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Classificação de risco em obstetrícia: diagnóstico de enfermagem

A classificação de risco em obstetrícia constitui uma etapa essencial no acolhimento da gestante, sendo um mecanismo que identifica precocemente sinais de gravidade para priorizar o atendimento adequado, quando necessário. 

O acolhimento com classificação de risco — também referido como “triagem obstétrica” ou “acolhimento com classificação de risco obstétrica” — visa garantir que gestantes com potencial de complicações sejam identificadas logo na chegada ao serviço, diminuindo o tempo até a intervenção e melhorando os fluxos de atendimento. 

No contexto do acolhimento, a entrevista inicial, a escuta qualificada, a verificação de queixas-chave (como sangramento, hipertensão, perda de líquido) e a observação rápida de sinais de alerta são etapas que devem ser estruturadas em protocolos padronizados. 

O enfermeiro desempenha papel central nessa porta de entrada, pois ele pode realizar a triagem, avaliar risco, garantir encaminhamento ou monitoramento conforme o nível de gravidade e atuar como elo entre a gestante e a equipe multiprofissional. 

Além disso, no Brasil, há estudos que apontam a relevância da recepção com classificação de risco obstétrica para melhorar a qualidade do cuidado na atenção obstétrica e, consequentemente, reduzir os encaminhamentos prolongados e inseguros das gestantes. 

Portanto, a classificação de risco não é apenas um ato burocrático ou administrativo, mas uma ferramenta de segurança para o binômio mãe-bebê, exigindo eficiência, padronização e protagonismo da equipe de enfermagem. 

A equipe de enfermagem, e em especial o enfermeiro obstétrico, assume responsabilidades fundamentais em todo o processo de classificação de risco: conduzir a triagem, aplicar questionários ou protocolos, monitorar sinais vitais, identificar sintomas de alerta, registrar e encaminhar adequadamente. 

Cabe ao enfermeiro também garantir que as gestantes sejam acolhidas de forma humanizada — o que implica escuta ativa, identificação de vulnerabilidades psicossociais, oferta de informações e encaminhamento não somente técnico, mas também considerando o contexto da mulher. 

A articulação com outros profissionais (médicos obstetras, neonatologistas, equipe de enfermagem, serviço social) e a garantia de fluxo seguro para casos classificados como de risco elevado também são atribuições desse profissional. 

Protocolos e critérios utilizados 

No Brasil, o Ministério da Saúde publicou o Manual de Acolhimento com Classificação de Risco em Obstetrícia, que orienta a implementação da triagem obstétrica nas unidades de saúde. 

Esse manual define critérios mínimos para identificação de gestantes com risco, fluxos de atendimento, registro e encaminhamento. 

Além disso, muitas instituições de saúde têm manuais institucionais adaptados conforme sua complexidade (atenção primária, secundária, terciária), estabelecendo protocolos internos de risco obstétrico e triagem. A adoção padronizada desses protocolos permite uniformizar a prática de enfermagem e reduzir falhas na comunicação e no encaminhamento. 

Durante a triagem obstétrica, devem ser avaliados sinais de alerta que indicam risco materno-fetal imediato ou iminente. Dentre os mais frequentes, destacam-se: 

  • Hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia e suas formas graves (cefaleia persistente, alterações visuais, dor no hipocôndrio direito) que representam risco à mãe e ao feto. 
  • Sangramento vaginal em qualquer período da gestação associado ou não a dor ou perda de líquido amniótico — pode indicar desprendimento prematuro de placenta, placenta prévia, risco de parto prematuro. 
  • Perda de líquido amniótico ou ruptura prematura de membranas — em gestações tardias ou risco de infecção pós-ruptura prolongada. 
  • Diminuição ou ausência de movimentos fetais ou alterações no padrão da frequência cardíaca fetal — sinal de sofrimento fetal que exige avaliação imediata. 

 Esses sinais devem ser registrados e avaliados pelo enfermeiro na entrada da gestante no serviço, e se identificados, necessariamente provocam classificação de risco elevado e encaminhamento prioritário. 

Diferença entre risco habitual e alto risco 

A classificação de risco obstétrica geralmente distingue entre gestação de risco habitual (ou de risco “rotineiro”) e gestação de alto risco. 

A gestação habitual refere-se àquela sem complicações identificadas além das esperadas para o avanço normal da gravidez. Já a gestação de alto risco envolve fatores maternos, fetais ou gestacionais que aumentam a probabilidade de complicações graves ou óbito. 

Fatores que colocam a gestante como alto risco incluem: hipertensão crônica ou gestacional grave, diabetes mellitus gestacional mal controlado, doenças cardíacas maternas, doença renal, trabalho de parto prematuro, gemelaridade, anomalias fetais, entre outros. 

O enfermeiro deve conhecer os critérios institucionais ou do serviço para definir risco habitual vs. alto risco, pois isso orienta o fluxo de atendimento, o nível de observação exigido e o tipo de equipe que será envolvida. 

Diagnósticos de enfermagem mais comuns na obstetrícia 

Na gestação com hipertensão ou pré-eclâmpsia, os diagnósticos de enfermagem mais frequentes incluem: “Risco de perfusão uteroplacentária deficiente”, “Risco de lesão materna relacionado à pressão arterial elevada”, “Ansiedade relacionada à alteração do estado de saúde gestacional”, “Conhecimento deficiente sobre a terapia anti-hipertensiva” etc. 

O enfermeiro deve aplicar processo de enfermagem sistemático para essas gestantes, com foco em monitoramento, educação e prevenção de complicações. 

Outros diagnósticos de enfermagem comuns no contexto obstétrico de risco elevado envolvem: 

  • Risco de infecção relacionado à ruptura prematura de membranas ou procedimentos obstétricos invasivos. 
  • Risco de hemorragia materna relacionado a placenta prévia, descolamento de placenta, ou distúrbios de coagulação. 
  • Risco de sofrimento fetal relacionado à diminuição de perfusão placentária, anemia materna, hipertensão ou intercorrências fetais. Esses diagnósticos exigem vigilância atenta, registros precisos, intervenções de enfermagem e encaminhamento rápido para a equipe médica ou de obstetrícia, conforme indicação. 

Para apoiar o raciocínio clínico e a identificação de risco, o enfermeiro pode utilizar instrumentos padronizados como: checklists de triagem obstétrica, sistemas de alerta obstétrico, protocolos institucionais, fluxogramas de encaminhamento, além de escalas de risco. 

Essa combinação entre protocolo, ferramenta de alerta e julgamento clínico da enfermagem fortalece a qualidade do cuidado e a segurança materno-fetal. 

Atuação do enfermeiro na triagem obstétrica 

Na triagem obstétrica realizada pelo enfermeiro, a entrevista clínica deve contemplar: história obstétrica (gravidezes anteriores, partos, complicações), antecedentes maternos (hipertensão, diabetes, doenças cardíacas), queixa principal (sangramento, perda de líquido, dor, diminuição de movimentos fetais), além de aspectos psicossociais. 

Em seguida, o exame físico direcionado inclui medição de pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória, temperatura, verificação de edema, altura uterina, batimento cardíaco fetal, avaliação de líquido amniótico (quando indicado) e observação de sinais de alarme. 

A precisão e rapidez dessa avaliação são essenciais para a classificação de risco. Um acolhimento bem feito permite ao enfermeiro definir se a gestante será encaminhada imediatamente à obstetrícia de alto risco ou se permanecerá no fluxo de risco habitual. 

Após a triagem, o enfermeiro deve registrar de forma clara, completa e objetiva os achados da entrevista e exame físico, utilizando os protocolos ou formulários regulamentados pelo serviço de saúde. Esse registro fundamenta a decisão de classificação de risco e o encaminhamento da gestante. 

Caso sejam identificados sinais graves ou de alto risco (por exemplo: pressão arterial ≥ 160/110 mmHg, sangramento ativo, diminuição de movimentos fetais, perda de líquido amniótico, dor intensa ou cefaleia persistente), o encaminhamento deve ser imediato para obstetrícia de referência ou unidade de maior complexidade, conforme fluxo definido no protocolo institucional. Esse processo rápido contribui para a redução de eventos adversos. 

Comunicação com equipe multiprofissional e humanização no acolhimento 

O enfermeiro tem o papel de conectar a gestante à equipe multiprofissional: obstetra, neonatologista, intensivista (quando necessário), outros especialistas, além de serviços de apoio como psicologia ou assistência social. 

A comunicação clara entre a enfermagem e os demais profissionais favorece a continuidade do cuidado e evita falhas de transição. 

Adicionalmente, o acolhimento humanizado é princípio fundamental: inclui escuta sensível, explicação clara sobre o processo de avaliação, garantia de privacidade, respeito à mulher gestante, esclarecimento dos próximos passos e suporte psicológico. 

Isso favorece a adesão ao cuidado, reduz ansiedade e fortalece a confiança entre gestante e equipe de saúde. 

Desafios e responsabilidades na prática 

Apesar dos benefícios reconhecidos, existem barreiras na implementação da classificação de risco obstétrica de forma eficaz. Entre elas: falta de capacitação adequada da equipe de enfermagem, ausência ou inadequação de protocolos atualizados, sobrecarga de demanda nas unidades de saúde, falhas no fluxo de encaminhamento, falta de recursos humanos ou materiais, além de resistências organizacionais. 

No Brasil, a qualidade dos serviços de acolhimento com classificação de risco ainda apresenta lacunas, dificultando seu desempenho ideal. 

Ademais, a variação entre serviços quanto aos critérios utilizados, à qualificação dos profissionais e à disponibilidade de níveis de cuidado de referência dificulta a padronização e compromete a segurança do processo. 

Para superar essas barreiras, é imprescindível investir em educação permanente da equipe de enfermagem, especificamente em triagem obstétrica, protocolos de risco, sinais de alerta, fluxos de encaminhamento e humanização do acolhimento. O desenvolvimento de competências como o julgamento clínico, comunicação eficaz e trabalho em equipe também são fundamentais. 

A literatura recente sugere que ferramentas de tecnologia educacional — como simulações, e-learning e aplicativos — podem apoiar a capacitação em sinais de risco na gestação. Além disso, a atualização constante de protocolos, com base em evidências científicas emergentes e indicativos de qualidade, fortalece a prática da enfermagem obstétrica. 

Embora a classificação de risco requeira precisão técnica (exame físico, sinais vitais, critérios), a enfermagem deve equilibrar essa abordagem técnica com o cuidado humanizado. Ou seja, não basta “classificar” — é necessário acolher, escutar, considerar as especificidades da gestante (cultura, vulnerabilidades, preferências), e garantir dignidade e autonomia no processo. 

O acolhimento humanizado reduz a ansiedade, melhora a experiência da gestante e favorece melhor adesão às orientações. A enfermagem, então, assume não apenas papel técnico, mas também de facilitadora do cuidado centrado na mulher. 

Considerações finais 

A classificação de risco em obstetrícia emerge como uma ferramenta de segurança materno-fetal de grande relevância. Permitindo a triagem eficiente, identificação precoce de riscos, priorização do atendimento e encaminhamentos adequados, ela contribui de forma decisiva para a redução de morbimortalidade materna e neonatal. 

O enfermeiro obstétrico se coloca como protagonista nesse processo: desde o acolhimento, triagem, exame, registro, encaminhamento e articulação multiprofissional, até o cuidado humanizado que sustenta todo o fluxo. Para tanto, é vital o uso de protocolos padronizados, ferramentas de apoio e educação permanente da equipe de enfermagem. 

A adoção de fluxos estruturados, atualização constante e humanização do cuidado configuram-se como pilares para a efetividade da classificação de risco em obstetrícia. 

Em suma, investir no fortalecimento da classificação de risco obstétrica e no protagonismo da enfermagem é investir em cuidado seguro, eficaz e humanizado para a gestante e o seu bebê.

Perguntas Frequentes