O campo das dependências e dos
transtornos aditivos
está passando por transformações importantes.
Durante muito tempo, a atenção clínica esteve concentrada principalmente no consumo de substâncias psicoativas, como álcool e outras drogas.
Hoje, o reconhecimento de determinados comportamentos potencialmente aditivos amplia esse olhar e introduz novos desafios para a avaliação e o tratamento.
Entre as mudanças mais significativas está a expansão das atividades mediadas pela tecnologia.
Apostas online, jogos eletrônicos e outras experiências digitais passaram a ocupar um espaço crescente no cotidiano, levantando questões sobre os limites entre entretenimento, envolvimento excessivo e perda de controle.
Esse movimento também acompanha avanços na compreensão dos mecanismos cognitivos, emocionais e sociais envolvidos nas dependências.
Para psicólogos, psiquiatras e demais profissionais de saúde mental, acompanhar essas tendências significa ampliar a capacidade de identificar padrões problemáticos e compreender os fatores que contribuem para sua manutenção.
Dependências e transtornos aditivos: o que está mudando?
Uma das principais mudanças no campo das dependências é o reconhecimento de que determinados comportamentos, mesmo sem o consumo de substâncias, podem apresentar características aditivas.
A aproximação entre esses fenômenos está relacionada a mecanismos como busca por recompensa, dificuldade de controle, preocupação persistente com determinada atividade e continuidade do comportamento apesar dos prejuízos.
Estudos de neuroimagem também identificaram semelhanças entre dependências de substâncias e determinadas
adições comportamentais
, especialmente em sistemas cerebrais associados à recompensa, à motivação e à tomada de decisão. Isso não significa, porém, que todos esses transtornos apresentem mecanismos neurobiológicos idênticos.
Esse avanço se refletiu nos sistemas de classificação diagnóstica. O
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) passou a incluir o transtorno do jogo, relacionado a apostas e jogos de azar, na categoria de transtornos relacionados a substâncias e transtornos aditivos.
Já a Classificação Internacional de Doenças (CID-11) reconhece tanto o transtorno do jogo quanto o transtorno do jogo eletrônico, relacionado aos videogames, entre os transtornos devidos a comportamentos aditivos.
Entretanto, a ampliação desse campo não significa que toda atividade repetitiva ou intensa possa ser considerada uma dependência.
Comportamentos relacionados às redes sociais, compras e outras práticas ainda são objeto de debates científicos quanto à sua classificação, aos critérios diagnósticos e aos mecanismos envolvidos.
Como discutido no artigo da Artmed sobre
adições comportamentais
, o desafio está em reconhecer os padrões clinicamente relevantes sem transformar atividades comuns em diagnósticos psiquiátricos.
Apostas online e a expansão dos comportamentos potencialmente aditivos
A popularização das apostas online ilustra como a tecnologia está modificando a relação das pessoas com atividades que envolvem recompensa, risco e expectativa de ganho.
Segundo a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, divulgada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) em 2026,
17% da população pesquisada realizaram apostas online em 2025. Entre os apostadores, 11% foram classificados com alto nível de propensão ao vício
.
Esses dados não representam necessariamente diagnósticos clínicos, mas indicam a importância de compreender os diferentes padrões de envolvimento com a atividade.
Enquanto 32% dos apostadores associam a prática à diversão, 39% mencionam a busca por ganhos rápidos, especialmente em momentos de necessidade financeira. Outros 20% percebem as apostas como uma forma de investimento.
Essa diversidade mostra que comportamentos semelhantes podem assumir funções bastante diferentes conforme as circunstâncias individuais.
Para algumas pessoas, apostar representa uma experiência recreativa. Para outras, pode funcionar como tentativa de complementar a renda, recuperar perdas financeiras ou aliviar tensões do cotidiano.
O ambiente digital como fator de continuidade
Outro aspecto relevante é a estrutura das plataformas de apostas. Notificações, recompensas variáveis, bônus e interfaces que facilitam a interação sucessiva contribuem para tornar a experiência mais contínua.
O
relatório da ANBIMA
também diferencia as apostas associadas a eventos específicos, como competições esportivas, dos jogos de cassino online, caracterizados por ciclos mais rápidos e repetitivos.
Nos jogos contínuos, a ausência de interrupções claras pode favorecer a permanência prolongada na atividade.
Além disso, o acesso pelo smartphone permite que as apostas sejam realizadas em diferentes momentos do dia, sem necessidade de deslocamento ou de um ambiente específico.
Para a prática clínica, essa transformação introduz uma dimensão importante: o comportamento não deve ser analisado isoladamente das características do ambiente digital que facilita sua repetição.
O desafio de diferenciar hábitos cotidianos de comportamentos problemáticos
A maior visibilidade das adições comportamentais também exige cuidado para não confundir frequência elevada com transtorno.
Dedicar muitas horas aos jogos eletrônicos, por exemplo, não significa necessariamente apresentar um transtorno aditivo.
Da mesma forma, realizar apostas ocasionalmente não caracteriza, por si só, um problema clínico.
A avaliação deve considerar a persistência do padrão, a perda de controle e, principalmente, os prejuízos provocados na vida do indivíduo, evitando que o envolvimento intenso seja confundido com uma condição clínica.
Entre os aspectos que merecem atenção estão a dificuldade de reduzir ou interromper o comportamento, sua continuidade apesar de consequências negativas, a preocupação persistente com a atividade e o comprometimento das relações pessoais, das responsabilidades ou da saúde.
Também é importante investigar se o comportamento passou a ocupar uma posição central na vida do paciente, substituindo outras atividades ou sendo utilizado de forma recorrente para lidar com situações emocionalmente difíceis.
Essa análise pode ser aprofundada a partir de diferentes modelos teóricos.
O modelo dos componentes da adição, desenvolvido por Mark Griffiths, descreve elementos como saliência, alteração de humor, tolerância, sintomas de abstinência, conflitos e recaídas.
Já o modelo I-PACE, sigla para Interação Pessoa–Afeto–Cognição–Execução, propõe compreender como características individuais interagem com processos emocionais, cognitivos e executivos na formação e manutenção de comportamentos aditivos.
Essas perspectivas ajudam a deslocar a atenção da simples quantidade de tempo dedicada a uma atividade para os processos envolvidos e os prejuízos associados.
Ao mesmo tempo, reforçam a necessidade de avaliações individualizadas, baseadas em critérios clínicos e em evidências científicas, evitando tanto a minimização do sofrimento quanto a patologização de hábitos cotidianos.
O papel dos fatores emocionais, sociais e econômicos nas dependências
Outra tendência importante é a valorização de uma compreensão mais contextualizada dos comportamentos aditivos.
A manutenção de determinadas práticas nem sempre pode ser explicada apenas pela busca de prazer ou pela dificuldade de controlar impulsos.
Em algumas situações, o comportamento também assume uma função de enfrentamento diante de dificuldades emocionais, sociais ou financeiras.
O modelo de uso compensatório da internet, proposto por Daniel Kardefelt-Winther, contribui para essa discussão ao considerar que comportamentos problemáticos podem surgir como formas de lidar com estresse e situações adversas.
Essa perspectiva encontra pontos de aproximação com os resultados da pesquisa qualitativa da ANBIMA sobre apostas online.
A partir dos relatos de apostadores e ex-apostadores, o estudo identificou quatro perfis que ajudam a compreender as diferentes relações com as apostas:
Adepto da fortuna:
associa a aposta à possibilidade de transformar sua condição financeira por meio da sorte.
Matador de leões:
busca resultados rápidos para responder a necessidades financeiras imediatas.
Expert da realidade:
percebe a aposta como uma atividade orientada por método, estratégia e possibilidade de complementar a renda.
Caçador de emoções:
relaciona a prática principalmente ao lazer e à experiência de entretenimento.
Essas categorias têm caráter interpretativo, não representam diagnósticos clínicos e podem se sobrepor ou mudar conforme o contexto de vida de cada pessoa.
Na investigação qualitativa da ANBIMA, também foram observadas diferenças na maneira como homens e mulheres vivenciam e descrevem as apostas.
Entre os homens entrevistados, a prática apareceu mais associada à estratégia e ao desempenho.
Já nos relatos de mulheres, especialmente das classes C, D e E, surgiram experiências mais discretas, relacionadas à sobrecarga cotidiana, às pressões financeiras e à busca por alívio emocional.
Esses achados reforçam a importância de investigar quais necessidades, expectativas e circunstâncias estão associadas ao comportamento.
Na avaliação clínica, compreender essa função pode ajudar a identificar fatores que sustentam o padrão e aspectos que precisam ser considerados no planejamento terapêutico.
Novas perspectivas para o cuidado e o tratamento das dependências
Os avanços na compreensão das dependências também têm ampliado as discussões sobre intervenções terapêuticas.
Entretanto, ainda existem lacunas importantes relacionadas à padronização dos critérios diagnósticos, à avaliação das intervenções e às possibilidades de tratamento farmacológico.
Nesse contexto, uma das necessidades centrais é compreender os mecanismos responsáveis pela manutenção do comportamento e selecionar estratégias compatíveis com as características de cada paciente.
A
regulação emocional
também ocupa um espaço relevante nessa discussão, especialmente quando determinadas atividades são utilizadas para enfrentar ansiedade, estresse ou outros estados emocionais desagradáveis.
Mindfulness e regulação emocional na prática clínica
Entre os recursos utilizados na psicoterapia, o mindfulness, ou atenção plena, tem recebido atenção por suas aplicações na consciência emocional e na autorregulação.
A prática envolve direcionar intencionalmente a atenção para o momento presente, observando pensamentos, emoções e sensações corporais sem julgamentos imediatos.
Na clínica, exercícios breves podem ser incorporados às sessões para favorecer a percepção das experiências internas e ampliar a capacidade de responder a situações emocionalmente difíceis.
Como explica o artigo da Artmed sobre
mindfulness clínico
, práticas de um a cinco minutos podem ser utilizadas em momentos específicos do atendimento, desde que sejam adaptadas às necessidades e às condições do paciente.
Embora essa referência não investigue especificamente o tratamento dos transtornos aditivos, as práticas de mindfulness oferecem uma perspectiva sobre o trabalho clínico com atenção, consciência emocional e autorregulação.
Sua eventual utilização com pacientes que apresentam dependências deve ser considerada de acordo com as necessidades individuais e as evidências disponíveis para cada condição.
A aplicação também exige atenção às características clínicas do paciente. Em pessoas com histórico de trauma, ansiedade intensa ou desconforto com a introspecção, as práticas devem ser cuidadosamente adaptadas, com acompanhamento das respostas emocionais durante a sessão.
Mudança de comportamento e prevenção de recaídas
Outra questão relevante envolve a compreensão das trajetórias de mudança.
O relatório da ANBIMA mostra que a relação com as apostas online nem sempre segue um percurso linear.
Entre pessoas que tentaram interromper a prática, foram observadas pausas, retomadas e diferentes estratégias de controle.
Em alguns casos, mesmo após a redução ou interrupção das apostas, permanece o contato com conteúdos, plataformas e comunidades relacionadas à atividade.
Essas observações ajudam a compreender por que a mudança comportamental pode envolver diferentes etapas e dificuldades, especialmente quando o hábito está associado à rotina, às expectativas financeiras e à regulação emocional.
Essas trajetórias também oferecem elementos para a reflexão clínica sobre as dificuldades de mudança e a importância de compreender os fatores associados à continuidade ou retomada do comportamento.
A definição de estratégias de prevenção de recaídas, por sua vez, deve estar fundamentada na avaliação individual e nas evidências terapêuticas disponíveis, considerando tanto os fatores pessoais quanto os contextos nos quais o comportamento se desenvolve.
O que essas tendências representam para os profissionais de saúde mental?
A expansão das adições comportamentais, a presença crescente das tecnologias digitais e os avanços nos modelos explicativos apontam para um campo em desenvolvimento.
Embora determinadas condições já tenham reconhecimento nos sistemas diagnósticos, outras permanecem em investigação.
Ainda são necessários estudos epidemiológicos, pesquisas longitudinais e ensaios clínicos que contribuam para esclarecer os critérios de identificação e a eficácia das intervenções.
Para os profissionais de saúde mental, esse cenário exige atualização científica e atenção às particularidades de cada caso.
A avaliação não pode se limitar à identificação de um comportamento repetitivo.
É necessário investigar sua função na vida do paciente, os processos emocionais e cognitivos envolvidos, os prejuízos existentes e as condições que favorecem sua continuidade.
O mesmo princípio se aplica ao tratamento. A escolha das intervenções precisa considerar as evidências disponíveis, sem desconsiderar as experiências individuais e os fatores sociais que atravessam o sofrimento.