Escuta ativa na psicologia: como identificar o que o paciente não consegue verbalizar

O termo “escuta ativa” se refere a um conjunto de práticas essenciais à atuação do profissional da psicologia, pois é através dela que ocorre o desenvolvimento de uma relação terapêutica sólida, permitindo que o profissional não esteja apenas atento às demandas do paciente, mas também sensível a elas.
Além disso, contribui para um processo eficaz de avaliação e desenvolvimento de estratégias centradas no empirismo colaborativo (Cândido, et al. 2024).
Através da escuta ativa, o profissional trabalha com atenção aos sinais e sintomas que o paciente apresenta, sendo os sinais, comportamentos objetivos, observáveis, pelo próprio profissional, enquanto os sintomas são relatados pelo paciente, como uma queixa em formato de narrativa (Rossi & Dunker, 2022).
Desta forma, a escuta ativa é um meio de captar estes sintomas para além do relato do paciente, captando nuances implícitas quase imperceptíveis. Além disso, a escuta ativa também proporciona ao paciente melhor entendimento e compreensão de suas demandas contribuindo também para o alívio e regulação emocional (Guedes & Moreira, 2024).
Fundamentos teóricos da escuta ativa para psicólogos
O empirismo colaborativo, conceito da Terapia Cognitivo-Comportamental, é parte da relação terapêutica e engloba a atenção plena, empatia cognitiva e validação emocional seletiva.
Nesta, terapeuta e paciente se envolvem em um processo de responsabilidade compartilhada e colocam os métodos da abordagem na vida cotidiana (Wright, et al. 2019). Este processo de empirismo colaborativo, que envolve a escuta ativa, é crucial para a adesão do paciente ao tratamento.
Mas, além da psicoterapia, uma especialidade que merece destaque nesta discussão é a Neuropsicologia, que tem se expandido na atualidade e se direciona especialmente à avaliação de transtornos do neurodesenvolvimento.
No entanto, seu objetivo não se limita à identificação das funções cognitivas e comportamentais dos pacientes, atuando também como uma ferramenta de escuta qualificada que possibilita acolhimento e suporte para além da elaboração do laudo psicológico (Santos, 2025).
No entanto, existem fatores que podem interferir na percepção do profissional de psicologia durante o processo de escuta ativa, como suas próprias vivências e, consequentemente, seus preconceitos, além do processo de transferência.
Por essa razão, o profissional deve manter-se constantemente atento e realizar autoavaliações sobre os pensamentos e emoções que seus pacientes despertam, bem como refletir sobre os fatores que mantêm esses padrões (Amaral, 2025).
Outra questão, que influencia na dificuldade de trabalhar a escuta ativa, é a sobrecarga de informação. Nestes casos, a supervisão profissional e o diálogo com outros colegas podem ser úteis, assim como revisar a própria carga de trabalho, que pode estar exacerbada (Wright, et al. 2019).
Detectando o que o paciente não verbaliza
Durante a sessão de psicoterapia, o paciente pode, por exemplo, reagir ao expor determinados assuntos, ele expressa através de seu tom de voz ou na hesitação em completar as frases.
Em momentos como estes, o terapeuta deve se concentrar nesta situação e direcionar o foco das perguntas para ela, tal como com a frase “o que você sentiu quando disse/pensou nisso?” (Amaral, 2025, p.38).
O mesmo é aplicável às avaliações neuropsicológicas, onde os instrumentos utilizados são necessários. No entanto, a escuta ativa do profissional é essencial neste processo por permitir a observação clínica de padrões de funcionamento que muitas vezes não são ditos pelo paciente e sua família, como emoções implícitas e comunicação não-verbal (Navarro & Salino, 2024).
A escuta ativa torna o profissional capaz de avaliar o paciente considerando a linguagem não-verbal, como expressões faciais, que são capazes de transmitir emoções e, portanto, são um complemento essencial à comunicação verbal (Rocha & Lima, 2025).
A linguagem corporal também revela emoções implícitas nas quais o paciente pode, por exemplo, demonstrar agitação motora em momentos de intensa ansiedade (Rocha & Lima, 2025).
Técnicas avançadas de escuta ativa
As técnicas apresentadas a seguir são baseadas na obra de Linehan (1997) e de Waltman (2019) e tem como objetivo auxiliar o profissional no processo de escuta ativa especialmente no contexto da psicoterapia:
- Parafrasear e refletir estrategicamente para validação de hipóteses clínicas: o primeiro passo é, por meio de uma discussão interativa, o terapeuta demonstrar e avaliar se compreendeu com clareza o que o paciente traz para as sessões, o objetivo é chegar a um entendimento compartilhado.
- Perguntas abertas direcionadas à exploração de conteúdos implícitos: este momento corresponde a suposições do terapeuta a respeito das emoções, pensamentos e comportamentos do paciente apenas ao compreender os acontecimentos relatados e observação aprofundada. O paciente pode não ter esta clareza sobre si mesmo, então o terapeuta pode auxiliá-lo direcionando o processo a estes conteúdos.
- Observação sistemática de padrões de linguagem e comportamento durante sessões: o terapeuta deve estar inteiramente atento e presente naquele momento, sem se preocupar com possíveis respostas que precisa direcionar. O paciente pode estar evitando certos temas em sessão desviando o olhar ou direcionando o corpo para outra direção, além de mudar de assunto de forma precipitada. Cabe ao profissional compreender o contexto de vida do paciente, que contribui para ocorrência de determinados comportamentos.
- Registro clínico detalhado para acompanhamento longitudinal: as hipóteses clínicas, diagnósticos, procedimentos adotados durante o tratamento, bem como a evolução do paciente, devem ser registrados, através de ‘registro documental’, e inseridos no prontuário do paciente. Estes registros permitem ao profissional acompanhar tanto o quadro do paciente quanto o andamento de seu próprio trabalho.
Limites e precauções na prática clínica
Do ponto de vista da TCC, a empatia, que compõe a escuta ativa, é a capacidade de se colocar no lugar do paciente, a ponto de conseguir intuir o que ele está sentindo e pensando.
No entanto, deve-se tomar cuidado ao realizar inferências, pois estas podem não ser fundamentadas e, nestes casos, expressar a empatia demasiada pode acabar reforçando os pensamentos disfuncionais do paciente (Wright, et al. 2019).
Além disso, assim como a escuta ativa permite ao paciente se sentir seguro em compartilhar aspectos relevantes de sua vida, é preciso mencionar a necessidade de preservar a confidencialidade (sigilo) entre profissional e paciente, sendo inerente à profissão e passível de punição em caso de descumprimento, conforme explicitado no art. 25 do Código de Ética Profissional do Psicólogo (2005), salvo em situações de ameaça à vida do paciente, ou a outra pessoa, e em casos judiciais específicos.
Desta forma, o paciente deve ter conhecimento sobre seus direitos e os deveres do profissional que lhe está prestando serviço.
Considerações finais
Portanto, é possível concluir que a escuta ativa é a forma de exercício profissional inerente ao campo da psicologia, em especial na psicoterapia e avaliação neuropsicológica, pois compreende a empatia, validação emocional e cognitiva para além dos instrumentos de avaliação.
É através da escuta ativa que o profissional formula o caso com precisão e elabora intervenções adequadas eficazes ao paciente. Além disso, a escuta ativa contribui para a expressão emocional e cognitiva do paciente, permitindo que se sinta acolhido e compreenda suas demandas.
No entanto, os profissionais da psicologia devem estar atentos em relação a possíveis inferências equivocadas, contratransferências, carga de trabalho excessiva, percepções preconceituosas baseadas em seus próprios valores pessoais e sigilo profissional.
E por fim, para aprimorar as habilidades de escuta ativa, é preciso que o profissional esteja sempre atualizando seus conhecimentos, se inserindo em supervisões clínicas, diálogos e trocas com seus pares.
Autoras
- Luiza Maria Stelo de Mattos
Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia, Mestre em Psicologia na área de tratamento e prevenção dos transtornos mentais e técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), pós-graduada em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental pelo Instituto de Pós-Graduação (IPOG). Atua como professora voluntária (2025) do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Rondônia (DEPSI-UNIR) ministrando a disciplina Psicologia Cognitiva e como orientadora-auxiliar do estágio em Clínica Cognitivo-Comportamental.
- Eloha Flória Lima Santos
Psicóloga pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especialização em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP). Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e TCC para obesidade e emagrecimento.
- Carmem Beatriz Neufeld
Livre docente pela FFCLRP-USP. Pós-doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, Doutora e Mestre em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. Formação em Terapia dos Esquemas pelo LaPICC-USP. Formação em Ensino e Supervisão pelo Beck Institute. Terapeuta Certificada em TCC pela Federação Brasileira de Terapias Cognitivas – FBTC. Psicóloga pela Universidade da Região da Campanha - URCAMP. Fundadora e coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental – LaPICC-USP. Bolsista Produtividade do CNPq. Presidente Fundadora da Associação de Intervenções Psicossociais para Grupos - APSIG. Past-President da Federação Latino-Americana de Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais - ALAPCCO. Representante do Brasil na Sociedade Interamericana de Psicologia - SIP. Ex-Presidente Fundadora da Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências – AESBE. Ex-Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC.