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O papel da enfermagem no reconhecimento do transtorno do espectro autista

O autismo, ou transtorno do espectro autista (TEA), é uma condição comportamental que se manifesta por meio de prejuízos ou alterações fundamentais no comportamento, na interação social, na comunicação e na cognição, além da presença de comportamentos repetitivos e estereotipados. Essas características costumam surgir nos primeiros anos de vida.

O diagnóstico é estabelecido clinicamente, mediante uma avaliação comportamental detalhada da criança, adolescente ou adulto, juntamente com uma entrevista minuciosa dos pais ou responsáveis. Em casos de diagnóstico tardio em adultos, o próprio indivíduo autista pode ser entrevistado para auxiliar na avaliação.

A intervenção precoce e eficiente diminui a possibilidade de cronificação e amplia propostas terapêuticas, proporcionando ao autista um desenvolvimento comportamental mais efetivo e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida.

Estudos científicos apontam que a genética está intimamente ligada ao quadro. Pais que têm um filho no espectro do autismo apresentam até 18% de chances de ter um segundo filho também no espectro. Estudos genéticos com gêmeos idênticos mostram que se um dos irmãos está no transtorno, a chance do outro também estar no espectro varia entre 36% e 95%. No caso de gêmeos não idênticos, a incidência cai para 31%.

A genética do autismo também tem relação com a idade dos pais. A idade parental avançada está associada a um risco aumentado de autismo de 30% a 40%. Filhos de pessoas que se tornaram pais após os 35 anos de idade, apresentam maior probabilidade de desenvolver o TEA. Esta estimativa vale tanto para a idade da mãe quanto para a idade do pai. O risco pode aumentar com a idade dos pais porque mutações genéticas parecem ser mais prováveis com o envelhecimento.

Além da influência genética, fatores ambientais também podem desempenhar um papel na origem do transtorno do espectro autista, como insultos graves no cérebro do feto durante o desenvolvimento gestacional. Doenças congênitas como rubéola, encefalites e meningites, bem como o uso de medicamentos potencialmente tóxicos, drogas, parto prematuro e baixo peso ao nascer, estão entre os diversos fatores que podem provocar alterações nas estruturas cerebrais ou desencadear mudanças imunológicas e bioquímicas, contribuindo para o desenvolvimento do comportamento autista.

A primeira descrição clínica do transtorno autista foi realizada em 1943 pelo psiquiatra austríaco Leo Kanner, em seu trabalho intitulado "Distúrbios autísticos do contato afetivo". Nesse estudo, Kanner descreveu 11 crianças que exibiam comportamentos semelhantes, incluindo isolamento extremo desde cedo e um desejo obsessivo pela manutenção da constância.

Os sintomas do TEA geralmente surgem antes dos três anos de idade e se manifestam de várias maneiras. Entre as alterações comportamentais observadas estão o medo e a confusão mental, baixa tolerância à mudança, dificuldades na compreensão de regras sociais, desatenção, impulsividade e tendência à fuga. Além disso, comportamentos auto e heteroagressivos também podem estar presentes.

Crianças com autismo revelam respostas próprias a estímulos sensoriais, podem apresentar resistência a dor, hipersensibilidade ao toque, reações excessivas a odores e demonstram encantamento a estímulos visuais específicos. Além disso, podem apresentar baixa habilidade interpessoal no contato com outras crianças e, inclusive, com pessoas da própria família.

Embora o termo "autismo" represente uma única palavra e uma classificação diagnóstica específica, é importante ressaltar que o autismo não é uma condição uniforme. Uma máxima comum no mundo do autismo é que "se você conhece uma criança com autismo, você conhece uma criança com autismo". Isso se deve ao fato de que, embora os critérios diagnósticos sejam claros, existe um amplo espectro de desafios e habilidades que se enquadram nesses critérios. Por exemplo, cada criança com transtorno do espectro autista pode apresentar déficits sociais, mas a forma como esses déficits se manifestam pode variar significativamente de uma criança para outra.

De acordo com a 5ª Edição do DSM (DSM-5), existem quatro critérios diagnósticos para o autismo, os quais são exemplificados a seguir. No entanto, é fundamental salientar que os comportamentos descritos são apenas alguns exemplos dos diversos comportamentos característicos do espectro autista, e que não englobam todas as pessoas que fazem parte dele.

Déficits persistentes na comunicação e interação social

  • Dificuldade em iniciar ou manter conversas, ou participar de interações sociais.
  • Descompasso entre comportamentos não-verbais, como tom de voz ou expressão facial, e o contexto da conversa.
  • Redução ou falta de contato visual, dificuldades na linguagem corporal ou déficits na compreensão e uso de gestos.

Padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses e atividades

  • Estereotipias motoras, como balançar o corpo para frente e para trás (rocking) ou balançar as mãos (flapping), além de estereotipias vocais, como repetir palavras ou frases (ecolalia).
  • Envolvimento em brincadeiras disfuncionais, como alinhar ou empilhar objetos repetidamente.
  • Desconforto intenso em resposta a alterações na rotina ou no ambiente.
  • Interesses fixos e restritos, muitas vezes com intensidade ou foco excessivos, incluindo apego a objetos específicos.
  • Hipersensibilidade ou hipossensibilidade a estímulos sensoriais, com interesses incomuns em aspectos sensoriais do ambiente, como indiferença à dor ou temperatura, aversão a sons ou texturas específicas, ou atração visual por luzes ou movimentos.

Sintomas presentes desde o início do desenvolvimento

  • Mesmo que o diagnóstico tenha sido realizado tardiamente, os sintomas devem estar presentes desde a infância.

Sintomas que causam prejuízo significativo em diversas áreas da vida

  • Os sintomas do autismo devem causar prejuízos clinicamente significativos no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida da pessoa.

O quarto critério, comum aos transtornos abordados pelo DSM, diz respeito ao fato de que muitos indivíduos, se não todos, ocasionalmente manifestam algumas características semelhantes aos critérios diagnósticos de certos transtornos. No entanto, a presença ocasional dessas características, sem prejuízo relevante em vários contextos, não justifica um diagnóstico.

A importância do enfermeiro da família na detecção de casos de TEA

Considerando que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) se desenvolve nos primeiros anos de vida e apresenta sinais e sintomas inespecíficos, torna-se evidente a importância da atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) em identificar os primeiros indícios do TEA e garantir um diagnóstico precoce.

Na Estratégia de Saúde da Família (ESF), durante as consultas de enfermagem e puericultura, o enfermeiro tem como objetivo conhecer os membros de cada família, entender o contexto em que vivem e avaliar suas condições de saúde. Isso permite rastrear possíveis doenças, oferecer tratamento quando necessário e implementar medidas preventivas para promover o bem-estar geral da família.

No que tange às crianças, é necessário uma escuta qualificada dos relatos sobre o comportamento e desenvolvimento, possibilitando o reconhecimento de alterações que indiquem TEA.

O enfermeiro, como membro da equipe multiprofissional, é um dos responsáveis por esse acompanhamento e deve estar preparado para avaliar o desenvolvimento infantil, a fim de detectar precocemente qualquer anormalidade e tomar as medidas resolutivas para a melhoria da qualidade de vida.

Estudos recentes revelam que os transtornos do espectro autista podem se manifestar em diferentes graus de intensidade na criança, variando desde a incapacidade de comunicação até habilidades intelectuais extraordinárias. Nesse sentido, a escola desempenha um papel crucial como parceira no reconhecimento de crianças com comportamentos sugestivos de TEA.

Isso ressalta a importância de investimentos em promoção à saúde voltados para os professores, capacitando-os a identificar sinais precoces do autismo e a oferecer apoio adequado aos alunos. Os enfermeiros devem reconhecer o ambiente educacional como um contexto essencial para a continuidade de suas intervenções, colaborando estreitamente com educadores para garantir o bem-estar e o desenvolvimento saudável das crianças com TEA.

Ou seja, além de de contribuir para o diagnóstico precoce do transtorno do espectro autista, o enfermeiro desempenha um papel essencial na intervenção, oferecendo psicoeducação familiar e aconselhamento para professores. Isso capacita os educadores a compreender o diagnóstico e implementar práticas eficazes de estimulação cognitiva e motora.

Além disso, os enfermeiros fornecem suporte para reabilitação comunitária, apoio aos cuidadores e promovem a proteção dos direitos humanos da criança e de sua família. Eles também realizam acompanhamento regular e definem critérios para encaminhamentos a outros serviços quando necessário. Essas ações abrangentes visam melhorar o bem-estar e a qualidade de vida das crianças com TEA e suas famílias.