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Diagnóstico de autismo em adultos: desafios e estratégias para psicólogos

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) refere-se a um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits significativos na comunicação e interação social em diferentes contextos, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.

Esses sintomas devem estar presentes no início da infância, porém, podem não se manifestar completamente até que as demandas sociais excedam o limite de suas capacidades (APA, 2023).

Desde os primeiros escritos, datados em 1943 por Leo Kanner, que descrevia o autismo como predominantemente infantil, décadas se passaram para o reconhecimento da condição como um transtorno do neurodesenvolvimento distinto.

Apenas na década de 1970, com diversas evidências que validaram o conceito diagnóstico, além de corrigir equívocos, o autismo foi incluído pela primeira vez no DSM-III e mantido desde então, até os critérios atuais.

Nas primeiras definições diagnósticas, a maior parte dos sinais e sintomas eram descritos a partir de manifestações observadas na infância, com poucos estudos sobre seus desdobramentos relatados na vida adulta. Somente nas décadas seguintes é que se consolidou a compreensão do autismo como uma condição presente durante toda a vida.

Nesse sentido, uma mudança conceitual importante ocorreu em 1987, no DSM-III-R, com a alteração de “autismo infantil” para “transtorno autista”, evidenciando a percepção e a necessidade de uma abordagem mais ampla e flexível, considerando variações relacionadas ao desenvolvimento e permitindo que a condição fosse identificada em diferentes idades.

Trata-se de um reconhecimento essencial, mas que ainda não foi acompanhado, na mesma proporção, por pesquisas e práticas clínicas voltadas a adultos. É no cenário de margem das investigações clínicas e científicas que se insere a discussão sobre os desafios contemporâneos do diagnóstico de autismo em adultos (Rosen et al., 2021).

Especificidades do diagnóstico de autismo em adultos

O reconhecimento do TEA como um transtorno do neurodesenvolvimento preconiza que seu sinais e sintomas estejam presentes desde a infância, ainda que muitas vezes não sejam identificados precocemente, principalmente no chamado “alto funcionamento” (pessoas sem deficiência intelectual e com boas habilidades de linguagem), devido às baixas demandas sociais nos primeiros anos e pelo suporte constante de pais, cuidadores e professores.

O diagnóstico em adultos torna-se complexo, visto que manifestações do autismo podem ser confundidas com manifestações psiquiátricas, além de envolver características presentes não somente do quadro clínico, mas já desenvolvidas da própria personalidade, como aspectos desenvolvimentais, adaptativos e ambientais que moldaram sua trajetória ao longo dos anos.

Além disso, o adulto autista encontra-se em um contexto social que exige autonomia, independência e autorregulação, que tornam suas dificuldades mais visíveis e, ao mesmo tempo, mais suscetíveis a interpretações equivocadas, configurando um dos maiores desafios na prática clínica atual.

Obter dados precisos sobre a história do neurodesenvolvimento, assim como informações detalhadas na coleta de dados quanto a prejuízos na infância podem se tornar um obstáculo no diagnóstico de adultos.

Em muitos casos, pode ser que a pessoa não se recorde de momentos da infância, ou não haja formas de registros desse período para corroborar tais informações, como relatórios, familiares ou professores que possam contribuir com relatos complementares.

Essa escassez de informações torna a reconstrução da história de vida e identificação de prejuízos, limitada. Além disso, muitos indivíduos ao longo do tempo desenvolvem estratégias cognitivas e comportamentais compensatórias, como rotinas rígidas, imitação de comportamentos neurotípicos e sintomas de internalização, que podem mascarar dificuldades e reduzir a percepção de prejuízos.

O histórico de diagnósticos equivocados obtidos ao longo da vida, frequentemente devido ao desconhecimento de profissionais, é outro fator que dificulta o diagnóstico adequado em adultos.

Condições como transtorno de ansiedade social e transtorno obsessivo compulsivo ou transtornos de personalidade, como esquizóide e esquizotípico podem ser confundidoras aos sintomas do espectro. Além disso, a presença de comorbidades como transtornos de ansiedade, depressão e TDAH, podem encobrir características centrais do autismo.

Frente a esse cenário, destaca-se um fator com papel importante no diagnóstico em adultos, que é a camuflagem social, frequentemente responsável por mascarar sinais do espectro (Del Porto & Assumpção Jr, 2023).

A camuflagem social diz respeito ao conjunto de estratégias comportamentais e cognitivas utilizadas para ocultar ou diminuir a apresentação de sintomas do TEA, principalmente em contextos sociais.

O objetivo é aparentar comportamentos neurotípicos, reduzindo a percepção de dificuldades e promovendo integração e aceitação dentro das expectativas sociais. Tais mecanismos se desenvolvem principalmente através da observação de outras pessoas no contexto social e através da exposição de modelos sociais em mídias, livros e filmes.

Entre os mecanismos de camuflagem, destaca-se a compensação, que visa utilizar esforços para compensar dificuldades em situações sociais, como observação e cópia da linguagem corporal e expressões faciais de outros, com atenção aos comportamentos não verbais e aprendizagem de dicas sociais por meio de filmes e livros.

O mascaramento tem como objetivo utilizar estratégias para ocultar ou minimizar comportamentos autísticos, como suprimir movimentos do corpo (estereotipias), forçar contato visual de forma consistente ou se preocupar com postura e expressão facial adequada.

Já a assimilação busca utilizar estratégias com objetivo de inserção em grupos e situações sociais, como utilização de humor durante interações, ou ao “assumir um personagem”, fingindo ser outra pessoa, evitar ou forçar interações com outros.

Tais estratégias visam maior adaptação e busca por pertencimento diante das dificuldades de interação social, porém, podem contribuir para o diagnóstico tardio de pessoas sem deficiência intelectual, principalmente de mulheres, que costumam apresentar mais estratégias de camuflagem social quando comparadas aos homens (McQuaid et al., 2022).

Critérios e instrumentos aplicáveis à população adulta

Ao conduzir um processo diagnóstico em adultos, é importante considerar inicialmente a possibilidade de outras condições psiquiátricas e só depois, de acordo com a apresentação de sinais e sintomas, avaliar a hipótese de TEA.

De acordo com os critérios diagnósticos presentes no DSM-5-TR (APA, 2023), a avaliação de adultos envolve alguns cuidados necessários. No critério A, que aborda prejuízos persistentes na comunicação recíproca e interação social, pessoas que não apresentem comprometimento cognitivo ou de linguagem (antiga Síndrome de Asperger), podem apresentar manifestações mais sutis, principalmente aqueles com boa fluência verbal e estratégias compensatórias desenvolvidas ao longo da vida.

Já quanto ao critério B, marcado por padrões restritos e repetitivos de comportamento, pode ser mais difícil observar prejuízos caso os interesses sejam próximos dos interesses típicos da idade, valorizados socialmente ou comuns no contexto social e profissional.

Assim, dedicar horas ao estudo aprofundado de temas como civilizações antigas, tecnologia ou história pode ser interpretado como dedicação, curiosidade ou mesmo traço de personalidade, mascarando a rigidez ou hiperfoco característicos do espectro.

No que tange aos déficits na reciprocidade socioemocional, que envolve a capacidade de envolvimento com outros e compartilhamento de ideias e sentimentos, adultos autistas podem apresentar mais dificuldades quanto a processar e responder à pistas sociais complexas, como por exemplo, o momento de iniciar uma conversa ou de saber sua vez de falar numa roda de pessoas, ou compreender o que é apropriado dizer em cada contexto.

Principalmente situações novas ou desconhecidas, sem treinamento prévio ou uso de estratégias compensatórias, podem ser desafiadoras para essas pessoas, envolvendo ansiedade e esforço para avaliar o que é socialmente aceito naquele contexto.

Os déficits em comportamentos de comunicação não verbal podem ser observados através de contato visual atípico, expressões faciais, orientação corporal ou entonação na fala com poucas variações, com aparência de postura rígida, estranha ou exagerada.

Com frequência, essas características tornam-se mais evidentes quando analisadas em conjunto, pela dificuldade de integrar fala, gestos, expressão facial e postura corporal, do que quando observadas isoladamente.

Para manutenção e desenvolvimento de relacionamentos, adultos podem apresentar dificuldade na compreensão de comportamentos apropriados ou regras sociais implícitas, compreender piadas e ironias ou identificar limites adequados de intimidade e proximidade, que podem levar a interpretações equivocadas por parte de outros, como percepções de ingenuidade ou desinteresse.

No que diz respeito às habilidades sociais, um conceito importante é a teoria da mente, que se refere à capacidade de inferir estados mentais em si e nos outros, como intenções e estados emocionais.

Em adultos autistas, essa habilidade não necessariamente se encontra ausente, mas pode demandar mais esforços cognitivos. Nesse sentido, é comum observar tendência a interpretação mais literal do que é dito, necessita de explicação clara e objetiva sobre intenções, desafios para identificar duplo sentido ou outras intenções.

No processo de triagem de características concernentes ao TEA, alguns instrumentos podem auxiliar o processo de identificação desses sintomas: a Escala de Responsividade Social segunda edição - SRS-2 (Constantino & Gruber, 2020), é um questionário de 65 itens em escala Likert, composta por auto e heterorrelato, com objetivo de mensurar sintomas associados ao TEA e relacionadas a dificuldades sociais, comunicação social e comportamentos repetitivos, indicando o nível de prejuízo clinicamente significativo.

Já o Autism Spectrum Quotient - AQ e AQ10 (Do Egito et al., 2018; Morais et al., 2018) é um questionário de 50 itens (AQ) e um de 10 itens na versão reduzida (AQ10) que avalia comportamentos que indicam traços autísticos.

Já o questionário RAADS-R (Ritvo, et al., 2001), é composto por 80 itens, é especialmente útil na avaliação de estratégias de camuflagem em adultos, porém sem normativas nacionais.

Além dos questionários de rastreio, há instrumentos que abordam mais comportamentos e habilidades a serem investigados, como a Autism Diagnostic Interview Revised (ADI-R) e Autism Diagnostic Observation Schedule (ADOS-2), que apesar de possuírem adaptação cultural para o Brasil, ainda não possuem dados normativos ou comercialização em âmbito nacional (Mecca & Godoy, 2025).

Cabe destacar que esses instrumentos não fazem diagnóstico, ou seja, apenas auxiliam no processo de triagem e indicam a possibilidade de características autistas, mas não eliminam a necessidade de uma avaliação neuropsicológica e médica completa, uma vez que o diagnóstico de autismo é clínico e deve ser realizado envolvendo histórico clínico, relato de outras pessoas e avaliação comportamental, já que não existem marcadores biológicos específico para a condição.

Processo de diagnóstico

O processo de avaliação diagnóstica do autismo pode gerar inúmeras repercussões emocionais, como medo frente à possibilidade - ou não - do diagnóstico, dúvidas em relação à própria identidade, questionamentos quanto ao futuro e sensação de vulnerabilidade tanto em relação a si mesmo, quanto em relação ao olhar e aceitação dos outros.

Com estratégias de camuflagem desenvolvidas ao longo da vida, é comum que muitas dificuldades vivenciadas tenham passado despercebidas ou invisíveis ao seu entorno, que pode intensificar o incômodo frente aos julgamentos, estigmas ou mudanças na forma como passam a ser percebidas frente ao diagnóstico.

A aceitação e assimilação do diagnóstico pode levar tempo e exigir cuidados específicos, envolvendo acompanhamento multiprofissional, psicoeducação e busca por materiais de apoio para melhor compreensão das demandas emocionais e práticas que um diagnóstico envolve, visto que é comum nesse período revisitar experiências vivenciadas ao longo da vida sob outra perspectiva, além de identificar necessidades que antes eram negligenciadas e agora podem ser alvo de suporte.

O apoio oferecido nesse contexto tem como objetivo reduzir estigmas, aumentar a compreensão sobre dificuldades e potencialidades e favorecer a autoestima e aceitação pessoal.

Nesse sentido, a família, amigos e grupos de apoio tornam-se recursos importantes desse novo entendimento sobre si, tornando o diagnóstico não um ponto final, mas um ponto de partida para possibilidades de senso de pertencimento, reconhecimento próprio e formas mais integradas de estar no mundo.

Conclusão

Frente à complexidade que envolve o diagnóstico de autismo em adultos, é fundamental que o psicólogo esteja preparado para se apropriar dos dados qualitativos presentes no relato do paciente, fontes externas como familiares, cônjuges e outros informantes.

Nesse sentido, a própria relação com o paciente durante a avaliação, torna-se um importante objeto de observação clínica, já que é possível identificar aspectos como habilidades sociais, sinais comportamentais e possíveis estratégias de camuflagem.

Solicitar exemplos concretos envolvendo contextos sociais também é uma forma de compreender o funcionamento social de forma contextualizada. Ainda, os recursos quantitativos, obtidos através de escalas e questionários, auxiliam na organização das informações, identificação dessas dificuldades e, apesar que não fecharem diagnóstico por si só, contribuem para a identificação de indicadores úteis.

Todo esse processo exige atenção, sensibilidade e acolhimento para auxiliar pessoas que buscam compreender sua trajetória, dar sentido às suas vivências e acolher as demandas emocionais envolvidas nesse processo.

A prática baseada em evidências exige que o profissional se mantenha atento às revisões conceituais, aos novos instrumentos e às discussões atualizadas sobre neurodiversidade, garantindo avaliações mais cuidadosas, éticas e alinhadas às necessidades dos pacientes.

O diagnóstico não se caracteriza como sentença ou limitação, mas propicia formas de compreender melhor as dificuldades vivenciadas ao longo da vida e possibilidade de intervenções mais adequadas de acordo com essas dificuldades.

Quando realizado de forma ética e cuidadosa, oferece ao paciente formas de ressignificar sua história, visualizar potencialidades e acessar ferramentas que antes não eram possíveis de serem consideradas.

Dessa forma, o trabalho do psicólogo não se encerra na devolutiva ou no diagnóstico, mas se mantém frente aos desdobramentos dessa avaliação, auxiliando o indivíduo na integração dessas informações, no fortalecimento de sua autoestima e autonomia, passa que possa viver de forma mais incluída, consciente e pertencente.

Autoria

  • Andreza Fonsêca da Silva

Psicóloga formada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), com especialização em Neuropsicologia e Reabilitação Neurológica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP-USP). É psicóloga do setor de Neurologia em hospital terciário e atua na clínica com avaliação neuropsicológica e psicoterapia na abordagem analítico-comportamental para adolescentes e adultos, com ênfase em neurodivergência.

  • Eloha Flória Lima Santos

Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento.

  • Carmem Beatriz Neufeld

Livre docente pela FFCLRP-USP. Pós-doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, Doutora e Mestre em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. Formação em Terapia dos Esquemas pelo LaPICC-USP. Formação em Ensino e Supervisão pelo Beck Institute. Terapeuta Certificada em TCC pela Federação Brasileira de Terapias Cognitivas – FBTC. Psicóloga pela Universidade da Região da Campanha - URCAMP. Fundadora e coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental – LaPICC-USP. Bolsista Produtividade do CNPq. Presidente Fundadora da Associação de Intervenções Psicossociais para Grupos - APSIG. Past-President da Federação Latino-Americana de Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais - ALAPCCO. Representante do Brasil na Sociedade Interamericana de Psicologia - SIP. Ex-Presidente Fundadora da Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências – AESBE. Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC.

Perguntas Frequentes