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4 informações que todo supervisor e supervisionando em Terapia Cognitivo-Comportamental precisam saber

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é, consistentemente, evidenciada como uma abordagem eficaz para a prevenção e intervenção em diferentes quadros psicopatológicos. Entretanto, compreende-se que para alcançar o sucesso terapêutico, o psicoterapeuta precisa ser devidamente habilidoso, tanto em aspectos e dimensões gerais e comuns da psicologia quanto nos aspectos próprios da abordagem teórica. (Barletta & Neufeld, 2020; Hofmann et al., 2012) 

Nesse sentido, um dos principais desafios atuais no cenário brasileiro é a formação de profissionais. Por exemplo, através de um mapeamento nacional, Neufeld e colaboradores (2018) observaram que o ensino da TCC durante a graduação tende a ser através de uma disciplina independente na grade curricular, ministrada de forma associada a outros conteúdos. Ainda sobre a formação, a supervisão da prática clínica é compreendida como essencial para o desenvolvimento de habilidades do terapeuta (Barletta & Neufeld, 2020).  

Entretanto, a atividade de supervisão nem sempre é realizada por profissionais com formação para atuar em tal área (Cerqueira, 2018). Por exemplo, muitos dos psicólogos que iniciam a atividade como supervisor em cursos de graduação e pós-graduação a fazem após se tornarem docentes e, por mais que sejam especialistas em TCC, podem desconhecer as especificidades da prática como supervisor. Ainda, é comum que psicólogos comecem a atuar como supervisores após adquirirem uma longa experiência como terapeutas e, por mais que tenham expertise em psicoterapia, podem não ter conhecimento adequado sobre as práticas de supervisão.  

Considerando a importância da supervisão para o desenvolvimento de habilidades dos psicoterapeutas, elaboramos uma lista com quatro informações que todo supervisor e supervisionando precisam saber! 

1 - Como os psicólogos se tornam supervisores?
 

No cenário internacional, existem grupos e instituições que estruturam a formação e certificam os supervisores em psicoterapia. Por exemplo, a
British Association for Behavioural & Cognitive Psychotherapies
(BABCP), no Reino Unido e na Irlanda, oferece uma acreditação para supervisores e terapeutas em TCC, como forma de aumentar a possibilidade de treinamento e prática clínica adequados.  

De forma similar, a
Academy of Cognitive Therapy
(A-CBT) nos Estados Unidos também fornece certificação e materiais para formação de supervisores. Entretanto, até o momento, não existem exigências e formação para se tornar supervisor no contexto brasileiro.  

Ferreira e colaboradores (2021) indicam que já existe um movimento inicial para a qualificação de supervisores no Brasil, evidenciado através do aumento de publicações no contexto nacional sobre o tema [por exemplo, você pode consultar o texto de Barletta e Neufeld (2018) disponível no
PROCOGNITIVA
]. Além disso, no cenário brasileiro, foi criada a Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências (AESBE), que tem realizado eventos voltados para supervisores, contando com convidados nacionais e internacionais. 

2- Supervisão não é sinônimo de consultoria de casos
 

É comum que os profissionais da saúde ofereçam consultoria de casos como sinônimo de supervisão clínica. De acordo com Haan e Birck (2021), as duas práticas são bastante distintas. A consultoria ocorre geralmente de forma pontual e esporadicamente (ou seja, “conforme o necessário”), e trata-se de uma partilha de experiências, conselhos e conhecimentos entre profissionais, que pode ocorrer entre colegas de profissão ou com especialistas no tema de interesse.  

Por outro lado, a supervisão consiste em uma prática orientada ao objetivo de desenvolvimento de habilidades, pode ser semi-estruturada ou estruturada e é composta por pelo menos um supervisor e um supervisionando. Assim, o supervisor é responsável pelo treinamento do supervisionando e a interação entre ambos os profissionais tende a ser mais consistente e duradoura quando comparado à consultoria, com avaliação contínua, feedback e revisões de desempenho do supervisionado. 

3 - A APA elaborou domínios específicos das competências de um supervisor
 

Uma força-tarefa organizada pela Associação Americana de Psicologia (APA) elaborou diretrizes com o objetivo de delinear práticas essenciais para o exercício da supervisão clínica de psicólogos. Assim, as competências de um supervisor foram organizadas em 7 domínios, confira a seguir:

Domínio A - Competência do supervisor

  • Precisa de treinamento para desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes.
  • É modelo para o terapeuta e assegura o desenvolvimento de competências clínicas.

Domínio B - Diversidade

  • Competência para trabalhar com a complexidade da diversidade.
  • Inclui características e valores dos pacientes, terapeutas, supervisores e suas diferentes visões de mundo.

Domínio C - Relacionamento em supervisão

  • A qualidade da relação é essencial e passa pela avaliação adequada, satisfação do terapeuta e autorrevelação em supervisão.
  • Inclui reatividade, contratransferência e relações de poder na supervisão.

Domínio D - Profissionalismo

  • Reflete os valores e as atitudes da profissão, incluindo a identidade profissional.
  • Responsabilidade social: zelar pelo bem-estar das pessoas e ser sensível a suas necessidades.

Domínio E - Avaliação e feedback 

  • Componentes essenciais da supervisão ética. 
  • Está ligado às metas educativas, às competências específicas e aos comportamentos observados. 

Domínio F - Problemas de competência profissional

  • Múltiplos variáveis: aspectos culturais, crenças pessoais e profissionais, formação, grupos, supervisores.
  • Prioridade é o bem-estar do paciente, e não o treinamento do terapeuta.

Domínio G - Considerações éticas, legais e regulamentares

  • Valorização do comportamento ético e dentro dos parâmetros legais da profissão.
  • A supervisão inadequada é uma forte causa de ações disciplinares nos conselhos de classe.

4 - Existem diferentes modelos de supervisão
 

Juntamente com o avanço das pesquisas acerca da supervisão clínica, foram desenvolvidos modelos de supervisão com diferentes ênfases e métodos. Por exemplo, o Modelo de Supervisão Baseado em Psicoterapia, iniciado em 1920, pressupõe que o terapeuta terá melhor aprendizado se experienciar o mesmo modelo da terapia durante a supervisão. 

Assim, de acordo com esse modelo, supervisores em TCC devem incorporar elementos da abordagem na prática de supervisão, como o estabelecimento de metas, agenda, resumos, descoberta guiada, entre outros (Smith, 2009). Outro modelo existente é o Modelo Desenvolvimental de Supervisão, que pressupõe estágios desenvolvimentais de aprendizagem. Existem diferentes propostas de estágios, por exemplo: Modelo de desenvolvimento integrado, Modelo de Loganbill, Hardy e Delworth, Modelo Sistêmico Cognitivo-Desenvolvimental de Supervisão, etc. (Bernard & Goodyear, 2014).  

Por fim, outro modelo mais recente é o Modelo de Processo de Supervisão, que reconhece a supervisão como um processo educacional e relacional (Bernard & Goodyear, 2014). Entretanto, de acordo com Barletta & Neufeld (2018), apesar dos vários modelos de supervisão propostos, ainda faltam pesquisas sobre protocolos de treinamento e melhores práticas de supervisão. 

Como citar este artigo:
Rodrigues, W. S., & Neufeld, C. B. (2024, 11 março). 4 informações que todo supervisor e supervisionando em Terapia Cognitivo-Comportamental precisam saber. Blog da Artmed. Link

SOBRE A EDITORA-CHEFE

Carmem Beatriz Neufeld: Psicóloga. Pós-Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental – LaPICC-USP. Professora Associada do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo – USP. Presidente da Associação Latino-Americana de Psicoterapias Cognitivas - ALAPCO (2019-2022). Presidente da Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023).