Adições Tecnológicas e Outras Adições Comportamentais: conheça o lançamento da Artmed

Pontos principais do artigo
Jogar no celular até de madrugada. Verificar as redes sociais compulsivamente. Comprar online sem conseguir parar.
Essas situações, cada vez mais comuns no cotidiano, estão no centro de um debate científico urgente:
quando um comportamento deixa de ser hábito e se torna adição?
Adições Tecnológicas e Outras Adições Comportamentais
, lançamento da Artmed, é a obra de referência que o campo estava esperando.
Organizado por quatro dos maiores especialistas brasileiros no tema, o livro reúne evidências científicas atualizadas, modelos teóricos consolidados e orientações clínicas práticas para profissionais que lidam, ou que logo vão lidar, com esse conjunto de transtornos que cresce de forma acelerada na população.
O que você vai encontrar
A obra é estruturada em dois grandes movimentos.
O primeiro constrói os alicerces: os capítulos iniciais percorrem a história e as controvérsias do campo, a neurobiologia das adições comportamentais, os instrumentos de avaliação disponíveis, as abordagens terapêuticas gerais e as implicações éticas e forenses.
Dois capítulos especialmente relevantes tratam da relação entre adições comportamentais e uso de substâncias e das comorbidades psiquiátricas e traços de personalidade associados, conexões fundamentais para quem atua na clínica.
Há ainda um capítulo dedicado às especificidades das adições tecnológicas em crianças e adolescentes, população para a qual o tema ganha contornos de urgência.
O segundo movimento é onde o livro se torna um guia clínico de referência: cada capítulo aprofunda um comportamento específico.
O transtorno do jogo e o transtorno do jogo pela internet ganham tratamento detalhado. O uso problemático de pornografia e hipersexualidade, a compulsão alimentar e a food addiction, a adição ao trabalho e o burnout, a adição ao exercício físico e as compras compulsivas são apresentados com suas particularidades diagnósticas, epidemiológicas e terapêuticas.
A obra também avança para territórios ainda pouco explorados na literatura em português: práticas problemáticas de investimento, uso problemático de mídias sociais e FOMO (fear of missing out), uso problemático de smartphone, binge-watching, hikikomori e dependência emocional.
Dois capítulos fecham o livro com temas que estão na fronteira do campo: os riscos e possibilidades da realidade virtual, os companheiros de inteligência artificial e chatbots como novos vetores de comportamento aditivo e o fenômeno do cutting e outros comportamentos autolesivos.
Ao longo de 24 capítulos, a obra equilibra rigor científico e aplicabilidade clínica, tornando-se leitura essencial tanto para quem pesquisa quanto para quem atende.
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Um mergulho no primeiro capítulo
O capítulo de abertura, assinado por Magda Losaberidze, Mark D. Griffiths, Andrea Czakó e Zsolt Demetrovics, oferece uma visão histórica do campo que é, ao mesmo tempo, panorâmica e profunda.
Os autores traçam o percurso que levou o conceito de adição de uma definição estritamente farmacológica, centrada em substâncias que exercem efeitos diretos sobre o sistema nervoso central, até o reconhecimento de que comportamentos também podem ser objeto de adição.
Esse deslocamento conceitual não foi linear.
O jogo patológico, por exemplo, ficou por décadas classificado como transtorno do controle de impulsos nos manuais diagnósticos, apesar de apresentar claras sobreposições com os transtornos por uso de substâncias.
A virada veio com o DSM-5, que reconheceu o transtorno do jogo na categoria de transtornos aditivos, e se consolidou com a CID-11, que criou uma categoria específica para
"transtornos devidos a comportamentos aditivos"
e incluiu formalmente também o transtorno do jogo eletrônico.
O capítulo explica o significado histórico dessas mudanças e detalha quais outros comportamentos, como o uso problemático de mídias sociais, as compras compulsivas e o comportamento sexual compulsivo, ainda aguardam reconhecimento formal, os motivos do debate em curso e o que as evidências disponíveis já permitem afirmar.
Os três principais modelos teóricos do campo também são apresentados com clareza:
- o modelo dos componentes da adição (Griffiths), que identifica seis marcadores presentes em todos os comportamentos aditivos;
- o modelo de uso compensatório da internet (Kardefelt-Winther), que interpreta o comportamento problemático como estratégia de enfrentamento psicológico;
- o modelo I-PACE (Brand e colaboradores), que descreve de forma integrativa como variáveis individuais, processos cognitivos e emocionais e funções executivas interagem para sustentar e manter as adições comportamentais.
É um capítulo que prepara o terreno teórico, histórico e clínico para tudo o que se segue na obra.
Sobre os organizadores
Felix Henrique Paim Kessler
é médico psiquiatra, Professor Adjunto do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da UFRGS e membro do corpo docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Ciências do Comportamento da mesma universidade. Foi coordenador do Núcleo de Pesquisa Clínico-Biológico do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas (CPAD) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), onde também atuou como Chefe da Unidade de Psiquiatria de Adição.
Realizou fellowship nas Universidades da Pensilvânia e Kentucky por meio do programa do National Institute on Drug Abuse (NIDA). Possui mais de 200 publicações nas áreas de psicofármacos, dependência química, epidemiologia e neurobiologia da adição.
Hermano Tavares
é Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e referência nacional no estudo do jogo patológico e das adições comportamentais. Fundou e coordena o Programa Ambulatorial do Jogo Patológico (PRO-AMJO) e o Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI) no Instituto de Psiquiatria da USP.
Realizou pós-doutorado em jogo patológico na Universidade de Calgary (Canadá) e em psicofarmacologia no Brasil, com bolsa FAPESP. Seus campos de atuação incluem saúde mental, dependências comportamentais, tecnológicas e transtorno do jogo, e transtornos do controle do impulso.
Daniel Tornaim Spritzer
é médico psiquiatra com especialização em psiquiatria da infância e da adolescência pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA/UFRGS) e doutor em Psiquiatria pela UFRGS.
É coordenador do Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas (GEAT), membro da diretoria da International Society for the Study of Behavioral Addictions (ISSBA) e do conselho editorial do Journal of Behavioral Addictions. É um dos profissionais mais ativos no Brasil na pesquisa sobre uso problemático de internet, jogos digitais e outras adições tecnológicas.
Thiago Henrique Roza
é médico psiquiatra graduado pela UFPR, com residência em psiquiatria e psiquiatria forense pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA/UFRGS) e doutorado em Psiquiatria e Ciências do Comportamento pela UFRGS, USP e UNIFESP.
Professor adjunto do Departamento de Medicina Forense e Psiquiatria da UFPR, lidera o "Laboratório de Psiquiatria Digital" e integra o corpo editorial da Scientific Reports (grupo Nature) e do periódico Trends in Psychiatry and Psychotherapy. Em 2024, foi reconhecido como Jovem Liderança Médica pela Academia Nacional de Medicina.
Uma obra necessária para o momento atual
A combinação de tecnologia ubíqua, acesso irrestrito a plataformas digitais e uma sociedade cada vez mais conectada criou um cenário em que as adições comportamentais não são mais raridade clínica, são demanda crescente nos consultórios, nos serviços de saúde mental e nas políticas públicas.
Adições Tecnológicas e Outras Adições Comportamentais
chega em momento preciso para oferecer aos profissionais a base científica e clínica de que precisam para compreender, avaliar e tratar esse conjunto de condições com rigor e responsabilidade.
