesar da importância desses cuidados no nível individual, intervir no burnout exige compreender a sua multicausalidade. A proteção à saúde mental do psicólogo não deve ser uma pauta solitária, mas sim um compromisso coletivo que passa, fundamentalmente, pela valorização e pela transformação dos contextos de trabalho.
Autoria
Autoras: Rossa, I.; Santos, E. F. L.; Neufeld, C. B.
Isadora Rossa:
Psicóloga clínica e pesquisadora. Graduada em Psicologia pela Unisinos, Mestranda em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Certificação internacional em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) (em andamento).
Eloha Flória Lima Santos:
Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento.
Carmem Beatriz Neufeld:
Livre-docente pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP). Pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestra e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de São Paulo (LaPICC-USP). Professora Titular do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP. Ex-Presidente da Federação Latino-Americana de Terapias Cognitivo-Comportamentais - ALAPCCO) (2019–2022 e 2022-2025). Ex-Presidente fundadora da Associação de ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC) (2011–2013 e 2013– 2015). Bolsista Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).