O futuro da Psicologia Baseada em Evidências diante dos novos sofrimentos digitais

Pontos principais do artigo
- O sofrimento digital não se resume ao tempo de tela
- Quando a inteligência artificial ocupa uma função relacional
- Da economia da atenção à economia do apego
- Por que tratamos sistemas artificiais como se fossem humanos?
- Apoio complementar ou substituição das relações humanas?
- O trauma digital desafia a ideia de um evento encerrado
- O que precisa mudar na formação e na prática clínica
- Segurança tecnológica também precisa incluir segurança psicológica
- O futuro da PBE será construído entre rigor e abertura
- Aprofunde sua atuação em Psicologia Baseada em Evidências
A
inteligência artificial
, os vínculos construídos em ambientes virtuais e a permanência de experiências traumáticas no meio digital já fazem parte da realidade de muitos pacientes. Esses fenômenos chegam à prática clínica antes de contar com definições consolidadas, instrumentos específicos de avaliação ou protocolos suficientemente estudados.
Diante desse cenário, a
Psicologia Baseada em Evidências
enfrenta um novo desafio: compreender como a tecnologia transforma as formas de sofrer, estabelecer relações e procurar ajuda, sem abrir mão do rigor científico.
A resposta não está em tratar toda novidade como um transtorno nem em esperar que a ciência produza respostas definitivas para começar a observar essas mudanças. Está em reconhecer os limites do conhecimento disponível, formular novas perguntas clínicas e transformar fenômenos emergentes em objetos de investigação.
Para isso, é preciso compreender como uma prática orientada por evidências pode atuar justamente diante daquilo que a ciência ainda não explicou por completo.
A Psicologia Baseada em Evidências diante do que ainda não foi explicado
Os modelos que hoje orientam avaliações e intervenções não nasceram prontos.
Antes de serem sustentados por estudos, muitos fenômenos foram percebidos por clínicos e pesquisadores que observaram padrões ainda pouco compreendidos. Somente depois vieram definições mais precisas e evidências sobre possíveis formas de cuidado.
Uma prática orientada por evidências exige diferenciar aquilo que já foi demonstrado, as hipóteses ainda em análise e os pontos que demandam investigação.
Essa distinção é especialmente importante diante das experiências digitais. O profissional não deve transformar impressões em diagnósticos nem atribuir causalidade à tecnologia sem apoio científico.
No entanto, também não pode ignorar relatos de pacientes apenas porque ainda não existe uma categoria clínica específica para descrevê-los.
O sofrimento digital não se resume ao tempo de tela
Durante muitos anos, as preocupações relacionadas à internet se concentraram no uso excessivo. A principal pergunta era quanto tempo uma pessoa passava em jogos, redes sociais ou outros ambientes digitais.
Essa pergunta continua relevante, mas já não é suficiente. As pessoas trabalham, estudam, estabelecem vínculos, constroem identidades e procuram apoio por meio das telas. Duas pessoas podem permanecer conectadas pelo mesmo período e apresentar experiências psicológicas completamente diferentes.
Por isso, a avaliação clínica precisa avançar do tempo de uso para a função do uso.
É necessário compreender o que a pessoa busca
, como se sente durante e depois da interação e quais relações ou responsabilidades podem estar sendo afetadas.
A tecnologia pode servir como instrumento de aprendizagem e comunicação. Também pode funcionar como estratégia de evitação, fonte constante de validação ou substituta de relações humanas. O significado clínico não está apenas no dispositivo, mas na relação construída com ele.
Quando a inteligência artificial ocupa uma função relacional
Os
sistemas de inteligência artificial
conversacional podem ser utilizados para pesquisar informações, revisar textos ou preparar uma apresentação. Essas funções são claramente instrumentais.
A interação, entretanto, pode avançar para assuntos íntimos. O usuário passa a relatar inseguranças, conflitos, sintomas e decisões difíceis. A ferramenta começa a ser procurada não somente pelo que sabe, mas pela forma como responde.
Esses sistemas estão disponíveis continuamente, adaptam sua linguagem e produzem respostas que podem parecer acolhedoras e personalizadas.
Para alguém que se sente sozinho ou desconfortável em relações presenciais, essa experiência pode ser especialmente atraente.
É nesse ponto que surge uma pergunta central para a Psicologia: onde termina o uso de uma ferramenta e onde começa uma relação percebida pelo usuário?
Não é necessário atribuir consciência à máquina para reconhecer que a experiência emocional da pessoa pode ser real. Mesmo sabendo que conversa com um sistema, o usuário pode sentir proximidade, confiança, alívio ou dependência.
Da economia da atenção à economia do apego
As plataformas digitais foram amplamente associadas à disputa pela atenção. Recomendações, notificações e conteúdos personalizados ajudam a prolongar a permanência do usuário.
Uma nova dimensão surge com os modelos conversacionais: o sistema recomenda, responde, adapta o tom e mantém a continuidade, tornando a personalização parte da própria interação.
Essa mudança aproxima a economia da atenção de uma possível economia do apego, pois a conexão passa a ser sustentada pelo interesse na informação e pela percepção de uma presença disponível, alinhada às preferências do usuário.
Um dos elementos mais importantes dessa experiência é a redução da fricção. Relações humanas envolvem espera, discordância, limites e frustração. Já a inteligência artificial
pode oferecer respostas imediatas e frequentemente validantes.
Esse conforto também cria um contraste com as relações reais. Se interações difíceis forem substituídas por conversas previsíveis e personalizadas, a pessoa pode encontrar menos oportunidades para lidar com diferenças e tolerar frustrações.
Por que tratamos sistemas artificiais como se fossem humanos?
A tendência de atribuir características humanas a objetos é conhecida como antropomorfização. Os modelos de linguagem intensificam essa tendência porque respondem de maneira coerente e aparentemente sensível ao contexto.
O sistema não precisa sentir empatia para produzir uma resposta percebida como empática. Também não precisa compreender o sofrimento para gerar frases compatíveis com o que o usuário espera ouvir.
Para a Psicologia, o ponto decisivo está na forma como a pessoa interpreta a interação com a tecnologia, além de seu funcionamento. A sensação de ser compreendida pode influenciar decisões, comportamentos e vínculos, mesmo quando o interlocutor não possui consciência ou responsabilidade clínica.
Investigar essa experiência é essencial para evitar dois erros: considerar a interação irrelevante por ocorrer com uma máquina ou tratá-la como equivalente a uma
relação terapêutica
.
Apoio complementar ou substituição das relações humanas?
A inteligência artificial pode ajudar uma pessoa a organizar pensamentos, preparar perguntas para uma consulta ou ensaiar uma conversa difícil.
O risco aparece quando esse recurso passa a ocupar funções para as quais não possui competência, responsabilidade ou limites clínicos. Uma resposta acolhedora pode conter vieses,
reforçar interpretações inadequadas
ou não reconhecer a gravidade de uma situação.
Além disso, o alívio imediato pode adiar a procura por ajuda profissional ou reduzir o contato com pessoas de confiança. A questão não é decidir se o uso é sempre benéfico ou prejudicial, mas compreender o lugar que ele ocupa.
Na avaliação, algumas perguntas podem ajudar: a interação amplia a autonomia ou aumenta a dependência? Favorece conexões humanas ou contribui para o isolamento? Ajuda a pessoa a enfrentar situações difíceis ou serve para evitá-las?
Essas perguntas indicam aspectos que a clínica pode observar enquanto a pesquisa produz respostas mais consistentes.
O trauma digital desafia a ideia de um evento encerrado
Outro fenômeno importante é o chamado trauma digital. Em determinadas situações de violência, imagens, vídeos ou mensagens podem continuar circulando mesmo depois do acontecimento inicial.
Além da lembrança do ocorrido, a pessoa convive com a possibilidade de uma nova exposição ou compartilhamento, o que mantém o evento ativo no ambiente virtual.
Essa continuidade desafia modelos que pressupõem uma separação mais clara entre o acontecimento traumático e suas consequências. No ambiente digital, o fato pode não ser percebido como completamente encerrado.
Isso não autoriza a criação imediata de uma nova categoria diagnóstica. Indica, porém, que os profissionais precisam considerar a permanência e a reativação digital ao avaliar experiências traumáticas.
O que precisa mudar na formação e na prática clínica
A Psicologia do século XXI precisará incorporar a vida digital à compreensão do paciente.
Isso não significa transformar todo atendimento em uma investigação sobre tecnologia, mas reconhecer que experiências virtuais podem afetar vínculos, identidade, comportamento e saúde mental.
A formação profissional deverá
desenvolver literacia digital para que psicólogos compreendam como esses sistemas funcionam
e quais limites apresentam. Sem esse conhecimento, há risco de minimizar problemas reais ou atribuir à tecnologia efeitos que não foram demonstrados.
Na prática, a avaliação pode explorar quais plataformas o paciente utiliza, que informações compartilha, que função emocional atribui às interações e como reage quando não consegue acessá-las.
Também pode investigar se decisões importantes estão sendo delegadas ao sistema e se a tecnologia complementa ou substitui redes de apoio.
Essas informações devem ser interpretadas junto ao contexto e às características de cada pessoa. O objetivo não é vigiar o uso, mas compreender seu significado.
Segurança tecnológica também precisa incluir segurança psicológica
A
segurança da inteligência artificial
costuma ser discutida em termos de privacidade, vieses, desinformação e proteção de dados. Esses aspectos são indispensáveis, mas não esgotam o problema.
Sistemas capazes de manter conversas íntimas também podem encontrar usuários em situação de vulnerabilidade. Por isso, seu desenvolvimento precisa considerar riscos psicológicos, especialmente quando a interação envolve sofrimento intenso, dependência emocional ou possibilidade de autoagressão.
Uma tecnologia orientada ao bem-estar deveria reconhecer limites, explicitar sua natureza artificial e incentivar a busca por apoio humano quando necessário, em vez de priorizar a prolongação do engajamento.
A responsabilidade não cabe somente ao usuário ou ao profissional de saúde. Desenvolvedores, empresas, pesquisadores e instituições precisam participar da construção de parâmetros capazes de reduzir danos sem ignorar os benefícios possíveis.
Leia também:Mensuração de Resultados em Psicoterapia | Artmed
O futuro da PBE será construído entre rigor e abertura
Os novos modos de sofrimento não diminuem a importância da
Psicologia Baseada em Evidências
. Eles tornam seus princípios ainda mais necessários.
Sem rigor, fenômenos emergentes podem ser interpretados de forma alarmista ou transformados precocemente em diagnósticos. Sem abertura, experiências que já afetam os pacientes podem permanecer invisíveis até que a literatura alcance a prática.
O caminho mais responsável está em reconhecer esse intervalo.
Profissionais podem observar e formular perguntas sem apresentar hipóteses como certezas. Pesquisadores podem transformar essas perguntas em estudos. Instituições de ensino podem preparar futuros psicólogos para avaliar uma vida que já não se divide de maneira simples entre o presencial e o digital.
O futuro da Psicologia Baseada em Evidências dependerá da capacidade de manter o compromisso com a ciência sem perder de vista as transformações da experiência humana. Será necessário aprender a fazer perguntas clínicas à altura de um sofrimento que também muda com a tecnologia.
Aprofunde sua atuação em Psicologia Baseada em Evidências
A prática clínica exige decisões sustentadas por evidências, acompanhamento sistemático da evolução do paciente e capacidade de ajustar o tratamento de acordo com cada caso.
Na Pós-Graduação em Psicologia Baseada em Evidências da Pós Artmed, você aprofunda seus conhecimentos sobre avaliação, formulação de caso, escolha de intervenções e mensuração de resultados, com o suporte de especialistas reconhecidos na área.
Conheça a Pós-Graduação em Psicologia Baseada em Evidências
.