Adições Comportamentais: o que a ciência já sabe, e o que ainda debate

Durante décadas, a palavra adição evocou uma imagem clara: uma pessoa dependente de álcool, tabaco ou drogas ilícitas.
Os grandes manuais diagnósticos, o DSM e a CID, refletiam essa visão, organizando o campo em torno de substâncias psicoativas e seus efeitos farmacológicos sobre o sistema nervoso central.
Jogos de azar chegaram a ser mencionados, mas como exceção curiosa, não como sinal de uma virada conceitual que estava por vir. Essa virada aconteceu.
E ela mudou profundamente a forma como pesquisadores, clínicos e formuladores de políticas públicas compreendem o sofrimento humano ligado ao comportamento repetitivo e compulsivo.
O que são adições comportamentais?
Nas últimas duas décadas, consolidou-se o reconhecimento de que certos comportamentos, que nada têm a ver com ingestão de substâncias, podem assumir características francamente aditivas.
Jogos de azar, jogos eletrônicos, uso da internet, compras compulsivas, comportamento sexual compulsivo, uso de mídias sociais, exercício físico excessivo e trabalho compulsivo passaram a ocupar o centro de uma nova discussão científica.
O que esses comportamentos têm em comum com as adições a substâncias? Engajamento compulsivo, perda de controle, preocupação persistente com a atividade e prejuízo significativo no funcionamento diário.
Em termos neurobiológicos, estudos de neuroimagem demonstraram que jogos de azar e jogos digitais ativam o mesmo sistema de recompensa cerebral mobilizado pelas drogas, particularmente o estriado ventral e o núcleo accumbens, regiões centrais na mediação dopaminérgica do prazer e do reforço.
Disfunções no córtex pré-frontal, associadas a déficits no controle inibitório e na tomada de decisão, também aparecem tanto nas adições a substâncias quanto nas comportamentais.
A neurobiologia, portanto, sustenta o que a clínica já observava.
O papel da tecnologia nessa mudança
Um fator decisivo para que as adições comportamentais ganhassem escala e visibilidade foi o avanço das tecnologias digitais.
A ampla disponibilidade de internet, smartphones e plataformas de mídia digital criou condições sem precedentes para que comportamentos como jogos on-line e uso de redes sociais escalassem para padrões excessivos e potencialmente patológicos em populações inteiras, incluindo crianças e adolescentes.
Essa escala distinguiu as chamadas adições tecnológicas dos comportamentos problemáticos descritos anteriormente.
Quando fenômenos como dependência de internet e adição a redes sociais passaram a afetar parcelas significativas da população jovem, o interesse público, acadêmico e político se intensificou e, com ele, o investimento em pesquisa.
Como os manuais diagnósticos responderam a tudo isso?
A classificação formal das adições comportamentais foi sendo construída gradualmente, e o caminho não foi linear.
O jogo patológico, por exemplo, ficou por muito tempo categorizado como transtorno do controle de impulsos no DSM, apesar de apresentar sobreposição evidente com os transtornos por uso de substâncias.
Essa classificação foi revisada e, no DSM-5, o transtorno do jogo passou a integrar a categoria de "transtornos relacionados a substâncias e transtornos aditivos".
A CID-11 foi além ao criar uma nova categoria específica, "transtornos devidos a comportamentos aditivos", e incluindo formalmente tanto o transtorno do jogo quanto o transtorno do jogo eletrônico.
Essa mudança foi historicamente significativa, já que, pela primeira vez, um manual de classificação reconhecia oficialmente que comportamentos, e não apenas substâncias, podem ser objeto de adição.
Outros comportamentos ainda aguardam reconhecimento formal.
O transtorno do comportamento sexual compulsivo, o transtorno de compras compulsivas e o uso problemático de mídias sociais acumulam evidências crescentes e são frequentemente interpretados a partir de modelos de adição, mas ainda não figuram como transtornos aditivos nas classificações vigentes.
Na CID-11, esses casos podem ser registrados sob a categoria "outros transtornos especificados devidos a comportamentos aditivos" (6C5Y). O debate sobre sua inclusão formal continua ativo na literatura científica.
Modelos teóricos para compreender o problema
O reconhecimento das adições comportamentais estimulou o desenvolvimento de arcabouços teóricos que buscam explicar os mecanismos subjacentes a esses padrões e orientar a prática clínica.
O modelo dos componentes da adição, proposto por Griffiths, identifica seis marcadores presentes em todos os comportamentos aditivos:
- saliência (quando a atividade domina pensamentos e sentimentos);
- modificação de humor;
- Tolerância;
- sintomas de abstinência;
- conflito interpessoal ou intrapsíquico;
- recaída.
Esse modelo tem sido amplamente utilizado para distinguir entre engajamento excessivo e padrão verdadeiramente patológico.
O modelo de uso compensatório da internet, de Kardefelt-Winther, propõe uma leitura diferente: o comportamento problemático frequentemente funciona como estratégia de enfrentamento, uma forma de lidar com estresse, dificuldades emocionais ou problemas da vida real.
O comportamento aditivo seria, nessa perspectiva, uma resposta psicológica compreensível, não apenas um traço de personalidade disfuncional.
Mais recente e integrativo, o modelo I-PACE (Interação Pessoa–Afeto–Cognição–Execução) descreve como variáveis individuais, como traços de personalidade, vulnerabilidades genéticas e experiências precoces, interagem com processos cognitivos e emocionais (como viés atencional, craving e impulsividade) e com funções executivas (como controle inibitório).
O modelo captura a natureza dinâmica e progressiva das adições comportamentais, incorporando tanto a busca de prazer quanto a evitação de estados emocionais negativos como forças motivadoras.
Um alerta necessário: o risco de hiperpatologizar
À medida que o campo se expande, cresce também uma preocupação legítima: o risco de transformar atividades cotidianas intensas em diagnósticos psiquiátricos.
Billieux e colaboradores alertam que muitos dos transtornos recentemente propostos se baseiam em abordagens confirmatórias que enfatizam o desvio estatístico, negligenciando critérios essenciais como o prejuízo funcional real e a estabilidade comportamental.
Jogar videogames por muitas horas, por exemplo, pode estar relacionado a motivações muito distintas, como busca de conquistas, enfrentamento de estresse e ansiedade social, e cada uma dessas situações exige uma abordagem clínica diferente.
Rotular indiscriminadamente atividades de alta frequência como aditivas compromete o rigor científico e pode conduzir a intervenções inadequadas.
Na prática clínica, o desafio central permanece: identificar quando um comportamento deixa de ser intenso e apaixonado para se tornar compulsivo e prejudicial ao funcionamento diário.
O que esperar do futuro
O campo das adições comportamentais avançou de forma expressiva, mas as lacunas ainda são substanciais.
Muitos comportamentos propostos carecem de critérios diagnósticos consensuais, estudos epidemiológicos representativos em larga escala e ensaios clínicos randomizados sobre intervenções.
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) apresenta eficácia preliminar para alguns desses transtornos, mas a farmacoterapia ainda carece de evidências robustas.
Pesquisas futuras precisarão combinar dados longitudinais, neurobiológicos, genéticos e sociais, e contar com colaboração interdisciplinar e internacional, para que o diagnóstico, a prevenção e o tratamento das adições comportamentais avancem de forma consistente.
O horizonte, porém, é promissor.
A compreensão de que comportamentos ligados a necessidades humanas básicas, como lazer, sexo, trabalho e conexão social, podem tornar-se compulsivos e aditivos não apenas ampliou o campo da addictologia, ela desafiou pressupostos fundamentais sobre o que faz alguém perder o controle sobre si mesmo.
E essa pergunta, hoje, está mais aberta e mais fértil do que nunca.
Este artigo foi elaborado a partir do Capítulo 1, "Adições comportamentais: uma visão histórica", do livro Adições Tecnológicas e Outras Adições Comportamentais, organizado por Thiago Henrique Roza e publicado pela Artmed.
