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Psicoterapia com pessoas idosas: reflexões sobre técnicas e abordagens terapêuticas

Conduzir um processo terapêutico com pessoas idosas requer conhecimento não somente da abordagem teórica a ser utilizada, mas também de psicogerontologia – uma especialidade da psicologia, reconhecida pela
American Psychological Association
(APA), que engloba pesquisas, teorias e práticas relacionadas ao envelhecimento, à velhice e à pessoa idosa.

Com o acelerado envelhecimento populacional, observado no Brasil e em diversos países, torna-se necessário ampliar a formação profissional e a oferta de serviços qualificados para essa parcela da população.  

No que se refere à psicoterapia com pessoas idosas, um dos campos de atuação da psicogerontologia, é fundamental que psicólogos estejam cientes das evidências existentes para o tratamento desse grupo etário. Como nos lembra a APA (2024), enquanto algumas intervenções na velhice exigiram adaptação significativa, outras exigiram pouca, e outras ainda não foram testadas com essa parcela da população.

No que se refere ao último caso, cita-se como exemplo a revisão sistemática com metanálise que teve como objetivo analisar as evidências de eficácia de intervenções psicossociais e baseadas em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para a bipolaridade na velhice (Vieira & Freitas, 2025). A busca resultou em 15 artigos, e apesar de ter sido observado que psicoeducação e, especialmente, intervenções em TCC melhoraram sintomas no Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), sobretudo de mania, nenhum estudo foi conduzido exclusivamente com pessoas idosas – elas constituíram uma pequena parcela das amostras dos estudos, com maioria adulta. Esse resultado limita o conhecimento dos efeitos dessas intervenções na velhice com TAB.  

Para alguns estudos, pessoas idosas podem se beneficiar de intervenções psicológicas em grau comparável a adultos (ver APA, 2024). Já outros (p. ex., revisão sistemática com metanálise de Kishita e Laidlaw, 2017) constataram tamanho de efeito geral grande da TCC para o transtorno de ansiedade generalizado (TAG) em adultos e tamanho moderado com pessoas idosas (Kishita & Laidlaw, 2017). Esse resultado evidencia a presença de espaço para melhoria na oferta de tratamentos baseados em TCC para pessoas idosas com TAG. Cumpre ressaltar que, de acordo com os autores, foram utilizados protocolos de tratamento de TCC robustos nos estudos com pessoas idosas, mas que não levaram em conta conhecimentos gerontológicos para torná-los mais apropriados para a velhice.  

Além da TCC, outras abordagens teóricas têm sido aplicadas a pessoas idosas, como Psicoterapia Interpessoal, Psicoterapia Psicodinâmica, Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), Terapia Comportamental Dialética (DBT) e Intervenções Baseadas em Mindfulness (MBIs) (APA, 2024). Há pouco menos de duas décadas, uma revisão sistemática sobre tratamentos de psicoterapia baseados em evidências para transtornos de ansiedade (TAG, transtornos ou sintomas de ansiedade mistos) na velhice, destacou o Treinamento de Relaxamento, a TCC e, em menor extensão, a Terapia de Suporte e a Terapia Cognitiva como tratamentos baseados em evidências (Ayers et al, 2007). Enquanto a TCC para pessoas idosas com TAG obteve o resultado mais consistente, o Treinamento de Relaxamento representou uma intervenção eficaz e de custo relativamente baixo. Os autores ressaltam a importância de serem examinados outros modelos de terapia e os efeitos da psicoterapia na velhice em outros transtornos de ansiedade, como fobias e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) (Ayers et al, 2007). 

Com relação à depressão – transtorno psiquiátrico mais frequente na última fase do curso de vida – Scogin et al. (2005), também a partir de uma revisão, identificaram seis tratamentos psicológicos baseados em evidências para a depressão geriátrica: a Terapia Comportamental, a TCC, a Biblioterapia Cognitiva, a Terapia de Resolução de Problemas, a Terapia Psicodinâmica Breve e a Terapia de Reminiscência. Apesar de outras intervenções terem sido consideradas promissoras, faltavam estudos de replicação para uma análise mais aprofundada.  

Como observado, abordagens cognitivo-comportamentais, interpessoais, biblioterapia cognitiva, de resolução de problemas, psicodinâmicas, de reminiscência e outras mostraram utilidade no tratamento de problemas específicos entre pessoas idosas. Ainda, tendo como base outros estudos, é possível afirmar que evidências preliminares para o uso da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) com pessoas idosas, particularmente com dor crônica, e para Terapia Comportamental Dialética (DBT) para aquelas com transtorno de personalidade e depressão, estão surgindo (ver APA, 2024). O que precisa ser considerado é que, assim como acontece com outras faixas etárias, os psicólogos devem atentar-se à prática baseada em evidências com pessoas idosas. 

Por fim, é preciso considerar que, em geral, intervenções na velhice vão necessitar de algumas modificações, seja nos protocolos, no processo e/ou no conteúdo. Alguns exemplos são: inclusão de recursos mnemônicos nas sessões; utilização de exemplos relevantes para quem se encontra na velhice (p. ex., situações de preocupações sobre envelhecimento e saúde, aposentadoria); simplificação de técnicas, por exemplo, dos planos de ação, e de terminologias (evitar termos técnicos, gírias) (Kishita & Laidlaw, 2017); modificação/redução do ritmo da terapia; acomodação das limitações sensoriais do paciente idoso, por exemplo, reduzindo o ruído do ambiente, falando mais devagar ou mais perto do ouvido da pessoa idosa e encorajando o uso de aparelhos auditivos; e aumento da atenção a eventos normativos do envelhecimento, como doença física, luto e declínio cognitivo (APA, 2024). 

Apesar da necessidade de mais estudos sobre psicoterapia com pessoas idosas e dos desafios de se trabalhar com a última fase do curso de vida, o processo psicoterapêutico pode ser muito gratificante e enriquecedor, tanto para o paciente quanto para o psicólogo. A população idosa está aumentando, bem como a busca por serviços de saúde, incluindo saúde mental. Ter profissionais capacitados para atender de forma qualificada a essa parcela da população é fundamental.  

Freitas, E. R., Lobo, B. O. M., & Neufeld, C. B. (Mar., 2025).
Psicoterapia com pessoas idosas: reflexões sobre técnicas e abordagens terapêuticas
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Blog da Artmed. 

Autoras
 

  • Eduarda Rezende Freitas

Psicóloga, Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Professora do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia e Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB) e do curso de graduação em Psicologia da UCB. É uma das organizadoras do livro Terapias Cognitivo-Comportamentais com Idosos. Sócia Fundadora e Primeira Tesoureira da Associação Brasileira de Psicogerontologia - ABPsigero (Gestão 2024-2026).  

  • Beatriz de Oliveira Meneguelo Lobo
     

Psicóloga e Mestra em Psicologia (área de concentração Cognição Humana) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Doutoranda em Psicologia em Saúde e Desenvolvimento pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP), com bolsa pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Especialista em Terapias Cognitivo-Comportamentais e com Formação em Terapia do Esquema. Pesquisadora e Supervisora no Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC) da Universidade de São Paulo (USP). Associada à Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC).