Planejamento de tratamento em ACT: como estruturar intervenções baseadas em flexibilidade psicológica

Pontos principais do artigo
- Aceitação vs. Evitação experiencial: O que o cliente faz diante do sofrimento?
- Desfusão vs. Fusão cognitiva: Qual é a relação do cliente com os pensamentos?
- Self como contexto vs. self como conteúdo: Como o cliente se relaciona com sua identidade?
- Atenção ao momento presente vs. atenção inflexível: Como o cliente direciona sua atenção?
- Valores: O que realmente importa para o cliente? Quais são as qualidades de ser e estar que ele mais valoriza?
- Ação compromissada: O comportamento do cliente está alinhado aos seus valores?
- Da avaliação dos processos à construção da formulação de caso
- Estabelecimento de objetivos terapêuticos
- Organização das intervenções
- Aplique a ACT de forma contextualizada
- Autoria
Diferente de abordagens centradas em diagnósticos ou protocolos, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) propõe um planejamento de tratamento orientado por processos.
Na prática clínica, isso significa sair da lógica “quais técnicas utilizar para esse transtorno” e avançar para uma pergunta mais funcional e clinicamente útil: “quais processos estão mantendo o sofrimento deste cliente?”
Muitos psicólogos, ao iniciarem na ACT, relatam dificuldade justamente nesse ponto: como transformar conceitos como aceitação, desfusão e valores em um plano de intervenção claro e aplicável?
O planejamento em ACT exige uma leitura funcional do comportamento, integrando história de vida, padrões culturais e fatores ambientais atualmente presentes.
Quando bem estruturado, esse modelo permite intervenções mais contextualizadas, precisas e alinhadas ao que realmente importa para o cliente.
A ACT se baseia no modelo da flexibilidade psicológica, compreendido por seis processos inter-relacionados:
- Aceitação;
- Desfusão;
- Self como contexto;
- Atenção ao momento presente;
- Clareza de valores;
- Ação compromissada.
Esses processos são frequentemente apresentados em contraste com padrões de inflexibilidade psicológica, como esquiva experiencial, fusão cognitiva e inação.
Apesar da distinção didática, é esperado que os clientes apresentem indicativos de ambos os padrões.
Por exemplo, alguém com ansiedade pode estar frequentemente fusionado a pensamentos sobre o futuro, enquanto ainda mantém ações consistentes com seus valores em algumas áreas da vida.
Por isso, desde as primeiras sessões, é importante avaliar como esses processos se manifestam e se relacionam com as queixas.
Isso permite identificar quais processos demandam maior intervenção e quais já estão mais presentes no repertório do cliente, podendo ser fortalecidos.
A seguir, são expostas algumas questões disparadoras para que o clínico possa iniciar a exploração dos processos de flexibilidade ou inflexibilidade:
Aceitação vs. Evitação experiencial: O que o cliente faz diante do sofrimento?
Mais do que identificar sintomas, o foco está em compreender como o cliente responde a experiências internas difíceis.
O psicoterapeuta pode investigar se há padrões recorrentes de evitação, como tentativas de suprimir, controlar ou escapar de emoções e pensamentos.
Esses comportamentos podem aparecer tanto no relato quanto na própria sessão (por exemplo, mudança de assunto, desconexão emocional).
A análise funcional ajuda a identificar se essas respostas produzem alívio imediato, mas mantêm o problema a longo prazo.
Desfusão vs. Fusão cognitiva: Qual é a relação do cliente com os pensamentos?
Aqui, é importante avaliar o quanto o cliente consegue observar pensamentos como eventos mentais, em vez de tratá-los como verdades absolutas.
Indicadores de fusão incluem rigidez no discurso, dificuldade em considerar outras perspectivas e forte influência dos pensamentos sobre o comportamento.
Durante a sessão, o terapeuta pode observar se pequenas intervenções já permitem algum distanciamento ou se há grande aderência ao conteúdo.
Self como contexto vs. self como conteúdo: Como o cliente se relaciona com sua identidade?
Esse processo envolve avaliar o grau de rigidez na forma como o cliente se descreve. Relatos muito fixos sobre “quem eu sou” podem indicar maior fusão ao self como conteúdo.
Além disso, observa-se a capacidade do cliente de adotar diferentes perspectivas sobre si e de perceber que pensamentos, emoções e papéis não definem totalmente sua identidade.
Atenção ao momento presente vs. atenção inflexível: Como o cliente direciona sua atenção?
A flexibilidade atencional pode ser observada diretamente na relação terapêutica.
O clínico pode avaliar a capacidade do cliente de sustentar a atenção, alternar o foco quando necessário e retornar após distrações.
Padrões de atenção excessivamente rígidos podem limitar o contato com o momento presente e com novas possibilidades de ação.
Valores: O que realmente importa para o cliente? Quais são as qualidades de ser e estar que ele mais valoriza?
A avaliação envolve investigar o nível de clareza do cliente sobre o que é mais importante em sua vida. É relevante também auxiliar o cliente a diferenciar objetivos de valores.
Os valores podem ser compreendidos como direções contínuas de vida e qualidades de ação que a pessoa deseja expressar ao longo do tempo.
Por exemplo, uma pessoa que tem como valor o aprendizado poderia se conectar com isso através da leitura, de estudos, entre outras possibilidades.
Ação compromissada: O comportamento do cliente está alinhado aos seus valores?
Aqui, o foco está na análise do padrão comportamental do cliente: em que medida suas ações se aproximam ou se afastam do que ele valoriza?
Muitas vezes, observa-se que estratégias utilizadas para lidar com o sofrimento acabam restringindo esse repertório.
A avaliação envolve identificar tanto barreiras quanto oportunidades para ampliar ações consistentes com valores.
Da avaliação dos processos à construção da formulação de caso
A partir desse mapeamento, o terapeuta constrói uma formulação de caso.
Busca-se compreender como comportamentos (públicos e privados) são mantidos no contexto de vida do cliente e, por isso, torna-se importante avaliar e integrar:
- História de aprendizagem;
- Fatores culturais;
- Contextos atuais;
- Funções dos comportamentos relacionados à queixa.
Com isso, o profissional organiza hipóteses como:
- Em quais contextos a esquiva aparece?
- Com quais pensamentos há maior fusão?
- Onde há desconexão com valores?
Essa leitura permite sair de uma descrição topográfica do problema para uma compreensão funcional, que orienta diretamente o planejamento do tratamento.
Alguns modelos podem auxiliar na organização ou servir como ponto de partida para a formulação, como é o caso dos modelos baseados no Hexaflex ou da Matrix (para mais informações consultar Hayes et al., 2021).
Estabelecimento de objetivos terapêuticos
Na ACT, os objetivos são orientados também pela promoção de flexibilidade psicológica.
Isso significa que não são definidos de forma genérica, mas a partir dos processos mais relevantes para aquele cliente.
O foco exclusivo na redução de mal-estar pode ser limitado, já que o sofrimento faz parte de muitas experiências e é por vezes inevitável.
Por isso, objetivos mais úteis tendem a envolver o desenvolvimento de repertórios mais adaptativos, que auxiliem o cliente a lidar com as situações difíceis.
Idealmente, esses objetivos são construídos de forma colaborativa e acompanhados ao longo do processo, tanto por meio de instrumentos quanto pela observação de mudanças em sessão.
Algumas possibilidades de instrumentos adaptados para o Brasil que mensuram, de algum modo, processos relativos à flexibilidade psicológica incluem PsyFlex, CompACT e PPFI (para mais opções
consulte aqui
).
Organização das intervenções
A formulação de caso orienta a escolha das intervenções. Portanto, em vez de seguir uma ordem fixa, o terapeuta pode priorizar processos mais centrais no funcionamento do cliente.
Como os processos são interdependentes, intervenções em um domínio frequentemente impactam outros.
Além disso, pode ser útil começar por repertórios já mais desenvolvidos, ampliando a sensação de confiança e o engajamento do cliente.
Mais do que escolher “a técnica certa”, o foco está em escolher intervenções que alterem a função dos comportamentos no contexto do cliente.
E essa escolha tende a ser facilitada quando o clínico tem uma formulação de caso “viva”, ou seja, que esteja em constante modificação, incorporando as novas informações coletadas e as mudanças observadas, conforme a fluidez da manifestação desses fenômenos ao longo da vida.
Aplique a ACT de forma contextualizada
O planejamento do tratamento em ACT é um processo contínuo, que se desenvolve ao longo de todo o processo psicoterapêutico.
Para que haja uma boa formulação, é necessário um olhar atento do psicoterapeuta, que abarque uma lógica funcional e uma postura intencionalmente presente em sessão.
Por isso, a importância da flexibilidade psicológica do próprio profissional e da sua contínua formação, tanto em termos de supervisão clínica quanto de aquisição de conhecimentos na abordagem.
Isso traz não apenas maior segurança na condução do caso, mas também amplia a sensibilidade do terapeuta para identificar e intervir, de forma contextualizada, nos processos de flexibilidade psicológica ao longo do desenvolvimento psicoterapêutico.
Mais do que seguir etapas fixas, o planejamento e acompanhamento em ACT envolvem sustentar uma direção baseada em valores, enquanto se mantém responsivo ao contexto do cliente.
Autoria
Autores:
Rossa, I.; Santos, E. F. L.; Neufeld, C. B.
Isadora Rossa:
Psicóloga clínica e pesquisadora. Graduada em Psicologia pela Unisinos, Mestranda em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Certificação internacional em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) (em andamento).
Eloha Flória Lima Santos:
Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC-USP). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento.
Carmem Beatriz Neufeld:
Livre-docente pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP). Pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestra e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de São Paulo (LaPICC-USP). Professora Titular do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP. Ex-Presidente da Federação Latino-Americana de Terapias Cognitivo-Comportamentais - ALAPCCO) (2019–2022 e 2022-2025). Ex-Presidente fundadora da Associação de ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC) (2011–2013 e 2013–2015). Bolsista Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).