Autismo em mulheres: especificidades clínicas e desafios diagnósticos

Pontos principais do artigo
- A incógnita da subidentificação e os estereótipos sobre as mulheres e meninas com Autismo
- Mas como identificar os sinais e sintomas em meninas e mulheres com suspeita de TEA?
- A camuflagem (ou masking) no espectro autista feminino
- Inflação diagnóstica e desafios ao longo da vida
- Impactos emocionais e relacionais do não reconhecimento
- Existem diferenças entre o cérebro de um perfil feminino e o de um perfil masculino com TEA?
- Implicações para o manejo clínico com mulheres autistas
- Formação continuada e atualização do psicólogo
- Autoria
Na prática clínica, muitas mulheres chegam no consultório com queixas de ansiedade crônica, exaustão social, sensação persistente de inadequação ou histórico de diagnósticos múltiplos que parecem não explicar integralmente seu sofrimento. Algumas relatam ter “aprendido a atuar” socialmente desde cedo, escondendo dificuldades profundas de interação e regulação sensorial.
O TEA em mulheres frequentemente passa despercebido, não por ausência de sintomas, mas pela forma como eles se manifestam e são interpretados. Para o psicólogo clínico, compreender essas nuances é fundamental para evitar diagnósticos equivocados e oferecer intervenções mais precisas e éticas.
A incógnita da subidentificação e os estereótipos sobre as mulheres e meninas com Autismo
A mulher pode não ter tido atraso na linguagem e na motricidade, e pode ser autista. Pode ser muito inteligente e tirar ótimas notas na escola, e pode ser autista. Pode ter a possibilidade de trabalhar, casar, ter filhos e fazer tantas outras coisas, e pode ser autista.
O TEA não é representado por uma forma específica de rosto, não tem cor de pele, não escolhe classe social e pode também ser “camuflado” pela própria autista. Assim sendo, é possível perceber que, ao longo da história, formaram-se múltiplos estereótipos referentes à apresentação do TEA feminino, além de barreiras diagnósticas no reconhecimento das mulheres com TEA.
De acordo com Estrin et al. (2021), em relação à percepção dos pais sobre meninas com suspeita de TEA, estes tendem a demonstrar menor preocupação com os sintomas atípicos, pois a filha com TEA, geralmente, apresenta sintomas e sinais mais internalizantes, é mais metódica e apresenta comportamentos compensatórios para “camuflar” as estereotipias, por exemplo. Além disso, em geral, as pessoas ainda apresentam uma visão mais voltada para um perfil masculino, quando o assunto gira em torno do TEA.
Diante disso, há, ainda, algo a que denominamos subidentificação, ou subdiagnóstico, do Transtorno do Espectro Autista em meninas e mulheres, tanto em âmbito nacional, quanto internacional (OCHOA-LUBINOFF; MAKOL; DILLON, 2023). Atualmente, conforme a Autism and Developmental Disabilities Monitoring Network 2022 (ADDM), estima-se uma prevalência geral de TEA de 32,2 por 1.000 crianças de 8 anos, com uma razão masculino:feminino de 3,4:1, sendo 49,2/1.000 entre meninos e 14,3/1.000 entre meninas.
Essa razão vem diminuindo ao longo dos anos (era 4,2 em 2018 e 3,8 em 2020), embora a diferença absoluta de prevalência entre os sexos tenha, na verdade, aumentado: de 27,7/1.000 em 2018 para 34,9/1.000 em 2022 (SHAW et al., 2025). As meninas autistas recebem o diagnóstico de 3 a 5 anos mais tarde que os meninos (RYNKIEWICZ; LUCKA, 2018, citados por SOUZA et al., 2024). Estrin et al. (2021) complementam que meninas com fala em frases completas são diagnosticadas significativamente mais tarde que meninos com o mesmo nível verbal, enquanto essa diferença não aparece em crianças não verbais ou minimamente verbais.
As variáveis que influenciam o fortalecimento desse viés diagnóstico estereotipado são melhor explicadas pelas diferentes manifestações comportamentais e socioemocionais do Autismo em meninas/mulheres e em meninos/homens, do que pela menor existência, de fato, de meninas que estão no Espectro Autista.
O TEA caracteriza-se como um transtorno do neurodesenvolvimento, isto é, uma condição que se origina no período do desenvolvimento, impactando a forma como o cérebro se organiza e funciona desde as fases iniciais da vida (HIROTA; KING, 2023). Justamente por o Autismo ser classificado como tal e ser “abraçado” por um espectro, ou seja, por diferentes características e sinais que podem compor diferentes manifestações em pessoas diversas com TEA, desde a infância, é que o Autismo não possui a mesma forma de apresentação de seus sinais e sintomas em todas as pessoas que estão no espectro.
Mas como identificar os sinais e sintomas em meninas e mulheres com suspeita de TEA?
Enquanto nos meninos os sintomas tendem a ser mais externalizantes, como agitação motora, comportamentos repetitivos mais visíveis, agressividade e resistência explícita à mudança, nas meninas eles frequentemente se traduzem em ansiedade, retração social, perfeccionismo, dificuldades alimentares e seletividade sensorial menos óbvia (SOUZA et al., 2024).
Essa diferença faz com que os sinais femininos sejam mais facilmente confundidos com timidez, introversão ou traços de personalidade, em vez de sinalizadores de uma condição do neurodesenvolvimento. De acordo com Rynkiewicz e Lucka (2018), citados por Souza et al. (2024), meninas com TEA apresentam maior risco para desenvolvimento de ansiedade, depressão e ideação suicida, ao passo que meninos autistas têm maior suscetibilidade à coexistência de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtorno Obsessivo-compulsivo (TOC).
A camuflagem (ou masking) no espectro autista feminino
De acordo com Pereira e Castro (2024), meninas e mulheres com TEA desenvolvem estratégias para compensar a falta de habilidades ou as dificuldades que podem sentir durante interações sociais e comunicacionais. Essa compensação pode se transformar em um mascaramento dos sintomas do TEA (o chamado masking social), que pode levar a mulher ou menina autista a um nível de exaustão muito alto, principalmente no fim do dia, permitindo-se, então, não mais mascarar seus sintomas e características atípicas do TEA em suas próprias residências.
De acordo com Zener (2019), este mascaramento pode levar ao diagnóstico errôneo de diversos transtornos mentais (Transtorno da Personalidade Borderline, Transtorno Obsessivo-Compulsivo, Transtorno Bipolar, etc.), levando, também, a menina ou mulher a sentir um forte esgotamento emocional, com o qual ela pode não conseguir lidar, tendo crises de meltdown (“colapso”) ou shutdown (“desligamento”), isto é, crises de desregulação emocional intensa, podendo durar, em média, uma hora, até voltar à homeostase.
Inflação diagnóstica e desafios ao longo da vida
O primeiro passo é modificar a primeira impressão para com a pessoa que apresenta o TEA, mesmo quando os sintomas não são tão aparentes. Ter TEA Nível 1 não quer dizer que o prejuízo seja leve na vida da autista. Apenas quer dizer que ela consegue ter um pouco mais de autonomia do que os outros níveis. Porém, quem tem TEA Nível 1 ainda enfrenta problemas sociais e comunicacionais significativos, sendo necessário o acolhimento e tratamento correto e eficaz.
É importante, porém, fazer uma ressalva: com a ampliação do acesso à informação sobre o TEA, especialmente nas redes sociais, tem-se observado uma tendência de autoidentificação excessiva com o espectro, principalmente entre mulheres adultas. Nem toda dificuldade social ou sensorial é, necessariamente, TEA.
O reconhecimento das especificidades femininas do autismo não deve ser confundido com uma flexibilização dos critérios diagnósticos (HIROTA; KING, 2023). Um diagnóstico preciso exige avaliação clínica criteriosa, com história desenvolvimental detalhada e uso de instrumentos padronizados. A chamada “inflação diagnóstica” preocupa justamente porque pode banalizar a condição e dificultar o acesso a serviços para quem realmente precisa.
Os desafios diagnósticos, por sua vez, não se limitam à infância. Ao longo da vida, as demandas sociais mudam e muitas mulheres só chegam ao diagnóstico na vida adulta, quando as estratégias de camuflagem já não dão conta de sustentá-las emocionalmente. Ochoa-Lubinoff, Makol e Dillon (2023) apontam que mais de um terço das mulheres autistas tiveram pelo menos um diagnóstico psiquiátrico anterior removido após receberem o diagnóstico correto de TEA, o que revela anos de tratamentos inadequados e sofrimento evitável.
Leia também:Avaliação do TEA de acordo com o DSM-5-TR: critérios e comorbidades principais | Artmed
Impactos emocionais e relacionais do não reconhecimento
O não reconhecimento do TEA gera consequências profundas na vida emocional e relacional da mulher autista. Sem o diagnóstico, ela pode crescer internalizando uma narrativa de fracasso pessoal. Conforme Pereira e Castro (2024), muitas mulheres relatam crises de identidade, pois passam décadas tentando “se encaixar” sem entender por que o mundo parece exigir delas algo que não conseguem oferecer de forma espontânea. A exaustão crônica gerada pela camuflagem contribui para quadros de burnout autista, transtornos alimentares, automutilação e ideação suicida (OCHOA-LUBINOFF; MAKOL; DILLON, 2023). Nos relacionamentos, a dificuldade em ler as entrelinhas e manter a reciprocidade emocional gera conflitos recorrentes que, sem a compreensão do TEA, são atribuídos a falhas de caráter, tanto pela própria mulher quanto por quem convive com ela.
Existem diferenças entre o cérebro de um perfil feminino e o de um perfil masculino com TEA?
Conforme Souza et al. (2024), o cérebro de meninas e meninos com autismo se organiza de formas diferentes, e isso se reflete diretamente em como cada um manifesta o transtorno. Nos meninos, as regiões mais afetadas incluem o córtex cingulado anterior subgenual e o córtex pré-frontal ventromedial, áreas ligadas à regulação emocional, à extinção do medo e à detecção de situações sociais inesperadas, o que tende a produzir sintomas mais visíveis. Nas meninas, as alterações se concentram em áreas como o giro temporal superior esquerdo, associado à percepção social e à comunicação, e frequentemente se traduzem em ansiedade e sofrimento emocional que podem ser confundidos com outros diagnósticos. Além disso, regiões ligadas à linguagem, como os giros temporais médios e superiores, tendem a ser mais preservadas nas mulheres autistas, o que contribui para que elas passem despercebidas pelo sistema diagnóstico.
Essas diferenças não significam que o autismo feminino seja mais leve; significa que ele se expressa por vias neurobiológicas distintas. Cerca de 80% das mulheres autistas estudadas apresentaram um padrão de espessura cortical mais parecido com o de homens neurotípicos, e aquelas com esse perfil tinham mais de seis vezes mais chance de serem diagnosticadas, o que sugere que os critérios e instrumentos atuais ainda favorecem a identificação de apresentações mais tipicamente masculinas (SOUZA et al., 2024).
Implicações para o manejo clínico com mulheres autistas
Para o psicólogo que atende mulheres autistas, é fundamental adotar uma postura clínica que vá além da aplicação mecânica de protocolos. Isso implica investigar ativamente a história desenvolvimental, perguntar diretamente sobre estratégias de camuflagem e considerar que apresentações “sutis” não significam ausência de sofrimento. Ochoa-Lubinoff, Makol e Dillon (2023) recomendam que, diante de casos complexos com múltiplas comorbidades psiquiátricas, o clínico considere se o TEA não ofereceria uma explicação mais abrangente e coerente para o quadro apresentado. Além disso, Pereira e Castro (2024) reforçam a importância de que o manejo clínico com mulheres autistas contemple não apenas a redução de sintomas, mas também o fortalecimento da identidade autêntica da paciente, ajudando-a a compreender suas características como parte de quem ela é, e não como defeitos a serem corrigidos.
Formação continuada e atualização do psicólogo
Por fim, é preciso que os profissionais reconheçam que a formação de graduação, em muitos casos, não oferece preparo suficiente para identificar e manejar o TEA em mulheres. A literatura sobre o espectro autista feminino cresceu exponencialmente nos últimos anos, mas boa parte dos profissionais ainda opera com referências baseadas predominantemente em amostras masculinas. Investir em formação continuada, buscar supervisão especializada e manter-se atualizado com a produção científica recente não é apenas uma questão de aprimoramento técnico, mas também uma questão ética. Cada mulher autista que passa despercebida pelo consultório é uma mulher que segue sem compreender a si mesma, acumulando sofrimento que poderia ter sido acolhido e ressignificado com o diagnóstico correto.
Autoria
Autoras:
Loch, P. K.; Santos, E. F. L.; Neufeld, C. B.
Polyane Kestering Loch:
Psicóloga Clínica e Neuropsicóloga, especialista em Neuropsicologia, com atuação voltada principalmente ao atendimento de crianças, adolescentes e jovens adultos. Atua com psicoterapia, orientação parental e avaliação neuropsicológica, especialmente em demandas relacionadas ao TEA, TDAH, Altas Habilidades/Superdotação, funções executivas, dificuldades de aprendizagem e desenvolvimento cognitivo e socioemocional. Atuou como psicóloga e neuropsicóloga na APAE de São Ludgero. Pós-graduação em andamento em Intervenção ABA para Autismo e Deficiência Intelectual pelo CBI of Miami.
Eloha Flória Lima Santos:
Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento.
Carmem Beatriz Neufeld:
Livre-docente pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP). Pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestra e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de São Paulo (LaPICC-USP). Professora Titular do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP. Ex-Presidente da Federação Latino-Americana de Terapias Cognitivo-Comportamentais - ALAPCCO) (2019–2022 e 2022-2025). Ex-Presidente fundadora da Associação de ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC) (2011–2013 e 2013–2015). Bolsista Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).