Tendências em saúde mental infantil: novos desafios clínicos e caminhos para a prática psicológica

Na clínica infantil, psicólogos têm observado mudanças importantes no perfil das queixas e no modo como o sofrimento psíquico infantil se manifesta.
Questões como ansiedade e depressão, dificuldades de autorregulação emocional, impacto do uso de tecnologias digitais e dinâmicas familiares aparecem com frequência crescente nos consultórios.
Compreender essas transformações é essencial para que o profissional consiga adaptar seu olhar clínico e desenvolver intervenções mais sensíveis às demandas atuais, já que o desenvolvimento infantil resulta da interação entre fatores biológicos, cognitivos, emocionais e ambientais, e qualquer alteração significativa nesses contextos tende a interferir no funcionamento da criança (Papalia & Martorell, 2022).
Este artigo discute as principais tendências contemporâneas relacionadas à saúde mental infantil e suas implicações para a prática do psicólogo, com o objetivo de oferecer uma perspectiva atual que contribua para a avaliação, intervenção e prevenção nesse campo.
Saúde mental infantil na atualidade
A prevalência de transtornos mentais entre crianças tem aumentado de forma consistente nas últimas décadas, com destaque para ansiedade e depressão como principais causas de redução da qualidade de vida na infância (Oswald et al., 2020).
A infância contemporânea é marcada por uma maior complexidade de estímulos e demandas como pressão por desempenho, participação em múltiplas atividades e contato precoce com diferentes valores e informações mediadas por ambientes digitais (Donadon et al., 2026), aumentando a necessidade de repertórios emocionais, cognitivos e comportamentais mais sofisticados que, nem sempre, são compatíveis com o estágio de desenvolvimento em que a criança se encontra (Souza et al., 2017).
Na clínica, os problemas emocionais e comportamentais infantis podem ser organizados em duas grandes categorias: internalizantes e externalizantes.
Os transtornos internalizantes incluem sintomas como tristeza, retraimento, ansiedade, medos, queixas psicossomáticas e baixo autoconceito. Já os externalizantes manifestam-se por comportamentos como agressividade, oposição, hiperatividade e condutas antissociais (Donadon et al., 2026).
Uma atenção especial merece ser dada aos sintomas internalizantes que, por serem menos visíveis, tendem a passar despercebidos por cuidadores e profissionais, e quando identificados, podem já se encontrar em nível de maior gravidade (Achenbach et al., 2016).
É importante considerar que nem todo comportamento desafiador na infância indica um transtorno.
Explosões de raiva, desobediência e birras fazem parte do desenvolvimento esperado nos anos pré-escolares. Esses comportamentos ganham significado clínico quando se tornam persistentes, frequentes e qualitativamente distintos do esperado para a faixa etária (Villalta et al., 2018), o que exige do psicólogo familiaridade com os marcos desenvolvimentais de cada etapa (Donadon et al., 2026).
Autorregulação emocional: dificuldades na infância
O desenvolvimento da autorregulação emocional é considerado um dos principais eixos do funcionamento psicológico infantil.
A capacidade de reconhecer, modular e expressar emoções é construída progressivamente ao longo da infância, sendo influenciada pelas interações com o ambiente e pelas experiências relacionais precoces (Papalia & Martorell, 2022; Eisenberg et al., 2010).
Quando essa capacidade não se desenvolve de forma adequada, as queixas se fazem presentes em diferentes dimensões, como no desempenho escolar, nas relações interpessoais e na saúde mental de forma mais ampla.
As bases da regulação emocional são construídas cedo. Quando os cuidadores são sensíveis e responsivos às necessidades emocionais dos filhos, a criança aprende progressivamente a gerenciar sua tensão interna.
Quando essas interações são marcadas por inconsistência ou negligência, o desenvolvimento da autorregulação pode ser comprometido e os efeitos tendem a se acumular ao longo do tempo (Thümmler et al., 2022). Professores e outros adultos de referência também desempenham papel relevante nesse processo, especialmente no contexto da educação infantil (Papalia & Martorell, 2022; Thümmler et al., 2022).
Na clínica, dificuldades de autorregulação emocional aparecem associadas tanto a problemas internalizantes quanto externalizantes (Eisenberg et al., 2010).
Crianças com baixo repertório de enfrentamento, marcadas por distorções cognitivas, sentimentos de inferioridade ou baixa autoestima, são particularmente vulneráveis ao desenvolvimento de psicopatologias diante das demandas crescentes do cotidiano (Del Prette & Del Prette, 2013).
Dificuldades nesse processo, portanto, não devem ser compreendidas como fenômenos isolados, mas como expressões de um desequilíbrio entre as demandas do ambiente e os recursos emocionais e comportamentais disponíveis para a criança, o que torna a avaliação do contexto de desenvolvimento essencial para o planejamento clínico (Beck, 2022; Neufeld & Cavenage, 2010).
Tecnologia e desenvolvimento psicológico
O uso de dispositivos digitais tornou-se parte do cotidiano das crianças cada vez mais cedo e, com ele, surgem questões clínicas que há poucos anos não faziam parte do repertório do psicólogo infantil.
Revisões sistemáticas indicam que altos níveis de tempo de tela estão associados a mais sintomas depressivos, pior bem-estar psicológico e maior ocorrência de problemas internalizantes e externalizantes em crianças de até 12 anos (Eirich et al., 2022).
A Academia Americana de Pediatria recomenda que crianças acima de cinco anos sejam expostas a no máximo duas horas de tela por dia, um limite que, na prática, raramente é respeitado (Santos et al., 2023).
Os efeitos dessa realidade não são lineares e variam conforme o tipo de conteúdo, o tempo de uso e a mediação dos adultos. Por exemplo, conteúdos inadequados ou violentos tendem a se associar a comportamentos externalizantes, enquanto o isolamento social e a perturbação do sono decorrentes do uso excessivo estão mais relacionados a sintomas internalizantes (Eirich et al., 2022).
Em crianças pequenas, o tempo excessivo de tela tem sido associado a atrasos no desenvolvimento da fala, prejuízos cognitivos e dificuldades de autorregulação, possivelmente porque substitui interações presenciais importantes, além de substituir comportamentos protetores como atividade física, sono adequado e brincadeiras livres (Brasil, 2025; Oswald et al., 2020).
É importante, no entanto, evitar uma leitura exclusivamente negativa da tecnologia. O uso moderado e supervisionado pode oferecer oportunidades de aprendizagem e socialização (Oswald et al., 2020).
O exemplo dos adultos é também um dos fatores mais determinantes para o desenvolvimento de hábitos saudáveis com as telas (Brasil, 2025), o que reforça a importância de avaliar o uso de tecnologia na anamnese e orientar famílias sobre seus riscos (Donadon et al., 2026).
Transformações nas dinâmicas familiares
A família é o primeiro e mais duradouro contexto de desenvolvimento da criança. É nela que se constroem os primeiros vínculos afetivos, os padrões de regulação emocional e as primeiras crenças sobre si mesmo e sobre o mundo (Beck, 2022; Neufeld & Cavenage, 2010).
Nas últimas décadas, esse contexto passou por transformações significativas, com famílias monoparentais, reconstituídas, homoparentais e multigeracionais tornando-se cada vez mais comuns (Papalia & Martorell, 2022). Do ponto de vista clínico, o que mais importa não é o formato da família, mas a qualidade do clima familiar.
Pesquisas indicam que crianças tendem a se desenvolver bem em diferentes arranjos familiares, desde que o ambiente seja estável e afetivo (Papalia & Martorell, 2022). O conflito familiar, por outro lado, é identificado consistentemente como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de problemas emocionais e comportamentais na infância, associado tanto a sintomas internalizantes quanto externalizantes (Papalia & Martorell, 2022; Thümmler et al., 2022).
Para o psicólogo, compreender a dinâmica familiar, muito além da estrutura, é condição essencial para uma avaliação clínica mais precisa e para o planejamento de intervenções que envolvam a família como parte ativa do processo terapêutico.
Prevenção, promoção e novas direções clínicas
As demandas contemporâneas em saúde mental infantil não se restringem ao tratamento de quadros já instalados, mas apontam para a necessidade de ampliar a atuação psicológica para estratégias de prevenção e promoção de saúde.
O psicólogo desempenha papel fundamental também em escolas, serviços de saúde e comunidade, contribuindo para ações que favoreçam o bem-estar emocional desde a infância (Donadon et al., 2026; Papalia & Martorell, 2022). Estratégias psicoeducativas com pais e educadores também são relevantes quando construídas em diálogo com as características culturais, econômicas e sociais de cada população (Donadon et al., 2026).
Na perspectiva das terapias comportamentais, as abordagens de terceira onda, como ACT, DBT e intervenções baseadas em mindfulness, entre outras, têm ganhado espaço no atendimento infantil.
Baseadas em uma perspectiva contextual, enfatizam aceitação e construção de repertórios mais flexíveis de enfrentamento. Elas não substituem a TCC tradicional, mas a ampliam e dialogam de forma diferente com as demandas de um cenário clínico cada vez mais complexo.
A integração entre psicologia do desenvolvimento, TCC e abordagens contextuais permite ao clínico uma compreensão mais abrangente do funcionamento psicológico infantil, considerando não apenas os sintomas, mas os processos subjacentes e os contextos em que se desenvolvem (Neufeld, 2017).
Considerações finais
A saúde mental infantil é um campo em constante transformação. As mudanças sociais, tecnológicas e familiares das últimas décadas criaram um cenário clínico mais complexo, no qual o sofrimento psíquico das crianças se manifesta de formas cada vez mais diversas e nem sempre de maneira evidente.
Compreender essas tendências não se limita à identificação de novos quadros ou sintomas, mas implica reconhecer as transformações do contexto de desenvolvimento e suas repercussões na prática psicológica. É um convite à atualização constante e à construção de intervenções mais sensíveis, integradas e efetivas diante dos desafios da infância na atualidade.
Autoria
- Beatriz Seixas Silva
Psicóloga graduada pela Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP). Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC/USP – Ribeirão Preto). Especializanda em Terapia Cognitivo-Comportamental na Infância e Adolescência pelo IPECS – Instituto de Psicologia, Educação, Comportamento e Saúde.
- Eloha Flória Lima Santos
Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento.
- Carmem Beatriz Neufeld
Livre-docente pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP). Pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestra e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de São Paulo (LaPICC-USP). Professora Titular do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP. Ex-Presidente da Federação Latino-Americana de Terapias Cognitivo-Comportamentais - ALAPCCO) (2019–2022 e 2022-2025). Ex-Presidente fundadora da Associação de ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC) (2011–2013 e 2013– 2015). Bolsista Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).