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História da Psicanálise: o que David E. Zimerman nos conta sobre essa trajetória

Todo conhecimento em psicanálise, seja ele teórico ou técnico, adquire profundidade e sentido quando lido dentro de um contexto histórico, social, cultural e científico. 

Não é possível compreender a escuta clínica, os conceitos de inconsciente, de transferência ou de resistência sem antes percorrer o caminho tortuoso que levou à sua descoberta. 

A história da psicanálise é, em grande medida, a história da humanidade aprendendo a olhar para dentro de si mesma. 

Neste artigo, percorremos essa trajetória com base no primeiro capítulo dos 
Fundamentos Psicanalíticos
, de David E. Zimerman
, uma das obras de referência mais completas da psicanálise em língua portuguesa. 

A proposta é apresentar essa história de forma acessível a quem está começando sua formação em psicologia, sem abrir mão do rigor que o tema exige. 

Pré-história: quando a loucura era punida, não compreendida 

Para entender o surgimento da psicanálise, precisamos recuar no tempo, bem antes de Freud. 

Zimerman propõe dividir a história da assistência aos transtornos mentais em três grandes períodos: a pré-história, os pródromos científicos e a psicanálise como ciência. Essa divisão, explicitamente didática, nos ajuda a situar cada avanço em seu contexto. 

No período que o autor chama de pré-história, o sofrimento psíquico era interpretado dentro de uma lógica mágica e religiosa. 

Registros arqueológicos do Egito Antigo apontam para a prática de trepanações cranianas, sugerindo que nossos ancestrais buscavam causas físicas no interior do crânio para os fenômenos mentais que não conseguiam explicar. 

A Bíblia Sagrada, por sua vez, é rica em descrições de quadros que hoje reconheceríamos como transtornos psiquiátricos: o sadismo destrutivo de Caim, a psicose maníaco-depressiva do rei Saul, o alcoolismo de Noé, uma verdadeira coleção de psicopatologia registrada séculos antes de qualquer nome científico. 

Na Idade Média, o cenário se tornaria ainda mais sombrio. Doentes mentais eram degredados, encarcerados junto a criminosos, exibidos em espetáculos circenses ou submetidos a rituais de exorcismo. 

A demonologia dominava: a doença mental era entendida como possessão, e os agentes de “cura” eram bruxos, xamãs e sacerdotes. Esse panorama nos ajuda a entender por que cada pequeno passo na direção de uma compreensão mais humana do sofrimento psíquico foi, na verdade, uma ruptura radical. 

É nesse contexto que emerge, em meados do século XVIII, a figura de Anton Mesmer, que em Viena praticava o chamado "magnetismo animal", uma forma de sugestão coletiva baseada em seu carisma pessoal, que ficou conhecida como mesmerismo. 

Embora claramente pré-científica, essa prática pode ser considerada um precursor do hipnotismo e, indiretamente, da própria psicanálise. 

Pinel e a revolução do tratamento moral 

Uma virada fundamental nesse percurso pré-científico veio com Philippe Pinel (1745–1826) e seu discípulo Esquirol (1772–1840), médicos que beberam dos ideais libertários da Revolução Francesa de 1789. Atuando no hospital Bicêtre, em Paris, eles promoveram uma reforma radical: quebraram grilhões, sanearam as celas e instituíram o que ficou conhecido como "tratamento moral". 

A ideia central era simples e revolucionária, o doente mental merecia respeito, dignidade e a recuperação de sua identidade, principalmente por meio do trabalho. Era a primeira vez que a loucura era tratada como algo a ser compreendido, e não apenas contido. 

Os pródromos científicos: o jovem Freud e o fascínio pelo hipnotismo 

Em 1856, nascia Sigmund Freud. Aos 17 anos, iniciou sua formação médica em Viena, onde logo se destacou como pesquisador brilhante. 

Seus primeiros trabalhos, sobre a estrutura gonadal das enguias e o sistema nervoso de certos peixes, parecem curiosidades distantes da psicanálise, mas Zimerman faz uma observação perspicaz: o interesse pela sexualidade e pelo sistema nervoso já prenunciava os dois grandes eixos sobre os quais Freud construiria sua obra. 

A medicina da época era quase inteiramente biológica. A psiquiatria não passava de um ramo da neurologia, e os tratamentos disponíveis (ervas medicinais, repouso no leito, hidroterapia, massagens e estímulos elétricos) revelavam o quanto havia ainda por descobrir. 

Foi nesse ambiente que o jovem Freud teve seu primeiro contato decisivo com o hipnotismo, ao estagiar com Jean-Martin Charcot na famosa Salpêtrière, em Paris, entre 1885 e 1886. 

Dois fenômenos impressionaram profundamente Freud na experiência com Charcot: a existência da histeria em homens (até então considerada uma condição exclusivamente feminina) e a possibilidade de dissociar a mente por meio do transe hipnótico. Ali germinava algo fundamental para o que viria depois. 

Um pouco antes disso, em 1882, o neurologista Josef Breuer havia relatado a Freud um caso clínico que ficaria na história: o de Anna O. (cujo nome real era Berta Papenheim), uma jovem paciente histérica que, durante o estado de transe, recordava ocorrências traumáticas do passado e obtinha alívio sintomático ao fazê-lo. 

Breuer chamou esse método de catarse — também conhecida como 
talking cure
 (cura pela fala), expressão cunhada pela própria paciente. Esse seria o embrião do método psicanalítico. 

O nascimento da psicanálise como ciência 

Freud percebeu cedo que era um mau hipnotizador. Isso o levou a experimentar uma abordagem diferente: a de convidar seus pacientes a associarem livremente, sem o estado de transe, enquanto reclinavam no divã. 

Inicialmente, usava um método coercitivo, pressionando a fronte dos pacientes com os dedos para estimular a lembrança dos traumas. Foi uma paciente chamada Elisabeth Von R. quem o corrigiu, ao dizer que, sem essa pressão, associaria com muito mais liberdade. 

Essa observação simples foi uma virada epistemológica: Freud começou a perceber que as resistências ao lembrar não eram simples obstáculos, mas forças ativas e inconscientes. 

Em 1895, Freud e Breuer publicaram juntos os Estudos sobre a histeria. Mas os dois logo divergiram: Breuer recuou diante da ênfase crescente de Freud na sexualidade infantil, e Freud seguiu sozinho, enfrentando as críticas mordazes dos colegas. 

Foi nessa solidão produtiva que as ideias mais radicais amadureceram. 

A concepção de que o conflito psíquico resulta do embate entre forças instintivas e forças repressoras, e de que os sintomas são a representação simbólica desse conflito inconsciente, inaugura a psicanálise como ciência, com referências teórico-técnicas próprias, específicas e consistentes. 

Os cinco estágios da obra freudiana 

Zimerman organiza a evolução do pensamento freudiano em cinco estágios. Conhecê-los é fundamental para qualquer estudante de psicologia que queira compreender a psicanálise além do senso comum. 

1. Teoria do Trauma
 

A primeira fase do pensamento freudiano foi dominada pela ideia de que as neuroses (histeria, neurose obsessiva, fobias) resultavam de traumas sexuais reais vividos na infância. A cura, nessa perspectiva, consistia em "lembrar o que estava esquecido". 

Freud acreditava que os neuróticos sofriam de reminiscências, e que a abreação, a descarga emocional ligada à recordação do trauma, seria terapêutica. 

2. Teoria Topográfica
 

Em 1897, Freud percebeu que a teoria do trauma era insuficiente: os relatos das pacientes histéricas não eram apenas memórias factuais, mas estavam contaminados por fantasias inconscientes. 

Isso o levou a propor a divisão da mente em três "lugares" (do grego topos): Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente. O novo paradigma técnico tornou-se: "tornar consciente o que está no inconsciente". 

Em 1900, A Interpretação dos Sonhos consolidou essa fase, os sonhos passaram a ser entendidos como a via régia de acesso ao inconsciente, expressão disfarçada de desejos proibidos. 

3. Teoria Estrutural
 

À medida que aprofundava sua compreensão da dinâmica psíquica, Freud sentiu os limites da teoria topográfica, que era por demais estática. 

A partir de O Ego e o Id (1923), propôs a estrutura tripartida da mente: o id (sede das pulsões), o ego (com suas funções e representações) e o superego (instância das proibições e punições). 

O paradigma técnico passou a ser: "onde houver id e superego, o ego deve estar". 

4. O Narcisismo
 

Embora não sistematizados como uma teoria completa, os estudos de Freud sobre o narcisismo abriram portas fundamentais para a compreensão do psiquismo primitivo e das primeiras relações objetais. 

Eles se tornaram sementes que germinaram nas obras de inúmeros autores posteriores, de diferentes escolas. Na psicanálise contemporânea, um de seus desdobramentos pode ser resumido na fórmula: "onde houver Narciso, Édipo deve estar". 

5. A Dissociação do Ego
 

Aquele jovem que ficou perplexo diante da dissociação da mente nas histéricas de Charcot jamais abandonou essa questão. 

Em seus últimos trabalhos, especialmente Clivagem do Ego no Processo de Defesa (1940), Freud estudou a cisão intrassistêmica do próprio ego, pavimentando o caminho para contribuições futuras extraordinárias, como as de Bion sobre a coexistência da "parte psicótica e da parte não-psicótica da personalidade" em qualquer ser humano. 

Depois de Freud: uma árvore com incontáveis ramificações 

A partir de 1906, Freud encerrou o que ele mesmo chamava de seu "esplêndido isolamento" e passou a se reunir com um grupo de colaboradores brilhantes nas famosas "Reuniões das Quartas-Feiras", que dariam origem à Sociedade Psicanalítica de Viena. Nomes como Abraham, Ferenczi, Rank, Jung e Adler integravam esse círculo pioneiro. 

A Associação Internacional de Psicanálise (IPA) foi fundada em 1910, em Nuremberg, com Jung como primeiro presidente, por sugestão do próprio Freud. Mas as dissidências logo começaram: Adler e Stekel romperam logo a seguir, e em 1914 foi a vez de Jung, a ruptura mais dolorosa para Freud. 

Com a Segunda Guerra Mundial e a perseguição nazista, muitos analistas vienenses migraram para outros países, dispersando e ao mesmo tempo enriquecendo o movimento psicanalítico. 

Nos Estados Unidos, Heinz Hartmann fundou a Escola da Psicologia do Ego; Margaret Mahler estudou os estágios evolutivos do bebê; e Kohut desenvolveu a Psicologia do Self, com ênfase na dimensão estruturante do narcisismo e nas falhas empáticas precoces da mãe. 

Em Londres, Melanie Klein inaugurou uma das mais influentes escolas do pensamento psicanalítico. Com base em sua prática de análise com crianças muito pequenas, Klein propôs a existência de um ego primitivo desde o nascimento, capaz de mobilizar defesas arcaicas contra ansiedades intensas ligadas à pulsão de morte inata. 

A escola kleiniana gerou continuadores, como Bion e Winnicott, que, a partir dela, construíram obras de originalidade extraordinária. 

Na França, Jacques Lacan propôs o retorno a Freud como reação ao que considerava um pragmatismo excessivo da psicanálise norte-americana, fundando a Escola Estruturalista. 

Na mesma época, Winnicott, em seu "grupo independente" britânico, construía um corpo teórico centrado no vínculo real mãe-bebê, no holding e nos conceitos de "verdadeiro e falso self". 

A crise da psicanálise: ameaça ou oportunidade? 

Ao final do século XX, a psicanálise viu-se diante de uma crise que vai além de seus limites teóricos. 

Mudanças sociais profundas (a transformação do perfil dos pacientes, a escalada da violência, a emergência de tratamentos alternativos e a pressão de uma cultura que exige resultados imediatos) colocaram em xeque o modelo analítico clássico. 

Psicofármacos eficazes e psicoterapias breves passaram a concorrer diretamente com um tratamento que demanda tempo, investimento e tolerância à incerteza. 

Ao mesmo tempo, críticas legítimas surgiram de dentro da própria psicanálise: o pansexualismo de Freud, a subestimação da condição feminina, a exagerada ênfase na "inveja do pênis", todas concepções marcadas pelo contexto cultural vienense do século XIX que precisaram ser revistas ou descartadas. 

Em 1997, uma reunião da IPA na Venezuela reuniu as principais lideranças do movimento psicanalítico mundial para discutir exatamente essa crise. 

As conclusões, relatadas por Mabilde, foram claras: há um anacronismo entre a prática artesanal da psicanálise e as demandas contemporâneas por formação mais ágil e integrada ao conhecimento atual. O desafio é preservar os princípios essenciais da prática analítica enquanto se dialoga com o mundo que a rodeia. 

Zimerman, no entanto, lembra que a palavra "crise" pode ser lida de duas formas: como prelúdio de dissolução, ou como momento culminante que antecede uma transformação. 

A psicanálise, ao longo de sua história, já mostrou capacidade de se reinventar mantendo o essencial. Há razões para acreditar que o mesmo pode acontecer agora. 

O que essa história nos ensina para a prática clínica? 

Percorrer a história da psicanálise não é um exercício meramente acadêmico. É um caminho de formação de identidade clínica. 

Saber que Freud errou, recuou, reviu e avançou, e que seus discípulos fizeram o mesmo, nos ensina a sustentar a incerteza que é inerente ao processo analítico. 

Zimerman defende que o bom psicanalista não deve simplesmente trocar um paradigma por outro mais moderno, nem se fechar em uma única escola. Deve, ao contrário, construir sua identidade clínica a partir das vertentes que melhor ressoam com seu modo autêntico de ser, sem perder de vista os princípios essenciais do processo analítico.  

É uma postura que exige abertura, humildade e, ao mesmo tempo, firmeza. 

Para quem está iniciando sua jornada na psicologia, a história da psicanálise oferece também uma lição metodológica: qualquer prática clínica séria precisa de fundamentos. 

A escuta psicanalítica não é intuição pura, ela é construída sobre décadas de teoria, debate, erro e refinamento. Compreender esse processo é o primeiro passo para praticá-la com responsabilidade e profundidade. 

Perguntas Frequentes