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Técnicas de terapia manual no tratamento da cervicalgia crônica

A cervicalgia crônica (CC) é uma condição prevalente e multifatorial que afeta um número significativo da população adulta em todo o mundo.

Suas consequências vão além da dor persistente, englobando limitações funcionais, restrição nas atividades de vida diária e impacto negativo sobre a qualidade de vida. Dentre as abordagens fisioterapêuticas para manejo da cervicalgia, as técnicas de terapia manual ocupam posição central no paradigma atual da reabilitação.

Avaliação do paciente com cervicalgia crônica

A avaliação criteriosa é a base do plano terapêutico. Inicialmente, destaca-se a importância da identificação de padrões posturais e desequilíbrios musculares, frequentemente presentes em quadros de cervicalgia crônica.

A análise postural revela desvios, como anteriorização da cabeça, protrusão de ombros e assimetrias relacionadas à cadeia muscular da cintura escapular e cervical. Estes padrões influenciam o aparecimento e perpetuação da dor.

Testes de mobilidade cervical são essenciais, incluindo mensuração da amplitude de movimento em flexão, extensão, rotação e inclinação, além da avaliação de força dos principais grupos musculares cervicais e da cintura escapular, por meio de testes isométricos e dinâmicos.

Limitação funcional, dor referida e alteração da qualidade do movimento podem ser observados.​ Além disso, é necessário investigar sinais de alerta e contraindicações para a aplicação de terapia manual, como histórico de trauma cervical recente, sintomas neurológicos progressivos (parestesias, perda de força, alterações sensitivas), sinais de compressão medular, infecções locais, processos inflamatórios ativos ou suspeita de neoplasias.

Essas situações requerem encaminhamento médico urgente e contraindicam intervenções manuais no segmento cervical. O uso de escalas de incapacidade, como o Neck Disability Index, pode auxiliar a avaliar impactos funcionais e monitorar a resposta ao tratamento.​

Técnicas de terapia manual aplicáveis

Diversas técnicas de terapia manual são indicadas para o tratamento da cervicalgia crônica, devendo ser adaptadas conforme o estágio da doença, dor apresentada e resposta individual do paciente. Dentre as mais utilizadas estão:​

Mobilizações articulares cervicais e torácicas

As mobilizações articulares, incluindo técnicas de Maitland, Mulligan e mobilização com movimento, são empregadas para restaurar a amplitude de movimento, diminuir a rigidez articular e proporcionar alívio da dor.

Essas técnicas utilizam forças graduais e progressivas sobre os segmentos cervicais e torácicos, podendo ser associadas à mobilização segmentar manual e ao uso de grades terapêuticas.

A integração do segmento torácico visa melhorar biomecânica cervical e aliviar sobrecarga muscular regional, otimizando os resultados.​​

Manipulação suave e mobilização neural

A manipulação cervical, quando indicada e administrada com cautela, promove alívio imediato de dor e melhora funcional.

Técnicas de manipulação de alta velocidade, como Thrust, demandam conhecimento aprofundado sobre anatomia, biomecânica e fatores de risco, devendo ser reservadas a profissionais experientes.

Já a mobilização neural atua sobre estruturas nervosas cervicais, especialmente em quadros com dor irradiada ou sensibilização neural, promovendo redução do sofrimento e restauração da função.​​

Liberação miofascial e técnicas de tecidos moles

A liberação miofascial, pompage e técnicas de manipulação de tecidos moles têm como objetivo reduzir tensão muscular, liberar restrições faciais e estimular circulação local.

Essas abordagens são aplicadas em estruturas cervicais, trapézio, escalenos e musculatura paravertebral, proporcionando relaxamento, aumento da flexibilidade e bem-estar. Massagens terapêuticas, embora menos eficazes isoladamente, podem ser úteis como complemento em situações específicas.​

Essas técnicas, quando empregadas de maneira individualizada e com respeito aos limites fisiológicos do paciente, são capazes de promover significativo alívio sintomático e melhora funcional.

Integração com exercícios terapêuticos

A combinação da terapia manual com exercícios terapêuticos é apontada pela literatura como abordagem mais eficiente para o tratamento da cervicalgia crônica.

Fortalecimento da musculatura cervical, escapular e do core (musculatura estabilizadora lombar e abdominal) são fundamentais para reequilibrar forças articulares, prevenir recidivas e reabilitar o paciente.

Exercícios isométricos e dinâmicos melhoram resistência muscular, amplitude de movimento e controle motor. Alongamentos específicos para músculos encurtados (trapézio superior, escalenos, elevador da escápula) ajudam no ganho de flexibilidade e redução de dor.​

O treinamento proprioceptivo e postural é destaque na reabilitação, promovendo reeducação funcional, minimizando compensações, e favorecendo a automatização de padrões motores saudáveis. Técnicas como pilates, reeducação postural e controle motor global complementam o tratamento, promovendo resultados superiores em dor, funcionalidade e qualidade de vida.

O engajamento do paciente em um programa regular de exercícios potencializa o efeito das técnicas manuais, favorecendo a manutenção da melhora obtida e redução do uso de medicamentos analgésicos.​

Evidências científicas e melhores práticas

Diferentes estudos clínicos publicados nos últimos anos reforçam a eficácia das técnicas de terapia manual, isoladas ou combinadas, no tratamento da cervicalgia crônica.

Dados de revisões sistemáticas mostram que mobilizações articulares graduadas promovem melhora significativa na amplitude de movimento, alívio da dor e redução da incapacitação, especialmente quando integradas às práticas de exercícios terapêuticos e educação do paciente.

Técnicas de liberação miofascial apresentam resultados positivos quando aplicadas em padrões específicos de tensão muscular. Manipulações suaves, quando realizadas de acordo com protocolos de segurança, proporcionam alívio imediato sem aumento de riscos, enquanto intervenções combinadas apresentam efeitos sustentados a longo prazo, com melhora funcional mantida por até 24 meses.​

No entanto, a literatura destaca limitações metodológicas, variações nos protocolos, diferenças nos resultados a longo prazo e a necessidade de personalização do tratamento segundo características individuais do paciente.

Contradições ainda existem sobre a superioridade de técnicas isoladas, reforçando a importância de abordagens integrativas e multiprofissionais. Entre as contraindicações e limitações identificadas, além dos sinais de alarme já mencionados, destaca-se que manipulações de alta velocidade exigem rigor na seleção de pacientes e execução técnica, devido ao risco de complicações vasculares e neurológicas.​​

Por fim, a prática baseada em evidências requer uso de protocolos atualizados, avaliação contínua, discussão interdisciplinar e envolvimento do paciente nas decisões terapêuticas.

Considerações finais

O fisioterapeuta exerce um papel importante no manejo da CC, devendo atuar de forma integrada, criteriosa e personalizada.

A avaliação constante, incluindo reavaliações periódicas dos sintomas, função e resposta ao tratamento, garante adaptação do plano terapêutico às necessidades do paciente. Investir em atualização contínua sobre novas técnicas manuais, avanços em métodos de mobilização, protocolos de manipulação e integração com outras modalidades terapêuticas é essencial para promover excelência clínica e segurança ao paciente.

O incentivo ao envolvimento ativo do paciente na sua recuperação, por meio de educação, adesão aos exercícios e autocuidado, potencializa resultados, reduz recorrência da dor e melhora a qualidade de vida. Portanto, as técnicas de terapia manual, quando fundamentadas em avaliação detalhada, integradas aos exercícios terapêuticos e adaptadas às especificidades do quadro clínico, constituem abordagem eficaz e segura para o tratamento da cervicalgia crônica.

A prática fisioterapêutica centrada no paciente, multiprofissional e baseada em evidências é o caminho para resultados sustentáveis e satisfação do paciente.

Perguntas Frequentes