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Tríade cognitiva: conceito e aplicações

Aaron Beck (1987), criador da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), propôs o modelo de crenças. As crenças são desenvolvidas desde a infância e compõe o sistema de cognições do indivíduo.  

As crenças mais centrais ou nucleares são compreensões duradouras tão profundas que muitas vezes não são articuladas nem para a própria pessoa — o sujeito não se dá conta que pensa de uma forma específica. Crenças centrais, neste sentido, são vistas como verdades absolutas, e extremamente generalizáveis. Estas crenças podem ser bem adaptadas ou desadaptativas, e vão embasar todo um sistema de crenças formulado por crenças intermediárias e pensamentos automáticos.  

Todo este funcionamento cognitivo do sujeito pode ser compreendido como determinadas ideias sobre si mesmo; sobre as outras pessoas ou o mundo; e sobre o futuro. Estes três grandes campos, que são alimentados pelas crenças centrais ou nucleares, são conhecidos como tríade cognitiva (Beck, 2023). 

A tríade cognitiva fornece três perspectivas de interpretação, consistindo em padrões cognitivos através dos quais os indivíduos pensam e compreendem aos outros/o mundo, a si mesmos e ao futuro.
 

Essas interpretações podem ser alteradas a partir de uma série de fatores, sendo um deles a ocorrência de estressores específicos caracterizando um diagnóstico psicopatológico.   

Tríade cognitiva negativa 

Na depressão, por exemplo, a tríade cognitiva se configura de maneira negativa. A pessoa tende a ver a si mesma, aos outros/mundo e, particularmente, ao futuro de forma distorcida (Beck et al., 1997) 

 Tríade cognitiva na depressão

  • Visão de si:
    percepção de si mesmo de modo desvalorizado. A pessoa se vê como indesejável, incapaz e sem valor, atribuindo a si mesma a culpa por experiências desagradáveis quaisquer.
  • Visão dos outros/do mundo:
    percepção de que a realidade é ameaçadora, os outros são muito demandantes, exigentes e o mundo lhe oferece apenas obstáculos e mazelas.
  • Visão de futuro:
    a pessoa deprimida tende a não acreditar na possibilidade de haver um futuro. Se a realidade é repleta de barreiras e limitações, o futuro guarda mais fracassos e frustrações — e não há nada que se possa fazer quanto a isso (Beck et al., 1997; Teodoro et al., 2016).

A tríade cognitiva negativa parece estar relacionada com transtornos psicológicos e com seu agravamento.
Toro-Tobar e colaboradores (2016) realizaram um estudo e afirmam que pessoas com desesperança e crenças negativas na tríade cognitiva possuem maior possibilidade de desenvolver pensamentos de morte, quando comparados a indivíduos que não possuem estas interpretações na tríade cognitiva.  

Os autores discorrem acerca dos componentes cognitivos da depressão em um espectro. No início, estão as cognições negativas da tríade, em seguida o sentimento de desesperança e, por fim, os pensamentos de morte (Toro-Tobar et al., 2016; Wenzel et al., 2009).  

A tríade cognitiva negativa parece estar associada com sintomas depressivos na infância e na adolescência (Berghuis et al., 2020; Braet et al., 2015). Marchetti et al. (2021) demonstraram que a tríade cognitiva distorcida é um fator de risco importante para sintomatologia ansiosa na adolescência, em comparação com outros fatores de risco psicológicos. A importância da tríade cognitiva negativa é ainda maior uma vez que tais psicopatologias possuem risco de cronicidade na adultez quando não tratadas. 

Em se tratando, portanto, de medidas práticas relacionadas à tríade cognitiva, sua aplicação pode ser extensa — iniciando dos outros tipos de cognição. A TCC se configura em uma abordagem estruturada, diretiva e ativa, com evidências de efetividade no tratamento de uma série de transtornos mentais que têm características específicas relacionadas à tríade cognitiva negativa ou distorcida.  

Uma vez que a tríade se relaciona com todo o sistema de crenças do indivíduo (desde crenças nucleares até outros tipos de cognição), pode-se observar a influência das interpretações de diferentes maneiras. Pensamentos automáticos, por exemplo, são cognições que ocorrem de forma instantânea no momento em que há avaliação de significado de situações.  

Diante dos acontecimentos, as pessoas podem interpretar e reagir de acordo com suas cognições do momento. Nesse sentido, é comum que tais cognições estejam fundamentadas em crenças nucleares desadaptativas, advindas de uma tríade negativa. Pensamentos automáticos, por consequência, teriam maior possibilidade de serem distorcidos no que tange a realidade do sujeito, podendo provocar emoções desagradáveis de sentir e comportamentos disfuncionais (Beck et al., 1987; Wright et al., 2008) 

Não se trabalha a tríade cognitiva diretamente na TCC — uma vez que ela é composta por uma série de elementos bastante enraizados. Inicia-se o trabalho com os pensamentos automáticos desadaptativos ou distorções cognitivas. O objetivo seria desenvolver processos conscientes e adaptativos de pensamento, como pensamentos racionais e resolução de problemas.  

Além disso, é primordial que o sujeito nomeie e reconheça sua maneira disfuncional de pensar, modificando especificamente os pensamentos automáticos e, em sequência, as crenças nucleares mais enraizadas. Esse processo pode ser desenvolvido através da busca por evidências que comprovem a veracidade da distorção — tipicamente não há evidências que a sustentem na realidade. Há, ainda, outras estratégias disponíveis para o terapeuta, tais como:  

  • treino de habilidades para solução de problemas;  
  • identificação de valores de vida;  
  • ativação comportamental;  
  • trabalho multiprofissional (especialmente com psiquiatra); e 
  • treinamento de habilidades sociais. Essas estratégias atuam confrontando a tríade negativa, ou então fortalecendo a tríade positiva (Marback & Pelisoli, 2014; Wenzel et al., 2009).  

Tríade cognitiva positiva 

A tríade cognitiva positiva foi proposta por Mak et al. (2011), e
é composta por visões positivas sobre si, sobre os outros/o mundo e o futuro.
Os autores conceitualizam a esperança como uma visão positiva do futuro, e uma boa autoestima como uma visão positiva de si.  

Os autores encontraram fortes correlações entre resiliência e aspectos da tríade cognitiva positiva.  

A resiliência parece ajudar indivíduos a lidar com estresse e adversidades, aumentando a autoestima e o autoconceito positivo. Em se tratando do desenvolvimento de crianças e adolescentes, esses são elementos protetivos ao curso de vida saudável. Uma boa autoestima também parece estar relacionada com felicidade e bem-estar, e o oposto é real: quanto maior a autoestima, menores são os índices de depressão (Mehta et al., 2019). 

Estes são desfechos contrários àqueles geralmente vivenciados por sujeitos com a tríade cognitiva negativa. Se para desenvolver resiliência, é necessário anteriormente perceber o mundo como um lugar bom, sujeitos com a tríade negativa possuem baixas chances de agir de forma resiliente ao longo de suas vidas (Amstadter et al., 2016; Greene et al., 2003). 

Em termos práticos, a atuação clínica é orientada ao fortalecimento da tríade cognitiva positiva. O terapeuta estimula o aparecimento de cognições positivas, e exercita com o sujeito a busca na realidade por evidências destas cognições. O foco parece ser na combinação do trabalho com a autoestima, a esperança e a perspectiva de que o mundo é um lugar bom. Estas são as interpretações positivas dos três componentes da tríade: crenças sobre si, sobre os outros/o mundo e sobre o futuro (Mehta et al., 2019). 

Conclusão
 

Considerando as relações entre as crenças distorcidas e negativas e o desenvolvimento de transtornos psicológicos, torna-se fundamental trabalhar estratégias de intervenção clínica direcionadas a modificar esses padrões disfuncionais de pensamento.  

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) objetiva reestruturar as cognições distorcidas, abordando inicialmente os pensamentos automáticos desadaptativos antes de atingir as crenças nucleares. Além disso, a TCC visa a modificação dos padrões de pensamento e comportamento, lançando mão de estratégias — sempre contextualizadas na conceitualização cognitiva de cada paciente — que incluem, por exemplo, a busca por evidências que desafiem a validade das distorções cognitivas.  

A TCC integra estratégias como treino de habilidades para solução de problemas, identificação de valores de vida, ativação comportamental e treinamento de habilidades sociais, visando confrontar a tríade negativa e fortalecer a tríade positiva. 

 Considerando a tríade cognitiva positiva, é fundamental destacar a relevância do fortalecimento de visões positivas sobre si, os outros/o mundo e o futuro, uma vez que a tríade cognitiva positiva se correlaciona com resiliência, autoestima e bem-estar. A atuação clínica, portanto, concentra-se no estímulo e na consolidação dessas interpretações positivas, contribuindo para a promoção da saúde mental. 

Como citar este artigo:
Amorim, C. A., Lobo, B. O. M., & Neufeld, C. B. (2023, 18 dez).
Tríade cognitiva: conceito e aplicações.
Blog do Secad. 

Autoras

  • Camila Alves de Amorim 

Psicóloga pela Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP) e Mestra em Ciências (Psicobiologia) pela FFCLRP-USP. Especialista em Clínica Analítico-comportamental. Supervisora Clínica em cursos de Pós-Graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental na Infância e Adolescência. Formação em Terapia de Esquemas. Doutoranda e Supervisora Clínica no Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental - LaPICC da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP).  

  • Beatriz de Oliveira Meneguelo Lobo 

Psicóloga e Mestra em Psicologia – área de concentração Cognição Humana pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Especialista em Terapias Cognitivo-Comportamentais com Formação em Terapia do Esquema. Professora em cursos de Pós-Graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia Cognitivo-Comportamental na Infância e Adolescência e Terapia do Esquema. Supervisora Clínica. Pesquisadora Colaboradora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental - LaPICC-USP da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP).