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Transtorno de Personalidade Dependente: características, diagnóstico e abordagens terapêuticas

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM-5-TR (Association, 2023), transtornos da personalidade são definidos como
“um padrão persistente de experiência interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo, é difuso e inflexível, começa na adolescência ou no início da fase adulta, é estável ao longo do tempo e leva a sofrimento ou prejuízo”
. Existem dados de que globalmente, os transtornos de personalidade têm uma prevalência em torno de 3 a 10%, sendo ainda mais predominante em pessoas afetadas por outros transtornos mentais (Solmi et al., 2021). 

Existem duas principais formas de se classificar Transtornos de Personalidade: a partir do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM-5-TR (Association, 2023) e a partir da Classificação Internacional de Doenças (CID), que está em sua 11ª edição. Oliveira (2021) apresenta em sua dissertação as principais diferenças entre ambos: 

Fonte: Oliveira (2021).

Independentemente da classificação utilizada, ela se mostra importante enquanto linguagem comum entre os profissionais de saúde que atuam juntos perante um caso apresentado.

No DSM-5-TR (Association, 2023), os transtornos da personalidade estão reunidos em três grupos, com base em semelhanças entre eles. A tabela a seguir resume as características de cada grupo e os transtornos que cada um deles abrange. Neste artigo, pretendemos focar no Transtorno de Personalidade Dependente.

O que é Transtorno de Personalidade Dependente

Beck (2017) define em seu livro “Terapia cognitiva dos transtornos da personalidade” que indivíduos com Transtorno de Personalidade Dependente se veem como desamparados, tentando vincular-se a alguém que forneça os recursos para sua sobrevivência e felicidade. Tais pessoas são vistas como “pegajosas” e “submissas”.

Beck (2017) também faz uma síntese, observada na tabela abaixo, de como é a visão de si, dos outros, as crenças, emoções, ameaças percebidas e estratégias de pessoas com Transtorno de Personalidade Dependente.

Visão de si

  • Carentes, fracos, indefesos e incompetentes.

Visão dos outros

  • “Preciso de pessoas fortes para sobreviver, ser feliz e apoiado”; “Sou totalmente

Crenças

  • “Preciso de pessoas fortes para sobreviver, ser feliz e apoiado”; “Sou totalmente indefeso e sozinho”; “Só consigo funcionar se não for abandonado e tiver alguém competente ao meu lado”.

Ameaças percebidas

  • Rejeição e abandono.

Emoções

  • Preocupação, ansiedade e depressão caso o relacionamento não esteja bom. Gratificação ou euforia quando seus desejos dependentes estão garantidos.

Estratégias

  • Manter-se em relacionamentos dependentes, subordinando-se a uma figura “forte” e tentando acalmá-la ou agradá-la.

Como visto, os indivíduos com Transtorno de Personalidade Dependente se veem como incapazes e fracos, e sua principal estratégia é adotar comportamentos de submissão a uma figura idealizada considerada forte e capaz, o que leva essas pessoas à perda de sua autonomia e necessidade de reafirmação constante.

Uma das formas pelas quais a dependência pode aparecer é em relação a coisas específicas como se vestir e escolher sua comida, que exigem quantidade excessiva de conselhos e reasseguramentos oferecidos por outros (Association, 2023). Críticas são compreendidas como reforço da incapacidade, e, portanto, essas pessoas não criticam os outros com medo de perdê-los, acatando o comportamento destes mesmo que sejam inadequados (Naves et al., 2022).

Critérios Diagnósticos segundo o DSM
 

O DSM-5-TR (Association, 2023) elenca 8 critérios para se observar, dos quais 5 ou mais precisam estar presentes para o diagnóstico de “Transtorno da Personalidade Dependente”, que é uma necessidade difusa e excessiva de ser cuidado que leva a comportamento de submissão e apego que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos. 

Os critérios estão elencados a seguir: 

  • Tem dificuldades em tomar decisões cotidianas sem uma quantidade excessiva de conselhos e reasseguramento de outros. 
  • Precisa que outros assumam responsabilidade pela maior parte das principais áreas de sua vida. 
  • Tem dificuldades em manifestar desacordo com outros devido a medo de perder apoio ou aprovação. (Nota: Não incluir os medos reais de retaliação.) 
  • Apresenta dificuldade em iniciar projetos ou fazer coisas por conta própria (devido mais a falta de autoconfiança em seu julgamento ou em suas capacidades do que a falta de motivação ou energia). 
  • Vai a extremos para obter carinho e apoio de outros, a ponto de voluntariar-se para fazer coisas desagradáveis. 
  • Sente-se desconfortável ou desamparado quando sozinho devido a temores exagerados de ser incapaz de cuidar de si mesmo. 
  • Busca com urgência outro relacionamento como fonte de cuidado e amparo logo após o término de um relacionamento íntimo. 
  • Tem preocupações irreais com medos de ser abandonado à própria sorte.   

Tratamento para o Transtorno de Personalidade Dependente
 

Intervenções terapêuticas para Transtornos de Personalidade são multifacetadas e envolvem abordagens psicoterapêuticas e farmacológicas. De maneira geral, a psicoterapia em si é considerada a primeira linha de tratamento para os Transtornos de Personalidade (Coelho et al., 2024). Alguns autores citam como abordagens que possuem evidências para o tratamento de Transtornos de Personalidade a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a Terapia Comportamental Dialética (DBT) e a Terapia de Esquemas (TE) (Coelho et al., 2024; Disney, 2013; Góes Filho, 2023). 

Dentro da psicoterapia, é importante que o terapeuta compreenda que as crenças a serem modificadas derivam de interações com cuidadores invalidantes das experiências de auto-eficácia do paciente. Sendo assim, a relação terapêutica precisa ser fonte de acolhimento e encorajamento da autonomia do paciente (Góes Filho, 2023). 

Precisa haver o incentivo à reestruturação dos pensamentos do paciente de que ele é fraco e ineficaz. Mapear momentos-gatilho nos quais a pessoa se sente assim, para abrir mão de treinos de habilidades e incentivo à ativação comportamental, são caminhos possíveis de serem seguidos por parte dos terapeutas (Disney, 2013). 

O tratamento farmacológico de Transtornos de Personalidade ainda é um campo a ser mais explorado. Atualmente, não existem estudos suficientes para apontar eficácia em remitir os quadros específicos de transtornos, sendo os medicamentos indicados para o tratamento de comorbidades e sintomas, como por exemplo através do uso de reguladores de humor e antidepressivos (Coelho et al., 2024; Góes Filho, 2023; Louzã & Cordás, 2020). 

Conclusão
 

Profissionais que enfrentam o desafio de atender pacientes com Transtorno de Personalidade Dependente precisam se manter atualizados no campo científico e dos estudos, para que tenham uma compreensão aprofundada das características do transtorno, levando a tratamentos mais eficazes e baseados em evidências.  

A necessidade excessiva de cuidados e a tendência à submissão que estes pacientes apresentam são os pontos fundamentais para o desenvolvimento de intervenções terapêuticas eficazes.  

Abordagens psicoterapêuticas, especialmente as baseadas na Terapia Cognitivo-Comportamental, desempenham um papel crucial ao promover a autonomia e reestruturar crenças disfuncionais, e embora o tratamento farmacológico ainda seja um campo em desenvolvimento, o manejo adequado das comorbidades oferece suporte adicional ao paciente.  

Como citar este artigo:
Risso, M. O., Lobo, B. O. M., & Neufeld, C. B. (Set., 2024). Transtorno de Personalidade Dependente: características, diagnóstico e abordagens terapêuticas. Blog do Artmed.

Autoras

  • Mariana de Oliveira Risso 

Psicóloga e Mestranda pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP). Pós-graduada na área de Terapia do Esquema pela Verbo Educacional. Pesquisadora no Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC-USP), onde também realizou treinamento de supervisoras e é supervisora observadora de estágios. Foi cofundadora e presidente da Liga de Terapias Cognitivo-Comportamentais (LiTCC) USP-RP e participou do projeto de extensão TCC para a Comunidade.  

  • Beatriz de Oliveira Meneguelo Lobo 

Psicóloga e Mestra em Psicologia (área de concentração Cognição Humana) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Doutoranda em Psicologia em Saúde e Desenvolvimento pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP), com bolsa pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Especialista em Terapias Cognitivo-Comportamentais e com Formação em Terapia do Esquema. Pesquisadora e Supervisora no Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental - LaPICC-USP da Universidade de São Paulo (USP).