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O paciente que usa IA: como a tecnologia influencia a clínica psicológica?

“Conversei com uma IA sobre isso.” Essa frase tem se tornado cada vez mais frequente no consultório psicológico e sinaliza uma transformação significativa na forma como as pessoas buscam suporte emocional.

O uso de ferramentas baseadas em Inteligência Artificial (IA), especialmente chatbots conversacionais, deixou de ser apenas um recurso tecnológico e passou a integrar o cotidiano emocional de milhões de indivíduos.

Esse cenário vem sendo descrito por estudos recentes (Lippi et al., 2024; Modolo et al., 2023), onde não apenas modifica o modo como o sofrimento é inicialmente acolhido, mas também desafia a clínica psicológica a repensar como a tecnologia passa a compor o setting terapêutico e a experiência subjetiva do paciente.

No Brasil, essa discussão acontece em um contexto de aumento da demanda por saúde mental (OMS, 2022) e de obstáculos persistentes de acesso.

Há estimativas de que dezenas de milhões de brasileiros convivam com quadros graves, enquanto o sistema lida com escassez de profissionais, desigualdades regionais e filas prolongadas (Weber & Silva, 2025).

Além disso, fatores como estigma, experiências negativas prévias com tratamentos e baixa percepção das próprias necessidades dificultam a busca por ajuda profissional (Bendig et al., 2021). Nesse cenário, a IA surge como um recurso acessível, imediato e constantemente disponível.

A ampla adesão às tecnologias digitais reforça essa tendência. Dados recentes indicam que 93% dos brasileiros utilizam ferramentas baseadas em IA em alguma medida, colocando o país entre os maiores usuários do mundo (Fundação Itaú & Datafolha, 2025; Visual Capitalist, 2025).

Mais relevante para a clínica é o crescimento do uso emocional dessas ferramentas: estima-se que 1 em cada 10 brasileiros recorra à IA como conselheiro emocional, buscando orientação ou conforto (Talk Inc., 2025). Esses números ajudam a explicar por que a frase “conversei com uma IA” deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina clínica.

O novo comportamento do paciente

Cada vez mais pacientes recorrem à IA em momentos de angústia, solidão ou incerteza, utilizando-a como um regulador emocional imediato. A disponibilidade contínua, a ausência de julgamento explícito e a rapidez das respostas favorecem a sensação de acolhimento e organização emocional temporária (Fitzpatrick et al., 2017).

Estudos mostram que intervenções digitais podem oferecer alívio pontual para sintomas leves de ansiedade e depressão, funcionando como suporte inicial, embora não substituam processos terapêuticos estruturados (Karkosz et al., 2024; Sadeh-Sharvit et al., 2023).

Esse movimento também reflete a lógica de imediatismo característica da cultura digital contemporânea, na qual respostas rápidas e objetivas são valorizadas (Torous & Roberts, 2017; Rosa, 2013). Muitos pacientes chegam à terapia já munidos de explicações, hipóteses diagnósticas ou orientações obtidas por meio da IA.

Trata-se de um movimento semelhante ao discutido em estudos sobre cyberchondria, quando a pessoa tenta interpretar sinais e sintomas por conta própria a partir de conteúdos digitais antes de procurar um profissional (Starcevic & Berle, 2013).

Esse acesso prévio à informação pode influenciar as expectativas em relação ao processo clínico, uma vez que intervenções digitais tendem a ser percebidas como mais diretas e orientadas a soluções rápidas (Ebert et al., 2018).

Quando a psicoterapia, com seu ritmo próprio de elaboração e construção de sentido, não corresponde à lógica de respostas imediatas, podem surgir frustrações e expectativas irreais quanto ao papel do terapeuta.

Pesquisas indicam que expectativas desalinhadas estão associadas à menor satisfação com o tratamento e até ao abandono precoce da psicoterapia (Swift & Greenberg, 2012), sendo as crenças iniciais do paciente sobre o funcionamento da terapia determinantes para sua percepção de eficácia (Constantino et al., 2011).

Compreender esse contexto torna-se essencial para que o psicólogo possa acolher o uso da IA como parte da realidade contemporânea, integrando-o de maneira crítica e ética à prática clínica (Fiske et al., 2019).

Impacto na relação terapêutica

O uso prévio ou concomitante da IA também influencia a relação terapêutica. Em alguns casos, as respostas organizadas e imediatas da tecnologia podem ser percebidas como mais claras ou objetivas do que o trabalho clínico, que envolve questionamentos, reflexão e construção gradual de sentido (Elyoseph & Levkovich, 2023).

Sob a perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o recurso da IA pode ser compreendido como parte das estratégias que o paciente utiliza para lidar com suas emoções.

A tecnologia pode funcionar como uma fonte externa de validação cognitiva, auxiliando na organização de pensamentos e no alívio momentâneo da ansiedade (Beck, 2011). Ao invés de interpretar a comparação entre IA e terapeuta como resistência, é possível compreendê-la como expressão das expectativas e necessidades do paciente.

Para o profissional, essas comparações podem provocar sentimentos de insegurança ou questionamento. Reconhecer essas reações é fundamental para que não interfiram no manejo clínico.

A TCC propõe que esse material seja explorado de forma colaborativa, integrando-o à formulação de caso e ajudando o paciente a refletir sobre seus padrões de enfrentamento e busca por validação (Persons, 2008; Beck, 2020).

Riscos clínicos associados ao uso da IA

Apesar de seus potenciais benefícios, o uso indiscriminado da IA envolve riscos relevantes.

Um dos mais frequentes é o autodiagnóstico, estimulado por respostas generalistas baseadas em listas de sintomas. Esse processo pode reforçar rótulos inadequados e dificultar a avaliação clínica, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade emocional (Elyoseph & Levkovich, 2023).

Outro risco é a simplificação excessiva de conceitos psicológicos complexos, o que pode gerar interpretações distorcidas e cristalizar narrativas rígidas sobre o próprio sofrimento (Modolo et al., 2023).

Além disso, a confiança na tecnologia não deve ser confundida com eficácia clínica.

Embora existam chatbots terapêuticos validados que apresentam evidências positivas (Fitzpatrick et al., 2017; Fulmer et al., 2018; Chiauzzi et al., 2024), plataformas abertas não foram desenvolvidas para substituir avaliação profissional, e sua utilização exige cautela ética (Fiske et al., 2019).

Integrando a IA à prática clínica

Diante desse cenário, ignorar ou desqualificar o uso da IA tende a ser pouco produtivo. A literatura aponta que a tecnologia deve ser integrada à prática clínica de forma crítica e eticamente fundamentada (Neufeld & Szupszynski, 2022).

Incluir perguntas sobre o uso de IA na anamnese permite compreender expectativas, crenças e estratégias de enfrentamento do paciente.

Estudos indicam que atitudes mais positivas em relação à IA estão associadas à maior aceitação de seu uso, especialmente entre indivíduos com maior sofrimento emocional (Varghese et al., 2024; Albikawi et al., 2025).

Nesse contexto, cabe ao psicólogo diferenciar claramente o papel da psicoterapia e da tecnologia, oferecendo psicoeducação sobre limites e possibilidades, sem adotar postura proibitiva.

O objetivo não é competir com a IA, mas fortalecer a autonomia crítica do paciente.

Considerações finais

A IA já se incorporou ao cotidiano de muitos pacientes e tende a permanecer como parte do ecossistema de cuidado, ainda que de formas variadas e com efeitos distintos (Lippi et al., 2024). Seu impacto não se limita ao acesso à informação, mas alcança expectativas, vínculos e modos de enfrentamento do sofrimento.

O desafio da clínica atual não é disputar espaço com a tecnologia, mas compreender seu papel na experiência subjetiva do paciente.

A IA pode oferecer suporte pontual; contudo, é na relação humana, na escuta qualificada e na construção compartilhada de sentido que o sofrimento encontra possibilidade de elaboração. Sustentar esse lugar continua sendo a tarefa central do psicólogo diante da inovação.

Perguntas Frequentes