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Tratamento da obesidade: abordagem da psicologia

De acordo com a Federação Mundial de Obesidade, a obesidade é uma condição considerada um processo de doença, sendo ela crônica, progressiva e reincidente, exigindo programas de intervenção e tratamento  (Bray, Kim, & Wilding, 2017).  

O sobrepeso e a obesidade são descritos como fatores de risco para condições como hipertensão, diabetes tipo II, doenças cardiovasculares, AVC, distúrbios musculoesqueléticos, dislipidemias e alguns tipos de câncer. Em casos graves, há diminuição da expectativa de vida e aumento da mortalidade por causa cardiovascular (Basen-Engquist & Chang, 2011; Chu et al., 2019; Mitchell et al., 2015; Rimm et al., 1995).  

O desenvolvimento da obesidade tem etiologia multifatorial, ocorrendo devido a interação entre fatores como genes, ambiente, aspectos emocionais e estilo de vida (Colombarolli,  Loureiro, & Pasian, 2022).  Além das consequências físicas, o sobrepeso e a obesidade possuem sérias consequências emocionais e psicológicas, incluindo depressão, baixa autoestima, transtornos alimentares, prejuízos na autoimagem e redução da qualidade de vida (Chu et al., 2019). 

A obesidade é frequentemente associada a um estigma social negativo, o que pode levar a diversas formas de discriminação e preconceito contra pessoas com sobrepeso ou obesidade. Infelizmente, isso pode começar já na infância e afetar a autoestima, autoimagem e relacionamentos sociais dessas pessoas ao longo de suas vidas.  

A mídia e a indústria da moda muitas vezes promovem a ideia de que um corpo magro é o padrão ideal de beleza, o que pode levar a uma pressão social para que as pessoas se conformem a esse padrão e à prática de dietas extremas, restrições alimentares e exercícios físicos inadequados. Esse fatores podem contribuir para transtornos alimentares, bem como favorecer comportamentos de isolamento social e sentimentos de inferioridade, cronificando dificuldades adaptativas (Colombarolli,  Loureiro, & Pasian, 2022).  

Diante da complexa etiologia da obesidade e sobrepeso, existem diversas abordagens de tratamento para a obesidade, que podem ser utilizadas de forma isolada ou combinada, dependendo das necessidades e características de cada paciente (Barbosa, Melo, & Teti, 2022). Alguns exemplos dessas abordagens incluem: 

Tratamento farmacológico

Medicamentos podem ser prescritos para ajudar a controlar o apetite, reduzir a absorção de gordura ou acelerar o metabolismo. Em recente estudo de metanálise, Shi e colaboradores (2022) sugerem que a farmacoterapia é uma alternativa eficaz ou terapia adjunta para a perda de peso em adultos com sobrepeso e obesidade. É importante ressaltar que os medicamentos devem ser prescritos por um profissional de saúde e utilizados com cautela, já que podem apresentar efeitos colaterais. 

Tratamento dietético e exercícios físicos

Uma dieta equilibrada e individualizada pode ser prescrita para ajudar o paciente a alcançar um peso saudável, bem como uma rotina adequada de exercícios físicos. Intervenções baseadas em exercícios demonstram eficácia em termos de redução do peso corporal (IMC, porcentagem de gordura corporal, força de preensão e velocidade de marcha) e intervenções nutricionais impactam na redução de peso e de massa de gordura (Hsu, Liao, Tsai, & Chen, 2019). É importante que a dieta seja acompanhada por um nutricionista, para garantir que todas as necessidades nutricionais sejam atendidas, e que a rotina de exercícios físicos seja acompanhada por um profissional de educação física (Chu et al., 2019).  

Tratamento psicoterapêutico

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma abordagem terapêutica que tem se mostrado eficaz no tratamento da obesidade, pois ajuda a identificar e mudar pensamentos e comportamentos disfuncionais relacionados à alimentação e ao estilo de vida.
A TCC pode ajudar a promover a aderência a intervenções de estilo de vida saudável, aumentar a autoestima e melhorar a qualidade de vida geral do paciente, apresentando resultados positivos em estudos de metanálise (Comșa, David & David, 2020). Outras terapias psicológicas também têm sido estudadas, como a Perapia psicodinâmica, a Terapia Interpessoal e
Terapia de Aceitação e Compromisso
, mas a eficácia dessas abordagens ainda precisa ser melhor estabelecida (Chu et al., 2019). 

Tratamentos heterodoxos e suplementos nutricionais

Existem diversas terapias complementares que podem ser utilizadas para ajudar na perda de peso, como acupuntura, homeopatia, fitoterapia, entre outras. No entanto, é importante lembrar que a eficácia dessas terapias ainda é controversa e que o uso de suplementos nutricionais deve ser feito com cautela e orientação de um profissional de saúde (Chu et al., 2019). 

Tratamento cirúrgico

A cirurgia bariátrica é uma opção para pacientes com obesidade mórbida que não conseguiram alcançar um peso saudável com outras abordagens de tratamento. Essa cirurgia envolve a redução do tamanho do estômago e pode ajudar a controlar o apetite e a absorção de nutrientes (Colombarolli,  Loureiro, & Pasian, 2022).  

Peckmezian e Hay (2017) conduziram uma revisão sistemática e síntese narrativa com o objetivo de fornecer uma avaliação integral dos efeitos das intervenções de perda de peso para indivíduos com obesidade, avaliando os resultados fisiológicos, psicológicos e transtornos alimentares. As conclusões do estudo revelaram que as intervenções no estilo de vida têm a mais forte base de evidência como uma abordagem de primeira linha para a perda de peso, com progressão para a farmacoterapia e cirurgia bariátrica em casos mais graves ou complicados.  

Além disso,
intervenções comportamentais, psicológicas e de estilo de vida para perda de peso obtiveram melhorias em desfechos cognitivos, controle sobre a alimentação e comer compulsivo,
enquanto que a cirurgia bariátrica levou a melhorias no comportamento alimentar e na imagem corporal que não foram sustentadas a longo prazo. 

É importante ressaltar que
não existe uma abordagem única que seja eficaz para todos os pacientes com obesidade.
A obesidade é uma condição complexa que pode ter diversas causas, como fatores genéticos, ambientais e comportamentais. Por isso, o tratamento deve ser individualizado e considerar as necessidades e características de cada pessoa.  

Além disso, o suporte de uma equipe multidisciplinar, incluindo médicos, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos, pode ser fundamental para alcançar resultados positivos a longo prazo. Cada profissional tem um papel importante a desempenhar no cuidado de pacientes com obesidade.  

O médico, por exemplo, pode ajudar a identificar condições de saúde subjacentes que possam estar contribuindo para a obesidade e prescrever medicamentos, se necessário. O nutricionista pode ajudar a desenvolver um plano alimentar equilibrado e personalizado para o paciente, e o educador físico pode orientar sobre atividades físicas adequadas às condições do paciente.
Já o psicólogo pode auxiliar o paciente no manejo de emoções, comportamentos e padrões alimentares que possam estar relacionados à obesidade. 

Por fim, é importante lembrar que o tratamento da obesidade é um processo contínuo e muitas vezes desafiador, que requer comprometimento e perseverança por parte do paciente. Mas com o apoio adequado e uma abordagem individualizada, é possível alcançar resultados positivos a longo prazo e melhorar a qualidade de vida.