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Por que se especializar em Psicologia Organizacional com foco em NR-1?

A recente atualização da NR-1 formalizou e abriu precedentes para a consolidação de um campo de atuação no qual o psicólogo é protagonista dentro dos ambientes organizacionais.

Nesse cenário, o psicólogo deixa de ser uma figura a se recorrer apenas como suporte emocional e passa a ser peça central na gestão de riscos e sustentabilidade das empresas.

O que muda com a NR-1?

A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) estabelece as diretrizes, campo de aplicação, termos e definições comuns a todas as normas de segurança e saúde no trabalho no Brasil.

Ela também é responsável por definir os requisitos para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), obrigatórios para todas as empresas com funcionários em regime de contratação CLT.

Recentemente, a NR-1 foi alterada para passar a incluir explicitamente a gestão de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. A antiga redação da Norma já incluía todos os riscos ocupacionais, o que em tese incluía também os riscos psicossociais, no entanto, a alteração foi realizada para reafirmar a obrigatoriedade do seu monitoramento.

Nesse sentido, as empresas são responsáveis por identificar, avaliar, intervir e prevenir os riscos relacionados ao trabalho (Ministério do Trabalho e Emprego, 2025).

Por que a Psicologia é central na prevenção dos riscos psicossociais?

Os fatores de risco psicossociais são os “aspectos da gestão e da organização do trabalho, mais do que características individuais do trabalhador” (EU-OSHA, 2021).

Isso significa que a avaliação e gestão de riscos não deve se ocupar do monitoramento de sinais biológicos, sintomas ou sensações individuais dos trabalhadores, mas sim da avaliação do potencial de dano presente nas condições de trabalho às quais o indivíduo está submetido.

Sob essa ótica, a Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT) se torna central, pois é o campo científico da Psicologia que investiga os aspectos do trabalho e seus possíveis desfechos para a saúde dos trabalhadores e para a sustentabilidade das organizações.

A POT fornece teorias e ferramentas úteis para a compreensão e intervenção no comportamento, cultura e clima organizacionais, estilo de gestão e relacionamentos no ambiente de trabalho (Zanelli et al., 2014).

Atualmente, a literatura científica na área indica que os riscos psicossociais surgem quando o trabalhador está exposto a uma ou mais condições como (Sticca et al., 2022):

  • Conteúdo do trabalho repetitivo, fragmentado ou sem sentido;
  • Carga e ritmo com sobrecarga e pressão constante de tempo;
  • Horários de trabalho extensos, noturnos ou imprevisíveis;
  • Baixo controle e pouca participação em decisões;
  • Ambientes físicos e equipamentos em condições precárias;
  • Cultura organizacional com falhas de comunicação e suporte;
  • Relações interpessoais com conflitos, isolamento ou assédio;
  • Ambiguidade e conflito de papéis na organização;
  • Insegurança na carreira e desvalorização profissional;
  • Demandas conflitantes entre a vida pessoal e o trabalho.

Nesse cenário, o psicólogo especializado em Psicologia Organizacional e do Trabalho é o profissional mais capacitado para fazer a avaliação e gestão de riscos dentro das organizações, estando apto a promover ações de intervenção e promoção do adoecimento mental.

O que o psicólogo especializado pode fazer

O psicólogo especializado pode trabalhar em três estágios distintos da gestão de riscos: o mapeamento, o planejamento da estratégia de saúde mental e a implementação de ações de prevenção e intervenção em saúde mental.

No mapeamento dos riscos psicossociais, o psicólogo atua na realização do diagnóstico organizacional, levantando dados para compreender a realidade interna. Esse processo é feito por meio de

  • análise de indicadores, como número e causas de afastamentos, rotatividade e absenteísmo;
  • inventários e escalas validadas para medir clima, justiça, suporte e outros construtos organizacionais;
  • aspectos relacionados diretamente à organização e distribuição do trabalho.

A partir dos dados mapeados, o profissional deve classificar o nível de risco dos fatores identificados e planejar as ações que irão compor a estratégia de bem-estar a ser desenvolvida pela organização para mitigar o risco de adoecimento em função do trabalho.

No âmbito da implementação, o psicólogo pode atuar promovendo ações de prevenção e intervenção nos níveis individual, de grupo e organizacional. Sendo a combinação dos três níveis a mais efetiva de acordo com pesquisas na área (Virtanen et al., 2025).

Exemplos de ações que podem compor programas de bem-estar e devem ser conduzidas pelo profissional especializado são:

Nível individual: psicoeducação sobre estresse, ansiedade e depressão, entrega de materiais informativos e acompanhamento individual, especialmente para casos críticos, com possibilidade de encaminhamento terapêutico.

Nível grupal: treinamento e orientação de lideranças, grupos psicoeducativos voltados para o ensino de habilidades de regulação emocional, técnicas de resolução de conflitos e fortalecimento de competências.

Nível organizacional: mudanças estruturais no desenho do trabalho, como redução de horas extras, diminuição do número de reuniões e renegociação de metas para mitigar fatores de risco no ambiente de trabalho.

Mercado e oportunidades crescentes

As mudanças na NR-1 abriram diversas portas em setores estratégicos para o profissional capacitado para atuar na área.

No setor privado, o primeiro caminho que muitos profissionais têm encontrado é a atuação por meio de Consultorias Especializadas, onde realizam projetos de desenho e redesenho do trabalho, e aplicam metodologias de avaliação e elaboração de inventários de riscos para empresas que precisam se adequar às novas exigências legais.

Além disso, também é possível atuar em Auditorias de Conformidade, que realizam processos e sistemas de gestão de saúde e segurança, garantindo que as organizações cumpram normas internacionais e nacionais, mitigando passivos trabalhistas e multas.

Já no âmbito das empresas de médio e grande porte, as maiores oportunidades são na integração nos times de People Analytics, Saúde Ocupacional e Governança (ESG), que com as novas mudanças ficam carentes de profissionais capacitados para aprofundar as necessidades relacionadas ao bem-estar dos colaboradores.

No setor público, as oportunidades também são crescentes e estão ligadas à necessidade de peritos e consultores internos para a implementação de programas de qualidade de vida e gestão de riscos em ambientes de alta pressão (como o setor da saúde), visando a redução de afastamentos e a melhoria do serviço prestado à sociedade.

Conclusão

A atualização da NR-1 estabelece a obrigatoriedade de gerenciar os riscos psicossociais com o mesmo rigor técnico aplicado aos demais riscos ocupacionais.

Nesse contexto, a especialização em Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT) consolida-se como uma vantagem competitiva e estratégica, pois capacita o profissional a atuar no nexo entre a organização do trabalho e a saúde mental, evitando abordagens meramente paliativas.

Para além da conformidade legal e da mitigação de passivos trabalhistas, a intervenção técnica sobre os fatores de risco psicossociais cumpre uma função social relevante ao reduzir os índices de adoecimento no sistema produtivo.

Assim, o psicólogo especializado atua como o agente técnico fundamental para assegurar a viabilidade operacional das empresas e a integridade biopsicossocial de trabalhadores.

Autoria

  • Joice Silva Neves

Psicóloga clínica e organizacional (CRP 06/192173), com pós-graduação em Gestão do Comportamento em Organizações (OBM) pelo Instituto Continuum. Atualmente é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP USP, na linha de pesquisa Psicologia Organizacional e do Trabalho, desenvolvendo a pesquisa "Adaptação de um Instrumento de Demandas de Trabalho de empreendedores brasileiros". Possui experiência nas áreas de Gestão de Pessoas e Saúde Mental no Trabalho, e psicoterapia individual de orientação Analítico-Comportamental. Foi também voluntária no projeto PerCursos, onde atua com orientação profissional

  • Eloha Flória Lima Santos

Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento.

  • Carmem Beatriz Neufeld

Livre-docente pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP). Pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestra e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de São Paulo (LaPICC-USP). Professora Titular do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP. Ex-Presidente da Federação Latino-Americana de Terapias Cognitivo-Comportamentais - ALAPCCO) (2019–2022 e 2022-2025). Ex-Presidente fundadora da Associação de ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC) (2011–2013 e 2013– 2015). Bolsista Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Perguntas Frequentes