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Desmame ventilatório: estratégias fisioterapêuticas para o sucesso

Importância do fisioterapeuta no desmame ventilatório

O desmame da ventilação mecânica (VM) representa um dos processos envolvidos na trajetória do paciente em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Neste contexto, o profissional da fisioterapia acompanha o processo desempenhando responsabilidade na condução e monitoramento sistematizado do processo de descontinuação do suporte ventilatório.

A intervenção fisioterapêutica atua através de estratégias protocolares e individualizadas, incluindo mobilização precoce, técnicas de limpeza de vias aéreas, treinamento muscular respiratório (TMR) e manobras de recrutamento alveolar. A duração prolongada de VM está associada a complicações significativas, como pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), atelectasias, fraqueza da musculatura esquelética e insuficiência diafragmática.

Neste cenário, as intervenções fisioterapêuticas reduzem expressivamente o tempo de dependência do ventilador. Meta-análises demonstram que protocolos de reabilitação abrangentes reduzem a duração da VM em aproximadamente 3,23 dias (Intervalo de Confiança 95%: −5,79 a −0,67 dias; p = 0,01), representando economia significativa de recursos hospitalares e redução de morbidade.

As técnicas fisioterapêuticas compreendem posicionamento terapêutico, mobilização precoce estruturada, manobras de hiperinsufação manual associadas à drenagem postural, compressão torácica e treinamento específico dos músculos inspiratórios. Estas intervenções promovem restauração da pressão inspiratória máxima, melhora da complacência pulmonar e incremento do volume corrente, otimizando a capacidade ventilatória espontânea. A taxa de sucesso no desmame aumenta consideravelmente com a intervenção fisioterapêutica dirigida, atingindo taxas de até 92% quando comparadas a grupos controle.

Além disso, a redução do tempo de internação em UTI, secundária à aceleração do desmame, diminui a incidência de complicações associadas à imobilização prolongada, incluindo tromboembolismo pulmonar, úlceras de pressão e delirium crítico. A transição para respiração espontânea requer estabilidade hemodinâmica e pulmonar documentada.

Os critérios fundamentais incluem: resolução ou melhora significativa do processo que motivou a intubação; ausência de sedação excessiva que comprometa o padrão respiratório; oxigenação adequada com FiO₂ ≤ 0,40 e pressão arterial de oxigênio (PaO₂) ≥ 60 mmHg; pH arterial entre 7,25 e 7,45; e pressão parcial de dióxido de carbono (PaCO₂) entre 35 e 50 mmHg. A gasometria arterial permanece o padrão-ouro para avaliar a troca gasosa, orientando decisões terapêuticas e progresso no desmame. A força muscular inspiratória, mensurada pela pressão inspiratória máxima (PImáx), deve apresentar valores adequados para a geração de força para manutenção da ventilação espontânea.

O teste de respiração espontânea (TRE) representa a ferramenta indicativa para avaliação da capacidade de respiração autônoma. Pode ser realizado mediante tubo em T sem suporte ventilatório ou com suporte pressórico mínimo (5 cmH₂O de ventilação com pressão de suporte), permitindo avaliação abrangente da autonomia respiratória. Durante o TRE, monitoram-se frequência respiratória, volume corrente, padrão respiratório e sinais de desconforto respiratório por período entre 30 minutos e 2 horas.

O Índice de Respiração Rápida e Superficial (IRRS), calculado pela razão frequência respiratória/volume corrente (f/Vt), embora tradicional, apresenta limitações em acurácia diagnóstica. Parâmetros mais recentes, como a potência mecânica normalizada à complacência dinâmica pulmonar (Cdyn-MP), demonstram superioridade preditiva, integrando múltiplos fatores relacionados à carga respiratória.

A espirometria de incentivo, manobra ativa do controle clínico fisioterapêutico, avalia capacidade vital (≥ 10-15 mL/kg) e mobiliza ventilação alveolar. Adicionalmente, a medida do pico de fluxo de tosse (PFT), emergindo como ferramenta de avaliação de proteção de vias aéreas, reflete capacidade de clearance de secreções, fator determinante para sucesso extubatório.

Estratégias fisioterapêuticas para o sucesso do desmame

O desmame da VM representa um momento especial e de muita atenção no manejo de pacientes criticamente enfermos, envolvendo uma transição complexa do suporte ventilatório para a respiração espontânea. A mobilização ativa precoce associada ao treinamento muscular ventilatório demonstra efetividade na restauração da capacidade ventilatória e força muscular. A aplicação de técnicas de resistência progressiva e limiar de pressão otimiza o recrutamento diafragmático e dos músculos acessórios, fundamentais para a respiração espontânea. Estudos recentes evidenciam que a mobilização de alta intensidade iniciada precocemente melhora significativamente o status funcional e a capacidade de mobilidade em pacientes com VM prolongada, facilitando a progressão para deambulação e reduzindo complicações relacionadas ao descondicionamento muscular.

A implementação de protocolo progressivo de redução de parâmetros ventilatórios é essencial para o sucesso do desmame. A transição gradual do modo controlado para modos de suporte progressivos, incluindo Pressão de Suporte (PSV) e CPAP, permite a entrada gradativa da musculatura respiratória sem comprometer a oxigenação. O volume corrente adequado deve ser mantido durante transições de modo, evitando fadiga muscular precoce enquanto se promove o recrutamento progressivo de músculos respiratórios.

O clearance adequado de secreções traqueobrônquicas é outro ponto de atenção para o sucesso de extubação. Técnicas como compressão torácica, hiperinsuflação manual associadas à aspiração endotraqueal promovem remoção eficiente de secreções que comprometem a dinâmica ventilatória. O posicionamento em semi-Fowler (45°) otimiza a mecânica respiratória e facilita a drenagem postural, enquanto a deflação do cuff durante testes de respiração espontânea reduz resistência das vias aéreas e melhora a efetividade da tosse.

Principais causas de falha no desmame e condutas preventivas

A fraqueza muscular respiratória, particularmente a disfunção diafragmática, constitui uma das principais etiologias de falha no desmame. A disfunção diafragmática induzida por VM pode acometer mais da metade dos pacientes em terapia intensiva, desenvolvendo-se precocemente durante a ventilação controlada. Estudos demonstram que pacientes com lesão cerebral podem apresentar atrofia significativa das fibras do tipo I e II após apenas 18 horas de ventilação controlada, com redução superior a 50% da área transversal do diafragma. A disfunção diafragmática é duas vezes mais prevalente que a fraqueza de membros, impactando negativamente o processo de desmame e estando associada a maiores taxas de falha de extubação, aumento da duração da ventilação mecânica e elevação da mortalidade. Os principais fatores de risco incluem a duração da ventilação mecânica e sepse.

A fadiga muscular respiratória é agravada pela instabilidade cardiovascular durante os testes de respiração espontânea. As alterações cardiopulmonares durante o desmame exacerbam a pré-carga e pós-carga das câmaras cardíacas, aumentando o risco de isquemia miocárdica e edema pulmonar induzido pelo desmame. Em pacientes com insuficiência mitral concomitante com isquemia miocárdica, a probabilidade de falha no desmame é significativamente aumentada. A incidência de alterações isquêmicas seguidas a VM em pacientes submetidos a teste de respiração espontânea é aproximadamente 60%, sendo fatores independentes de risco a cardiopatia prévia, doença pulmonar obstrutiva crônica e obesidade.

A disfunção diastólica ventricular esquerda, avaliada por parâmetros ecocardiográficos como a razão E/E' (relação entre a velocidade de enchimento diastólico mitral precoce e a velocidade mitral do anel pela ecodopplercardiografia) ≥10,9, constitui preditor importante de falha. A perda de aeração pulmonar, edema pulmonar e derrame pleural representam obstáculos significativos ao desmame bem-sucedido. O escore de ultrassom pulmonar (LUS) superior a 17 pontos está associado a falha no desmame por aeração pulmonar prejudicada. A presença de artefatos em cauda de cometa (B-lines) em campos pulmonares anteriores e laterais, particularmente quando excedem seis, indica edema pulmonar induzido pelo esforço respiratório durante o teste de respiração espontânea. Derrames pleurais moderados a extensos no início do teste de respiração espontânea predizem menor probabilidade de extubação bem-sucedida.

A identificação precoce de sinais de alerta é essencial para intervir antes que ocorra o insucesso da extubação. Os principais sinais clínicos incluem taquipneia (frequência respiratória >30 irpm), uso de musculatura acessória, dessaturação de oxigênio (SpO₂ <90%), retenção de dióxido de carbono (elevação de PaCO₂) e instabilidade hemodinâmica (alterações de frequência cardíaca e pressão arterial). A ultrassonografia torácica e ecocardiografia constituem ferramentas não-invasivas de grande valor para detecção precoce de disfunção diafragmática e comprometimento cardiovascular.

Parâmetros ultrassonográficos como excursão diafragmática (DE) ≤1,1 cm, fração de espessamento diafragmático (DTF) <20% e índice rápido de respiração superficial diafragmático (D-RSBI) >1,38 bpm/mm predizem falha no desmame com elevada sensibilidade e especificidade. A razão entre frequência ventilatória e deslocamento diafragmático (VF/DD) apresenta sensibilidade de 87,5% e especificidade de 92,31% na predição de desfechos de desmame.

Medidas preventivas como estímulos periódicos de interrupção de sedação, uso racional de sedativos e mobilização precoce de pacientes ventilados há mais de 24 horas reduzem significativamente a duração da ventilação mecânica e o risco de disfunção diafragmática. O monitoramento adequado da demanda de trabalho diafragmático durante modos ventilatórios assistidos previne a atrofia por desuso.

A implementação de protocolos de desmame baseados em evidências, com avaliação sistemática de critérios de prontidão em 48-72 horas após a admissão em UTI, melhora os desfechos. Correção de fatores reversíveis como desequilíbrios eletrolíticos, sobrecarga volêmica, pneumonia e alterações fisiopatológicas deve preceder o teste de respiração espontânea.

Para pacientes de alto risco que passam no teste de respiração espontânea, a transição imediata para ventilação não-invasiva preventiva reduz o tempo de permanência em UTI e a mortalidade em curto e longo prazo. A integração da ultrassonografia no processo de desmame permite avaliação objetiva e em tempo real da função diafragmática, aeração pulmonar e função cardiovascular, otimizando a tomada de decisão clínica e minimizando falhas evitáveis de extubação.

Fisioterapia pós-extubação e reabilitação respiratória

A musculatura respiratória, particularmente o diafragma e os músculos acessórios, sofrem atrofia significativa durante a VM prolongada. O treinamento muscular inspiratório (TMI) demonstrou eficácia substancial em melhorar a força respiratória e reduzir o tempo de desmame. Protocolos que integram exercícios de respiração profunda, técnicas de expiração com resistência e manobras de expansão pulmonar proporcionam ganhos funcionais mensuráveis na dinâmica ventilatória pós-extubação.

A implementação de programas de fisioterapia respiratória abrangente reduziu a duração da ventilação mecânica em média 3,23 dias, com taxas de sucesso de desmame alcançando 92% em estudos observacionais.
A ventilação não-invasiva (VNI) representa outra estratégia em pacientes em risco de insucesso. Evidências sustentam o uso profilático de VNI imediatamente após extubação em coortes de alto risco, reduzindo a probabilidade de falha respiratória pós-extubação. Modalidades como pressão positiva contínua das vias aéreas (CPAP) e ventilação com pressão positiva de dois níveis (BiPAP) mantêm pressões alveolares adequadas, minimizando o trabalho respiratório durante a transição para respiração espontânea completa.

A fraqueza adquirida em unidade de terapia intensiva (ICU-AW) constitui fator de risco independente para falha de extubação e prolongamento de hospitalização. A implementação de protocolos de mobilização precoce, incluindo transferências para posição sentada, cicloergometria e exercícios de membros, reduz significativamente a incidência de ICU-AW com redução relativa de risco de 0,77. Essa abordagem integrada promove manutenção da força muscular global, essencial para suportar os aumentados demandas ventilatórias pós-extubação.

Protocolos e evidências atuais

As principais sociedades internacionais de terapia intensiva e pneumologia convergem na recomendação de um processo estruturado de liberação da VM, centrado em avaliação diária de prontidão, realização de teste de respiração espontânea (TRE) padronizado e uso de protocolos multiprofissionais de desmame. A abordagem protocolizada reduz tempo em ventilação, dias de UTI e complicações associadas, sem aumento de falhas de extubação quando criteriosamente aplicada.

Diretrizes da American Thoracic Society (ATS) e da American College of Chest Physicians (CHEST) enfatizam que a primeira etapa do desmame é identificar precocemente a reversão (ainda que parcial) da falência respiratória aguda, com estabilidade hemodinâmica, troca gasosa adequada com frações inspiradas de oxigênio moderadas e ausência de sedação excessiva. Recomenda-se triagem diária de prontidão para desmame, com foco em redução gradativa da sedação, correção de distúrbios hidroeletrolíticos e controle de sobrecarga hídrica, que são fatores-chave de falha de TRE.

As sociedades indicam o TRE como etapa central para avaliar a capacidade de ventilação espontânea com carga mínima, usualmente por T-piece ou ventilação com baixa pressão de suporte (PS 5–8 cmH₂O, PEEP ≤5 cmH₂O, FiO₂ ≤0,4–0,5) por 30–120 minutos. Revisões sistemáticas recentes sugerem que protocolos que incorporam TRE diário reduzem duração da ventilação mecânica e tempo de desmame em comparação ao cuidado não protocolizado, reforçando sua adoção rotineira em UTI. ​

As recomendações ressaltam que o desmame deve ser conduzido por protocolos escritos, com critérios claros de interrupção do TRE frente a sinais de intolerância (taquipneia progressiva, aumento do esforço respiratório, instabilidade hemodinâmica, deterioração da oxigenação ou alteração do estado mental). Também se recomenda monitorização rigorosa do risco de falha pós-extubação e uso de suporte não invasivo preventivo em pacientes de alto risco, estratégia associada à redução de reintubação em subgrupos selecionados.