Terapia Baseada em Processos para ansiedade, depressão e outros transtornos: como funciona?

Pontos principais do artigo
- Como a PBT aborda os transtornos psicológicos?
- Terapia Baseada em Processos para ansiedade
- Terapia Baseada em Processos para depressão
- A PBT pode ser aplicada a outros transtornos e demandas?
- O que significa uma abordagem transdiagnóstica na prática?
- Como o terapeuta decide quais processos trabalhar?
- O que as evidências dizem sobre a PBT?
- O que considerar sobre a Terapia Baseada em Processos
A
Terapia Baseada em Processos (PBT, do inglês
process-based therapy
)
parte de uma ideia central: em vez de organizar o tratamento apenas em torno de categorias diagnósticas e protocolos associados a elas, busca identificar processos de mudança relevantes para cada pessoa em seu contexto.
O objetivo é favorecer uma formulação e uma intervenção mais individualizadas, sem descartar o conhecimento já produzido sobre transtornos e tratamentos psicológicos (Hofmann; Hayes, 2019).
A PBT tem caráter transdiagnóstico, mas não se resume a isso. Ela também adota uma perspectiva idiográfica, isto é, voltada para padrões que ocorrem em uma pessoa específica, e busca compreender funcionalmente como diferentes processos se relacionam entre si e com os objetivos terapêuticos.
É nessa perspectiva que se pode pensar na aplicação da
terapia baseada em processos
para ansiedade, depressão e outras demandas clínicas.
Os diagnósticos podem continuar sendo úteis para comunicação clínica, pesquisa, planejamento de serviços e outras finalidades.
Na PBT, entretanto, o diagnóstico não determina sozinho quais processos deverão ser priorizados no tratamento.
Como a PBT aborda os transtornos psicológicos?
De forma didática, é possível contrastar duas maneiras de organizar o raciocínio clínico. Uma delas parte principalmente de uma categoria diagnóstica e de tratamentos empiricamente sustentados para aquela condição.
Outra enfatiza a apresentação clínica individual, investigando quais processos parecem estar envolvidos na manutenção do problema de determinada pessoa e quais intervenções podem modificá-los.
Essas formas de raciocínio não são necessariamente excludentes. Tratamentos desenvolvidos para transtornos específicos também podem ser individualizados, e técnicas oriundas de diferentes modelos podem ser utilizadas dentro de uma formulação baseada em processos.
Na PBT, o diagnóstico pode integrar a avaliação, mas não define sozinho os alvos da intervenção.
Pessoas que compartilham um mesmo diagnóstico podem apresentar combinações distintas de processos relevantes.
Da mesma forma, um determinado processo pode estar presente em pessoas com diagnósticos diferentes.
Por isso, a PBT não precisa ser entendida como uma substituta do diagnóstico clínico.
Trata-se de um referencial adicional para organizar a compreensão do funcionamento individual e selecionar intervenções a partir de processos de mudança potencialmente modificáveis.
Terapia Baseada em Processos para ansiedade
Os
transtornos de ansiedade
são heterogêneos, e não existe um único conjunto de processos aplicável a todas as pessoas.
Dependendo da apresentação clínica e da formulação do caso, alguns processos potencialmente relevantes incluem:
- Comportamentos evitativos:afastamento de situações, sensações, pensamentos ou emoções que produzem desconforto. A evitação pode reduzir o sofrimento no curto prazo e, em determinadas circunstâncias, contribuir para sua manutenção no longo prazo.
- Preocupação:padrão repetitivo de pensamento orientado para possíveis ameaças ou consequências futuras.
- Desregulação emocional:dificuldades relacionadas à compreensão, aceitação ou manejo das experiências emocionais.
- Inflexibilidade psicológica:padrões rígidos de resposta às experiências internas que podem restringir comportamentos compatíveis com as necessidades e os objetivos da pessoa.
- Afeto negativo e reações associadas ao medo e ao pânico:experiências que podem participar de redes de relações distintas dependendo da pessoa e do contexto.
Esses processos não estarão presentes em todos os pacientes com transtornos de ansiedade nem terão a mesma importância quando estiverem presentes.
Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem, por exemplo, apresentar redes funcionais bastante diferentes.
Em uma delas, padrões de evitação podem ocupar uma posição central; em outra, preocupação persistente e dificuldades de
regulação emocional
podem estar mais fortemente relacionadas ao sofrimento e ao prejuízo funcional.
É a avaliação individualizada que permite formular hipóteses sobre quais processos são clinicamente relevantes.
A obra organizada por Melo e Moreno (2026), por exemplo, reúne capítulos específicos sobre comportamentos evitativos, preocupações, ataques de pânico, desregulação emocional e inflexibilidade psicológica, entre diversos outros temas, ilustrando como processos e manifestações clínicas podem ser examinados a partir dessa perspectiva.
Leia também:Terapia Baseada em Processos apresenta aplicações clínicas da PBT na prática psicológica
Terapia Baseada em Processos para depressão
Na depressão, a lógica é semelhante: os processos relevantes constituem hipóteses clínicas que precisam ser avaliadas em cada pessoa, e não uma lista fixa associada automaticamente ao diagnóstico.
Entre os aspectos que podem ser relevantes estão:
- Anedonia e redução do contato com experiências reforçadoras:diminuição do interesse, do prazer ou do envolvimento em atividades significativas.
- Comportamentos evitativos:afastamento de tarefas, relações, emoções ou experiências difíceis.
- Ruminação:pensamento repetitivo e persistente em torno do sofrimento, de suas causas ou consequências, que pode ocorrer sem produzir resolução efetiva do problema.
- Desregulação emocional:dificuldades em responder de maneira flexível às experiências afetivas.
- Inflexibilidade psicológica:rigidez na forma de lidar com pensamentos, sentimentos e situações.
- Problemas relacionados a valores:dificuldade para identificar ou manter ações conectadas ao que a pessoa considera importante.
Novamente, não se trata de afirmar que todos esses elementos estão presentes em todas as pessoas com depressão.
Em um caso, a redução acentuada de atividades significativas pode ocupar posição central.
Em outro, ruminação, evitação e afastamento de valores pessoais podem estar mais estreitamente relacionados ao sofrimento.
A escolha dos alvos depende da formulação do caso e das evidências disponíveis sobre os processos e procedimentos envolvidos, e não apenas do diagnóstico.
A PBT pode ser aplicada a outros transtornos e demandas?
Por não se organizar exclusivamente em torno de categorias diagnósticas, o raciocínio baseado em processos pode ser utilizado para examinar diferentes demandas clínicas.
A literatura aplicada já discute, por exemplo, processos relacionados a:
- dor crônica;
- uso problemático de substâncias;
- autolesão;
- alterações do sono;
- anedonia;
- impulsividade;
- procrastinação;
- perfeccionismo;
- psicose e experiências relacionadas;
- problemas associados a valores;
- luto complicado.
Isso não significa que exista evidência equivalente para a PBT em todas essas condições nem que a abordagem tenha eficácia estabelecida para qualquer demanda.
O grau e o tipo de evidência disponível variam consideravelmente.
Na literatura brasileira, Batista e Gadelha (2024) investigaram a aplicabilidade da heurística da PBT e descreveram uma intervenção baseada em
TCC
voltada a processos relacionados ao luto complicado.
O estudo, de caráter analítico e descritivo, acompanhou uma mulher adulta com avaliações antes, durante e depois da intervenção.
Foram observadas mudanças em medidas de dificuldades de regulação emocional, sintomas de depressão e ansiedade e qualidade de vida.
Por se tratar de um estudo com uma única participante e sem grupo de comparação, entretanto, esses resultados não permitem atribuir causalmente as mudanças à intervenção nem estabelecer eficácia.
O trabalho é mais útil como ilustração de viabilidade e aplicação clínica da lógica baseada em processos.
O livro organizado por Melo e Moreno (2026) também apresenta capítulos dedicados a diferentes demandas e processos clínicos, como dor crônica, uso problemático de substâncias, perfeccionismo, procrastinação, ruminação e inflexibilidade psicológica.
Leia também:Terapia Baseada em Processos e TCC: quais são as diferenças e como as abordagens se relacionam?
O que significa uma abordagem transdiagnóstica na prática?
Uma abordagem
transdiagnóstica
investiga processos que podem aparecer em diferentes categorias clínicas.
Isso não significa ignorar as diferenças entre os transtornos. Um
transtorno de pânico
e um episódio depressivo, por exemplo, apresentam características, riscos, cursos e implicações clínicas distintos, que continuam relevantes para avaliação e planejamento terapêutico.
Também não significa supor que todas as pessoas compartilhem os mesmos processos nem que exista uma intervenção universal.
Na PBT, a perspectiva transdiagnóstica se combina com uma perspectiva idiográfica.
Processos semelhantes podem aparecer em diferentes diagnósticos, enquanto pessoas que apresentam o mesmo diagnóstico podem diferir substancialmente nos processos que organizam e mantêm seus problemas.
Na prática, isso amplia a pergunta clínica. Além de perguntar “quais tratamentos apresentam evidências para este transtorno?”, o terapeuta passa a investigar também: “quais processos parecem sustentar este problema nesta pessoa e neste contexto, e como posso testar essa hipótese ao longo do tratamento?”.
Leia também:TCC para ansiedade: como nosso cérebro é afetado?
Como o terapeuta decide quais processos trabalhar?
Embora a prática não precise ocorrer de maneira rigidamente linear, o raciocínio pode ser organizado em um ciclo.
Primeiro, realiza-se uma avaliação, reunindo informações sobre queixas, história, contexto, funcionamento e objetivos da pessoa.
A partir dessas informações, constrói-se uma formulação clínica, com hipóteses sobre as relações entre os diferentes elementos envolvidos no problema.
Em seguida, são identificados os processos potencialmente relevantes e definidos os alvos prioritários de mudança.
O clínico então seleciona
procedimentos ou estratégias com respaldo empírico
que possam atuar sobre esses alvos e acompanha continuamente tanto os processos quanto os resultados.
Os dados obtidos durante o tratamento podem confirmar, enfraquecer ou modificar as hipóteses iniciais, levando à revisão da formulação e, quando necessário, à mudança das intervenções.
Nesse contexto, o monitoramento repetido ganha especial importância. Paulo e Pilatti (2024) discutem o papel dos delineamentos de caso único na pesquisa clínica e sua compatibilidade com a PBT, destacando o potencial de abordagens idiográficas para a investigação de processos de mudança.
O que as evidências dizem sobre a PBT?
A PBT é um campo relativamente recente, e sua literatura empírica ainda é consideravelmente menor do que a existente para tratamentos psicológicos estabelecidos.
Para interpretar as evidências disponíveis, é importante diferenciar trabalhos teóricos, estudos observacionais, delineamentos de caso único e ensaios clínicos randomizados.
Propostas teóricas e metodológicas
Hofmann e Hayes (2019) apresentaram a PBT como uma direção possível para a ciência das intervenções psicológicas, propondo maior ênfase em processos de mudança, mecanismos modificáveis e análises idiográficas.
Em trabalho posterior, Hofmann e Hayes (2024) discutiram a PBT também em relação à classificação da psicopatologia. Hofmann (2025), por sua vez, apresentou uma proposta de personalização baseada em sistemas dinâmicos, redes e teoria de controle.
Esses trabalhos são importantes para a fundamentação conceitual da abordagem, mas não constituem demonstrações de eficácia clínica.
Estudos de caso e delineamentos de linha de base múltipla
Além do estudo brasileiro de Batista e Gadelha (2024), Ong e colaboradores (2025) avaliaram a PBT em um delineamento de linha de base múltipla com cinco participantes e acompanhamento longitudinal intensivo.
Os resultados variaram entre pessoas e entre medidas. Houve melhora em diferentes desfechos idiográficos, mas mudanças menos uniformes em medidas padronizadas, e o tamanho reduzido da amostra impede generalizações. O estudo deve ser interpretado principalmente como uma prova de conceito.
Evidência observacional em serviços clínicos
Baez e colaboradores (2026) analisaram retrospectivamente dados de adultos atendidos em um serviço cujo modelo de cuidado é baseado em PBT.
Mudanças em processos como autocompaixão, inflexibilidade psicológica e alinhamento com valores estiveram associadas à remissão de sintomas de ansiedade ou depressão em diferentes análises.
Por se tratar de um estudo observacional e retrospectivo, porém, não é possível concluir que essas mudanças foram causadas especificamente pela PBT nem comparar sua eficácia com a de outros tratamentos.
Ensaios clínicos em investigação
Stangier e colaboradores (2024) publicaram o protocolo de um ensaio clínico randomizado comparando uma intervenção baseada em processos e TCC de rotina para adultos com depressão unipolar e transtornos de ansiedade de difícil tratamento.
O estudo prevê 80 participantes e utiliza avaliação momentânea ecológica e análise de redes idiográficas para orientar a intervenção.
Os autores o apresentaram como o primeiro ensaio clínico randomizado de PBT realizado em um contexto de serviço de saúde.
Lai e colaboradores (2025) publicaram outro protocolo para investigar uma TCC personalizada, modular e entregue por dispositivos móveis para transtornos de ansiedade.
A proposta utiliza o metamodelo evolucionista ampliado e avaliações momentâneas para identificar processos funcionais individuais.
Trata-se, portanto, de uma intervenção de TCC personalizada orientada por processos, e não simplesmente de uma comparação genérica entre “PBT” e outra psicoterapia.
O conjunto de evidências disponível, portanto, é maior do que apenas propostas teóricas e relatos de caso, mas continua preliminar para responder algumas das questões mais importantes sobre a abordagem.
Ainda não há base suficiente para afirmar, de maneira geral, que organizar o tratamento segundo a PBT produza resultados superiores à TCC de rotina ou a outras intervenções psicológicas estabelecidas.
Também permanece em investigação uma questão central: em quais situações a personalização orientada por processos produz benefícios adicionais e quais métodos de avaliação e seleção de processos oferecem maior utilidade clínica.
O que considerar sobre a Terapia Baseada em Processos
A principal contribuição da Terapia Baseada em Processos está em oferecer um referencial para organizar a avaliação e a intervenção a partir de processos de mudança relevantes para uma pessoa específica em determinado contexto.
Esse raciocínio pode ser utilizado em quadros de ansiedade, depressão e outras demandas clínicas, sem pressupor que pessoas com o mesmo diagnóstico apresentem os mesmos processos nem que exista uma única intervenção apropriada para todas elas.
Isso não torna o diagnóstico irrelevante nem elimina a importância de tratamentos cuja eficácia já foi demonstrada.
Na lógica da PBT, diferentes fontes de informação podem ser integradas à formulação clínica, enquanto as intervenções são selecionadas e monitoradas de acordo com os processos e objetivos identificados.
Ao mesmo tempo, a PBT continua sendo um campo em desenvolvimento. Estudos de caso, delineamentos experimentais de pequena escala, estudos observacionais e ensaios clínicos em andamento ampliam gradualmente sua base empírica, mas ainda não permitem conclusões amplas sobre sua eficácia comparativa.
Para o clínico, portanto, o desafio é combinar formulação individualizada, intervenções com respaldo empírico, avaliação contínua e leitura crítica das evidências à medida que esse campo avança.