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Por que decidi voltar ao Brasil para ampliar o acesso à Psicologia Baseada em Evidências

Harvard não era o meu sonho. 

Em 1997, eu nem sequer sabia o que Harvard representava. A universidade acabou se tornando parte do meu destino, mas a minha história começou muito antes, em Governador Valadares, no interior de Minas Gerais. 

Tive uma infância difícil, marcada por traumas e diferentes desafios. 

Naquele momento, eu ainda estava muito distante da carreira que construiria anos depois como psicóloga, pesquisadora, professora e autora nos Estados Unidos. 

Hoje, vejo que foram as diferentes experiências da minha trajetória que me ajudaram a compreender o meu propósito: 
fazer com que o conhecimento científico chegue à prática de uma forma que possa ser utilizada por psicólogos e contribua para o cuidado de seus pacientes.
 

Quando aprendi a abordar em vez de evitar 

Aos 15 anos, mudei de Governador Valadares para Belo Horizonte. A mudança despertou em mim uma sensação que muitas pessoas conhecem: a de não ser suficiente. 

No novo colégio, eu acreditava que todos eram mais inteligentes do que eu. Para lidar com essa insegurança, fiz o que sabia fazer naquele momento. Estudei cada vez mais. Ao mesmo tempo, deixei de sair, não construí amizades e fiquei muito ansiosa. 

Foi quando Maria Helena Esteves Martins, minha avó adotiva, percebeu que eu estava travada. Ela não tinha formação em psicologia, mas me ensinou algo que, mais tarde, se tornaria central no meu trabalho: abordar o desconforto em vez de evitá-lo. 

Ela me incentivou a sair da minha zona de conforto e a enfrentar situações das quais eu queria fugir. Anos depois, durante a minha formação, reconheci naquela experiência elementos semelhantes às técnicas de exposição que aprenderia a utilizar com pacientes. 

Essa experiência me ensinou algo que continuaria presente em toda a minha jornada: diante do desconforto, é possível aprender a abordar em vez de evitar. 

A dúvida permanece, mas o método pode mudar 

Mesmo depois de anos de clínica, pesquisa e formação de profissionais, ainda posso me perguntar se vou dar conta ou se serei boa o suficiente. A dúvida não desaparece necessariamente com a experiência. 

O que pode mudar é a maneira como respondemos a ela. 

No primeiro dia do meu doutorado nos Estados Unidos, um dos meus grandes mentores me disse que o dia em que eu achasse que sabia tudo sobre um paciente seria o dia em que teria errado. 

Essa frase permaneceu comigo porque resume uma parte importante do trabalho clínico. Não temos como saber tudo. Também não precisamos carregar sozinhos toda a responsabilidade pela melhora do paciente. 

Precisamos conhecer um método que nos ajude a implementar a 
Psicologia Baseada em Evidências
, utilizar as evidências disponíveis e considerar o contexto de cada pessoa. 

Essa base pode trazer mais clareza para a formulação dos casos e para as decisões tomadas ao longo do tratamento. 

A Psicologia Baseada em Evidências é necessária, mas sua existência, por si só, não garante que o profissional consiga implementá-la. 

A ponte que revelou a distância entre ciência e prática 

Em 2012, saí de Boston e atravessei uma ponte para trabalhar em uma clínica comunitária em Chelsea, Massachusetts, associada a Harvard. 

Eu queria trabalhar com pacientes latinos, pessoas que haviam vivido a pobreza e histórias marcadas por trauma. Havia uma identificação pessoal nesse movimento. Eu também vinha da pobreza e havia vivido experiências traumáticas. 

Naquele momento, acreditava que encontraria profissionais preparados para aplicar tratamentos baseados em evidências. Afinal, aquela era uma clínica ligada a Harvard. A realidade foi diferente. 

Muitos profissionais não tinham recebido treinamento adequado para tratar trauma. 

Naquele serviço, 80% dos pacientes apresentavam histórias extensas de trauma que interferiam na condução do tratamento, mesmo quando não havia um diagnóstico de 
transtorno de estresse pós-traumático

Também existia o receio de que determinadas intervenções pudessem desestabilizar a pessoa ou piorar sua condição. Foi ao atravessar aquela ponte que compreendi, pela primeira vez, o tamanho da lacuna entre aquilo que a ciência produz e o que efetivamente chega à prática clínica. 

Foi ali que eu entendi, pela primeira vez, o que a ciência da implementação já mostrava: existe uma distância enorme entre aquilo que a pesquisa descobre e o que realmente chega à clínica. 

Em média, são 17 anos entre a produção da evidência científica e sua aplicação, e apenas 14% dessas descobertas chegam à prática.  

Esse não é um problema do psicólogo, nem uma dificuldade exclusiva do Brasil. É um problema global, que afeta diretamente a forma como os profissionais são preparados e como os pacientes recebem cuidado.  

As perguntas que me fizeram olhar novamente para o Brasil 

Durante muitos anos, minha vida profissional esteve concentrada na carreira que construí em Harvard, na pesquisa, na clínica e na produção de livros e artigos. 

Em 2023, depois da publicação do meu livro, comecei a ouvir perguntas que ainda não havia respondido. Por que eu não tinha um Instagram em português? Por que ainda não conversava diretamente com os psicólogos brasileiros? 

De um lado, estava a carreira que eu havia construído nos Estados Unidos. Do outro, estava o Brasil. Eu ainda precisava entender qual seria o meu porquê naquela nova fase da minha vida. 

Passei a conversar e colaborar com profissionais brasileiros. Dentro de Harvard, acreditamos na colaboração. Não se trata de competir, mas de reunir pessoas que compartilham o desejo de ampliar a qualidade da psicologia. 

Essas conversas me ajudaram a perceber que eu tinha algo a oferecer. Ao mesmo tempo, mostraram que não faria sentido simplesmente pegar o que aprendi em Harvard e apresentá-lo aos psicólogos brasileiros. 

Era preciso construir uma forma de integrar esse conhecimento ao contexto em que seria aplicado. Levei quase dois anos trabalhando nessa integração para o psicólogo no Brasil. 

 

A descoberta que tornou a lacuna impossível de ignorar 

O momento decisivo aconteceu em 2026, durante uma aula com o meu grupo de mentorados. Eu estava ensinando um protocolo de exposição prolongada que havia aprendido em 2005. Para mim, aquele era um conhecimento antigo e familiar. 

Uma das profissionais pediu que eu diminuísse a velocidade. Foi então que descobri que o protocolo nunca havia sido traduzido para o Brasil e que o livro não estava disponível para compra no país. 

Aquilo tornou a lacuna de 17 anos concreta diante de mim. 

Pensei no que significaria esperar 17 anos por um conhecimento necessário naquele momento. Foi então que compreendi, com ainda mais clareza, por que queria voltar para casa e trabalhar com os psicólogos brasileiros. 

Meu porquê é impacto 

Quero contribuir para que psicólogos brasileiros tenham acesso à Psicologia Baseada em Evidências, mas o meu objetivo não termina no acesso. É preciso ajudar os profissionais a implementar o que estudam. 

Muitos psicólogos fazem cursos, leem livros, assistem a aulas e procuram novos protocolos. Ainda assim, podem travar diante de casos complexos porque todo aquele conhecimento permanece difícil de organizar e transformar em ação. 

Por isso, não quero apenas apresentar o que aprendi em Harvard. Quero construir esse trabalho junto aos profissionais do Brasil, considerando as evidências, a capacidade de utilizá-las e o contexto de cada paciente. 

A ciência precisa chegar à clínica de uma forma que o profissional consiga aplicar. Para mim, voltar ao Brasil significa contribuir para reduzir essa lacuna e ajudar psicólogos a transformar conhecimento em uma prática mais sólida. 

 

Transforme conhecimento científico em decisões clínicas 

Reduzir a distância entre ciência e prática exige mais do que conhecer técnicas e protocolos. É preciso desenvolver raciocínio clínico, aprender a formular casos, planejar tratamentos e acompanhar a evolução de cada paciente com método e segurança. 

Na Pós-Graduação em Psicologia Baseada em Evidências da Pós Artmed, com a Dra. Luana Marques, você vai aprofundar competências para realizar avaliações clínicas, construir formulações de caso, selecionar intervenções baseadas em evidências e tomar decisões mais fundamentadas diante dos desafios da prática. 

A formação também aborda ética, posicionamento e organização do consultório, contribuindo para uma atuação clínica mais sólida e sustentável. 

 

Perguntas Frequentes