O MAIOR ECOSSISTEMA DE EDUCAÇÃO EM SAÚDE DO BRASIL

Artmed
  • Home
  • Conteúdos
  • Neuroplasticidade cerebral: fundamentos e aplicações clínicas na Psicologia

Neuroplasticidade cerebral: fundamentos e aplicações clínicas na Psicologia

A neurociência tem aprofundado a compreensão das bases neurobiológicas dos transtornos mentais, revelando a influência significativa do ambiente sobre o funcionamento cerebral (DE RAEDT, 2020; IZQUIERDO et al., 2020; CITRI; MALENKA, 2008). Um dos principais mecanismos para explicar tais alterações é a neuroplasticidade, ou seja, a capacidade do cérebro de se modificar e adaptar diante de estímulos ambientais, experiências e lesões, ocorrendo em níveis molecular, celular e sistêmico (CRAMER et al., 2011; BEAR; CONNORS; PARADISO, 2017). 

Essa plasticidade pode ser adaptativa, promovendo ganhos funcionais, ou desadaptativa, quando associada à perda de funções cognitivas, motoras ou emocionais (CRAMER et al., 2011). A descoberta dos diferentes tipos de neuroplasticidade ampliou o entendimento das causas dos transtornos mentais e abriu caminhos para intervenções terapêuticas mais eficazes (IZQUIERDO et al., 2020). 

Estudos apontam alterações em neurotransmissores e na conectividade funcional de áreas cerebrais nos transtornos mentais decorrentes de fatores genéticos, epigenéticos e ambientais (IZQUIERDO et al., 2020). Com isso, terapias que promovam neuroplasticidade adaptativa ganham relevância. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), amplamente validada para tratamento de diferentes quadros clínicos, tem mostrado capacidade de induzir mudanças neurobiológicas positivas (APPELBAUM et al., 2022; DE RAEDT, 2020). No presente artigo, será abordado sobre a neuroplasticidade e a TCC como uma abordagem terapêutica capaz de gerar neuroplasticidade nos pacientes com transtornos mentais.  

Fundamentos da Neuroplasticidade
 

Dentre os tipos de neuroplasticidade, destacam-se: a sinaptogênica, predominante no desenvolvimento fetal; a sináptica, ao longo da vida; a neurogênese, que persiste no hipocampo; e a reorganização cortical, presente em situações de amputação, por exemplo (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2017). A plasticidade sináptica, central na aprendizagem e memória, decorre da ativação sincronizada de neurônios, reforçando sinapses via receptores NMDA e o Potencial de Longa Duração (PLD) (CITRI; MALENKA, 2008). Ao contrário, sinapses enfraquecidas por Potenciais Inibitórios Pós-Sinápticos (PIPS) resultam em Depressão de Longa Duração (DLD), levando à perda de conexões (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2017). Ou seja, os neurônios precisam ativar juntos para gerar e fortalecer novas conexões, mas quando disparam fora de sincronia, as conexões se perdem (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2017). 

A metaplasticidade, por sua vez, refere-se à plasticidade da plasticidade, dependente da história sináptica (CITRI; MALENKA, 2008). A plasticidade sinaptogênica ocorre ao longo do desenvolvimento do feto e do bebê em que as conexões sinápticas vão se formando tanto por orientação química (moléculas de adesão) quanto pela experiência e estímulos do ambiente. Durante períodos críticos do desenvolvimento, estímulos ambientais são essenciais para o amadurecimento das conexões neuronais. A ausência de tais estímulos pode gerar déficits funcionais (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2017). 

A neurogênese no hipocampo continua ao longo da vida, com aproximadamente 700 novos neurônios produzidos por dia (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2017). No entanto, o estresse crônico impacta negativamente a neuroplasticidade, com redução de dendritos no córtex pré-frontal e diminuição da neurogênese hipocampal (YUAN et al., 2023). Esse efeito é mais danoso em crianças expostas precocemente ao estresse, interferindo no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e elevando riscos de transtornos mentais (JIANG et al., 2019). 

Essas alterações muitas vezes são mediadas pela epigenética, no qual fatores ambientais modulam a expressão genética sem alterar o DNA, podendo inclusive ser transmitidas às gerações futuras (JIANG et al., 2019). Algumas dessas modificações, no entanto, podem ser adaptativas, favorecendo a sobrevivência em contextos semelhantes ao ambiente parental (BOHACEK; MANSURY, 2012). 

A reorganização cortical, como observada em amputados com “membros fantasmas”, neste caso, um tipo de neuroplasticidade desadaptativa (RAMACHANDRAN, 1998; PACHECO-BARRIOS; MENG; FREGNI, 2020). A dor crônica também é um processo de neuroplasticidade desadaptativa, em que a hiperatividade neuronal leva a emissão constante de dor mesmo na ausência de lesão, levando a manutenção da dor (DE MELO et al., 2024; JAYATHILAKE et al., 2025). Muitos fatores influenciam a neuroplasticidade e a idade é um destes fatores. Os estudos mostram redução da plasticidade neural ao longo do desenvolvimento, reduzindo no processo de envelhecimento (CRAMER et al, 2011). 

Aplicações Clínicas da Neuroplasticidade
 

Intervenções psicoterapêuticas podem induzir alterações estruturais e funcionais no cérebro. Felmingham et al. (2007), por exemplo, relataram redução da atividade da amígdala e aumento da atividade do córtex cingulado anterior em pacientes com TEPT após sessões de TCC com exposição imaginada. Em pacientes com TOC, Hoexter et al. (2012) encontraram aumento de massa cinzenta no putâmen após tratamento com TCC ou medicação. Liberman et al. (2007) demonstraram que nomear emoções reduz a ativação da amígdala e aumenta a atividade do córtex pré-frontal ventrolateral, favorecendo regulação emocional. 

Pacientes com depressão frequentemente apresentam hipoatividade no córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo (CPFDL) (CARVALHO et al., 2020; BRUNONI et al., 2014). Wei et al. (2023) observaram que a TCC aumentou a atividade do CPFDL esquerdo e melhorou os sintomas depressivos, sobretudo em indivíduos com maior expressão gênica de plasticidade nessa região. A ruminação mental, característica da depressão, tem sido relacionada a déficits na memória de trabalho. Brunoni et al. (2014) demonstraram que o treino dessa função, combinado à Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC), reduziu sintomas depressivos de forma mais eficaz do que o treino isolado. Carvalho, Coelho e Leite (2025) também evidenciaram efeitos positivos duradouros da combinação TCC + ETCC, inclusive na melhora do sono de pacientes com depressão maior.  

Além disso, práticas como Mindfulness também têm mostrado impacto neuroplástico. Bauer et al. (2020) identificaram melhorias na atenção sustentada e conectividade da Default Mode Network com o CPFDL direito em crianças após oito semanas de treinamento. Intervenões baseadas em Mindfulness geram neurpplasticidade na rede de saliência, Default Mode Network e Frontoparietal (SEZER et al, 2022). Almasi et al. (2024) observaram redução do estresse e da ruminação em adolescentes com câncer ao combinar Mindfulness e ETCC. Revisões recentes reforçam que a TCC promove neuroplasticidade em diferentes condições clínicas (APPELBAUM et al., 2022; SACCENTI et al., 2024). 

 

Conclusão
 

Evidências apontam que a TCC promove neuroplasticidade adaptativa em múltiplos transtornos psiquiátricos (APPELBAUM et al., 2022; CITRI; MALENKA, 2008; SACCENTI et al., 2024). A neuroplasticidade é fundamental para mudanças de humor e comportamento a longo prazo, contudo, não ocorre rapidamente. É um processo longo e realizar a psicoeducação para o paciente sobre esta base neurobiológica pode trazer alívio e aumentar a adesão do paciente ao tratamento (DE RAEDT, 2020). Compreender os mecanismos neuroplásticos envolvidos nos sintomas permite intervenções mais eficazes. Autores como DE RAEDT (2020) destacam a importância da identificação de biomarcadores para personalizar tratamentos, à semelhança da medicina de precisão. A grande variabilidade clínica demanda abordagens individualizadas. Por fim, a combinação de terapias como TCC e técnicas de neuromodulação (ETCC) tem mostrado potencial promissor para melhorar resultados terapêuticos em longo prazo (CARVALHO et al., 2020; CARVALHO; COELHO; LEITE, 2025). Assim, integrar o conhecimento neurobiológico à prática clínica amplia a eficácia dos tratamentos nos transtornos mentais. 

Autoras: 

Camila Campanhã
 

Psicóloga clínica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em Terapia Cognitivo-Comportamental, especialista em Neuropsicologia pelo CFP e Neurocientista. Doutora e Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Estágio de Doutorado no Neuromodulation Laboratory/Spaulding Rehabilitation Hospital na Harvard Medical School - Boston. Formação em pesquisa clínica (Principles and Practice of Clinical Research - PPCR) pela Harvard Medical School, USA. Curso em Neuroeconomia pela Heidelberg University, Heidelberg - Alemanha. Coordenadora do Comitê de Psicologia da Sociedade Brasileira de Neuromodulação (SBNM). Professora e supervisora clínica do curso de Psicologia da Universidade Cruzeiro do Sul. Professora do curso de especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental da Universidade Cruzeiro do Sul, Professora do curso de especialização em Neuropsicologia da UNIFESP, CETCC e da NEPSIMG. Professora da pós graduação em Neuromarketing do Instituto Brasileiro de Neuromarketing e Neuroeconomia (IBN). Pesquisadora do ASCAN Lab da Universidade Cruzeiro do Sul. Psicóloga clínica em consultório particular. 

Beatriz de Oliveira Meneguelo Lobo
 

Psicóloga e Mestra em Psicologia/Cognição Humana pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Especialista em Terapias Cognitivo-Comportamentais e com Formação em Terapia do Esquema. Professora em cursos de Pós-Graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia Cognitivo-Comportamental na Infância e Adolescência e Terapia do Esquema. Supervisora Clínica. Pesquisadora Colaboradora no Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental - LaPICC da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP). 

Editora-chefe: Carmem Beatriz Neufeld.
 

Psicóloga. Livre docente em TCC pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - USP. Pós-Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutora e Mestra em Psicologia pela PUCRS. Fundadora e Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental – LaPICC-USP. Professora Associada do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo – USP. Presidente da Federação Latino Americana de Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais - ALAPCCO (2019-2022). Presidente-fundadora da Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Bolsista Produtividade do CNPq.