As mulheres são a espinha dorsal da saúde global. Elas estão na linha de frente do cuidado, sendo responsáveis pelo atendimento a 5 bilhões de pessoas e contribuindo com R$ 15,5 trilhões para o setor, conforme o
relatório da organização Women in Global Health
.
No entanto, apesar de representarem 70% dos profissionais da linha de frente, ocupam apenas 25% dos cargos de liderança. Essa discrepância reflete desafios estruturais que ainda precisam ser superados, desde a sobrecarga profissional até a busca por maior reconhecimento e equidade.
Para dar visibilidade a essas vivências, a Artmed convidou profissionais de diversas áreas da saúde para compartilhar suas histórias, desafios e conquistas.
Acreditamos que compartilhar histórias é uma forma poderosa de inspirar, gerar reflexões e impulsionar mudanças. Por isso, reunimos relatos de profissionais de diversas áreas, trazendo diferentes perspectivas sobre a rotina, os desafios e a força que move tantas mulheres a seguirem transformando vidas todos os dias.
Nesta artigo, dedicado ao Dia Internacional da Mulher, você encontrará relatos que falam sobre desigualdade de gênero, saúde mental, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e o apoio entre mulheres na construção de carreiras mais justas e fortalecidas. São histórias que merecem ser ouvidas e celebradas.
Ser mulher na área da saúde é um desafio diário. Como fisioterapeuta esportiva, atuando na Marinha e no futebol feminino, precisei constantemente me provar em ambientes tradicionalmente masculinos. Desde o início da minha trajetória, enfrentei olhares de dúvida e questionamentos sobre minha capacidade, simplesmente por ser mulher.
Um dos maiores desafios foi conquistar respeito e reconhecimento em um meio onde, por muito tempo, a presença feminina foi minoria. No ambiente militar, por exemplo, tive que saber me colocar e ser ouvida por querer entrar com a fisioterapia em áreas às quais ela não estava, como na formação de soldados. No futebol, por outro lado, testemunhei de perto as diferenças no investimento e nas condições oferecidas às atletas em comparação ao futebol masculino.
O que me fortaleceu foi a certeza de que meu conhecimento e dedicação falariam mais alto. Me especializei, estudei (e sigo estudando) e fui mostrando, com resultados, que a ciência e a competência não têm gênero. Hoje, tenho orgulho de ver mais mulheres ocupando espaços antes inacessíveis e sei que cada passo dado abre portas para as que virão depois de nós.
A sobrecarga de trabalho é uma realidade, e equilibrar a vida profissional com o autocuidado é um desafio constante. Mas, ao longo dos anos, aprendi que não precisamos fazer tudo sozinhas. O apoio de outras mulheres foi essencial na minha caminhada – seja no trabalho, na pesquisa ou no dia a dia. Construir uma rede de suporte, incentivar e elevar outras profissionais são atitudes que transformam a jornada e fortalecem nossa presença na saúde.
Ainda há muito a ser conquistado, mas cada avanço é uma vitória coletiva. E seguimos juntas, abrindo caminhos e mudando a realidade da saúde para as mulheres.
Ayexa Cruz, fisioterepeuta
Tenho 54 anos de idade e, durante anos, tinha o sonho de me tornar psicóloga. Porém, vieram os filhos (tenho 3), e o sonho foi ficando cada dia mais distante, pois optei por eu mesma cuidar deles. Opção minha, e hoje sei que fiz a minha melhor escolha (mesmo que, para algumas, possa não ser!). Amei ser mãe, esposa e dona de casa (rs rs), porém, o sonho de fazer o curso de Psicologia ainda existia. Depois que os filhos cresceram, aos 48 anos, fui em busca do meu sonho, me formei em Psicologia e hoje estou trabalhando com o que amo. Quando olho para trás, vejo que todas as lutas me tornaram quem sou hoje!
Patrícia Rodrigues Torres de Carvalho, psicóloga
O principal desafio é ter que escolher entre a vida profissional e a família, porque sempre nos culpamos por não ter feito mais ou melhor em ambas as atividades. Se você está com os filhos ou a família, se culpa porque gostaria de estar trabalhando — não que não ame seu filho, não que não ame sua profissão. Fiquei estafada emocionalmente por ter muitas dúvidas, e fui forte como muitas mulheres. Esse dilema entre a vida profissional e a maternidade todas enfrentamos e vencemos, porque somos mulheres!
Lidiane Holstein Alonso, enfermeira
Já lidei e presenciei inúmeras vezes casos de assédio moral e sexual no ambiente de trabalho. Minha profissão é majoritariamente feminina, assim como a equipe que atua na clínica, tanto preceptores quanto residentes. A grande maioria das mulheres se une em prol dessas situações, estando ao lado, fazendo denúncias, sendo, além de colegas de profissão, mulheres e amigas que se colocam no lugar da outra, nunca deixando desistir e ficar para baixo.
Fazia residência onde a chefia interina, na época, era um homem, e ele me chamou para conversar em uma sala fechada, coagindo-me a desistir da residência e ameaçando meu diploma e minha profissão. Na época, fiquei totalmente desestabilizada e saí da sala chorando. Meu grupo de residentes (feminino) estava todo do lado de fora me esperando, pronto para me acolher e não deixar desistir. Foram na ouvidoria por mim e lutaram por mim. As preceptoras também. Graças a elas, estou finalizando a residência, pois, com certeza, teria desistido.
Relato anônimo, farmacêutica.
Em maio de 2023, minha mãe sofreu um AVC hemorrágico e foi internada. Como psicóloga, eu coordeno um grupo de estudos com colegas a cada 15 dias. Quando minha mãe adoeceu, pedi desculpas às minhas colegas e sugeri que continuassem com o grupo sem mim. Imediatamente, elas responderam que só retomariam as reuniões quando eu estivesse pronta para voltar. Elas sabiam o quanto eu era apegada à minha mãe.
A internação de minha mãe foi prolongada devido à piora de seu quadro clínico. Durante esse período difícil, meu grupo de colegas tornou-se meu principal suporte. Elas enviavam mensagens constantemente, e vale ressaltar que a maioria delas eu conhecia apenas virtualmente. Cada uma dedicava um tempo para me dar forças, sabendo que eu não tinha irmãs, apenas dois irmãos. Na nossa sociedade, é comum que os homens sejam ensinados a seguir em frente sem olhar para trás.
No dia 3 de julho de 2023, minha mãe partiu. E, acreditem, a força que me sustentou e me acolheu nesse período veio desse grupo de mulheres incríveis. Elas me enviavam mensagens frequentes, lembrando-me que eu não estava sozinha. Elas me apoiaram e me ajudaram a viver o luto com muito carinho e acolhimento.
É incrível a capacidade que as mulheres têm de sentir a dor do outro, acolher e acalentar, mesmo enfrentando suas próprias adversidades. Essa experiência me fez perceber a importância de termos uma rede de mulheres nos apoiando. Juntas, somos mais fortes e capazes de superar qualquer desafio.
Minha gratidão a cada uma que não soltou minha mão em nenhum instante.
Juciane Costa Carneiro, psicóloga.
Um dos maiores desafios que enfrentei e que ficou marcado na minha jornada aconteceu quando eu era bolsista de pesquisa clínica no Incor. Certa vez, alguns colegas de outro setor me pararam no corredor e pediram que eu explicasse o mecanismo de ação das medicações do protocolo que meu paciente estava recebendo, sendo que eles já tinham o protocolo em mãos. Após minha explicação, um deles comentou:
"Até que, para uma mulher, enfermeira, você está afiada, é bem inteligente."
Fiquei sem palavras naquele momento, apenas agradeci e saí do setor. Situações de preconceito como essa foram muitas, mas algumas marcaram mais profundamente.
Uma delas aconteceu no meu último emprego. Um paciente que iria receber quimioterapia entrou no box, sentou-se na poltrona e aguardou atendimento. Ele perguntou à minha técnica quem era a enfermeira responsável e, quando ela apontou para mim, ele se levantou, saiu da sala e entrou em outro box, dizendo que não queria ser atendido pela enfermeira responsável porque ela era preta. Minhas colegas de trabalho vieram até mim para contar o ocorrido. Eu nem tinha percebido, mas elas me abraçaram e disseram que sentiam muito. Algumas comentaram que quem realmente perdeu um bom atendimento foi ele.
Apesar dos desafios, momentos marcantes também fazem parte da minha trajetória. Os elogios dos pacientes, que dizem que sou uma anja, que minhas mãos são tão leves que não sentem nada, ou que minha alegria contagia o ambiente e torna o tratamento mais leve, são inesquecíveis.
Uma das minhas conquistas foi ser reconhecida pelo centro acadêmico da faculdade e me tornar a mascote virtual do Instagram da instituição.
Ao longo da minha jornada, o apoio e a colaboração entre mulheres no ambiente de trabalho fizeram uma grande diferença. No meu último emprego, cheguei apreensiva devido às experiências anteriores, mas fui acolhida por algumas das minhas técnicas. Durante um almoço, compartilhamos nossas trajetórias, e elas me abraçaram e disseram que mulheres pretas deveriam se apoiar e acolher umas às outras. Falaram que estavam felizes em ver uma enfermeira preta em um hospital grande e que estávamos conquistando os espaços que almejávamos. Foi um momento de emoção e união, e todas choramos e agradecemos umas às outras pelo apoio e acolhimento.
Danielly Alves dos Santos, enfermeira
Acredito que não fazemos nada neste mundo sozinhas, vivemos em sociedade, e grande parte das mulheres busca um parceiro para se relacionar e viver compartilhando a vida. O discurso de independência é maravilhoso, mas sabemos que ninguém é 100% autossuficiente e nem precisamos ser. E digo isso porque, nas crenças de “eu me basto”, algumas mulheres aceitam relacionamentos com homens que não são recíprocos, onde elas são donas de casa, trabalham fora, pagam as contas, fazem o almoço, café, jantar… E a vida a dois não é para ser assim. 90% um, 10% outro.
Meu trabalho como psicóloga de mulheres é levar mais consciência à escolha desse parceiro, para que elas busquem cada vez mais sua autonomia, porém, sem que isso prejudique a elas mesmas. A independência é boa quando não sobrecarrega, quando não é injusta, quando é recíproca. A relação deveria estar tornando a vida dessas mulheres mais LEVES, ao invés de mais pesadas. Vejo que, por termos conquistado tanto espaço e oportunidades, muitos homens têm se aproveitado dessa nossa força. Por isso, mulher, que hoje você volte essa capacidade, força, trabalho, energia, dedicação, tempo, atenção para quem realmente deve: VOCÊ!
Natalia Dadalto, psicóloga
Minha mãe sempre foi um exemplo muito forte de determinação e superação. Sempre me apoiou em minhas decisões e contribuiu significativamente para o meu engajamento nos estudos e na profissão. Esse primeiro apoio foi fundamental, mas outras mulheres também me ajudaram, como a minha tia, as donas das pensões pelas quais passei, as professoras, as colegas de classe. Enfim, muitas fizeram e ainda fazem diferença em minha jornada.
Amanda Guiduci Marcial, fisioterapeuta
Um dos desafios mais marcantes que enfrentei foi a sobrecarga mental e de responsabilidades depois que me tornei mãe. A sobrecarga emocional me fez rever com mais força o espaço que o trabalho ocupa na vida e, com isso, fiz uma mudança de carreira, escolhendo sair de um ambiente corporativo no qual estava em constante ascensão para cuidar de mim e de um sonho: construir uma empresa na qual eu trabalhe para promover transformações individuais e corporativas, através da ciência psicológica e um olhar acolhedor para as transições de mulheres nesses cenários, tendo como base a Saúde Mental.
Apesar de esta transição ter sido planejada e não impulsiva, o desafio emocional de aceitação das pessoas com quem convivia no trabalho, colegas, foi desafiador. Precisamos de validação e ouvi muitos comentários de que eu estava tomando uma decisão precipitada e errada, sem antes as pessoas perguntarem o que me motivou a fazer a mudança ou me encorajarem. Mesmo tendo o privilégio de ter todo o apoio de familiares. Além disso, a perda de identidade foi um grande desafio. As amizades e o coleguismo de antes não existiam mais e percebi que algumas pessoas só se relacionavam por conta do cargo ou das obrigações profissionais. Isso trouxe um sentimento de não pertencimento e um desafio para lidar e alcançar novos ambientes e relações na nova etapa da minha vida.
Nesta nova abertura para conhecer novas pessoas e construir networking, conheci mulheres maravilhosas e inspiradoras, que me deram abertura e com quem tínhamos muita sinergia na atuação. A exposição em novos ambientes e a aproximação dessas pessoas, em sua maioria mulheres, me motivaram a seguir o caminho e também estavam abertas a trocar e mentorear nesta nova etapa da minha vida.
Deixo aqui um recado: não desistam, se juntem a outras mulheres, busquem empresas sustentáveis e com valores, façam parte de uma rede. Precisamos de mais união, cuidado com a gente, com as nossas relações e com o mundo.
Camila Andreucci, psicóloga
Em 2013, fui diagnosticada com câncer na parótida, uma glândula salivar, em estado avançado, o que precisou de cirurgia para retirada, seguida de radioterapia e quimioterapia. Foram momentos difíceis e dolorosos, pois fiz os dois tratamentos ao mesmo tempo e quase não resisti. Nessa época, minha filha só tinha 2 anos.
Porém, me fortaleci com a palavra de Deus, o apoio de minha família, um marido que esteve comigo em todos os momentos e uma equipe de profissionais de saúde que me acolheu de uma forma fantástica.
Hoje estou curada, pratico atividade física todos os dias, estou mais unida do que nunca com minha família e retornei para os atendimentos de Fisioterapia Domiciliar, com uma visão muito mais acolhedora dos meus pacientes, por entender o quanto é difícil estar do outro lado.
Caroline Meire Santana Moura, fisioterapeuta
A sobrecarga muitas vezes nos faz sair de nós mesmas e não conseguimos dar voz às nossas vivências. Em uma tarde normal de trabalho, estava eu dentro da sala de atendimento com uma paciente e simplesmente comecei a não me sentir como pessoa. Um formigamento tomava conta de mim e meu cérebro literalmente se desconectou de tudo. Não me lembrava do nome da paciente e de ninguém. Fiz um esforço gigante para terminar a sessão sem que ela percebesse meu estado. Quando ela saiu, não conseguia me lembrar de nada. Simplesmente um apagão!
Após esse dia, tendo que me afastar alguns dias do trabalho, tive que lidar com o famoso burnout. Um cansaço extremo e uma falta de motivação tremenda para realizar as coisas. Tinha “preguiça” de tudo, inclusive de cuidar do que dependia de mim: casa, filho e tudo mais. Com tratamento e muito carinho por mim, é algo com o qual até hoje tenho que me policiar para que não entre novamente nessa toada de muita cobrança, exigência e cumprimento de tarefas. A percepção diária de como estou e como posso curtir minha família e meus momentos de lazer tem sido essencial. Tenho aprendido a me permitir simplesmente ser!
As histórias que você acabou de ler são um reflexo da força, da resiliência e da coragem que as mulheres demonstram todos os dias, especialmente nas áreas da saúde. Elas enfrentam desafios imensos, mas também conquistam vitórias que moldam o futuro das próximas gerações.
A Artmed se orgulha de dar visibilidade a essas vozes, porque acreditamos que as mulheres são não apenas protagonistas, mas também agentes de transformação em suas comunidades e no setor da saúde. Que essas histórias continuem a ecoar e a motivar outras mulheres a seguir seus sonhos, lutar por seus direitos e conquistar um futuro mais justo e equilibrado.