Psicoterapia com adolescentes: técnicas e abordagens terapêuticas

A adolescência é um período de mudanças biopsicossociais, no qual a descoberta e a busca por afirmação de identidade são aspectos presentes (Papalia & Martorell, 2022). Neste âmbito, os jovens adquirem maior autonomia e passam a valorizar cada vez mais as relações externas ao ambiente familiar, passando por desafios relacionados às expectativas sociais e a influência de pares. Dessa forma, entende-se que é uma etapa desenvolvimental frutífera e repleta de potencialidades, mas também de vulnerabilidade. Isso se deve ao fato de que, no contexto de tais mudanças, o jovem pode estar exposto a fatores de risco, frente aos quais ainda não possui habilidades consolidadas para enfrentar e, ainda, pode não ter fatores de proteção que possam auxiliar (Papalia & Martorell, 2022). É relevante também diferenciar as fases da adolescência, que são a fase inicial (10 a 14 anos) e fase final (15 a 19 anos), pois, apesar de possuírem semelhanças, estas faixas etárias se diferem significativamente quanto à vivência e expressão dos desafios dessa etapa.
Com isso em vista, as principais questões enfrentadas pelos adolescentes consistem na oscilação de humor, conflitos marcantes nas relações familiares e comportamentos de risco (Neufeld & Peron, 2022). Ainda, as experiências vividas nesse período impactam a vida adulta, portanto, é fundamental voltar a atenção a este público, tanto na perspectiva de promoção e prevenção, quanto na intervenção sobre questões já instauradas. São diversas as possibilidades para atuar nestas perspectivas, a depender das demandas presentes e do nível de intensidade necessário, ressaltando ainda que não são ações excludentes. Assim, incluem-se programas em larga escala como parte de políticas públicas, intervenções em grupos em escolas ou contextos de saúde e, por fim, a psicoterapia individual.
Quanto às dificuldades apresentadas pelos adolescentes, estas são diversas, mas comumente estão relacionadas aos desafios e questões já mencionadas desta fase. Ao tratar de demandas psicológicas nas etapas desenvolvimentais da infância e adolescência, pode-se compreender a expressão de sintomas em termos de internalizantes ou externalizantes (Macedo et al., 2017). Os sintomas internalizantes são aqueles nos quais as dificuldades se voltam para dentro, como ansiedade e depressão. Já os externalizantes se voltam para fora, caracterizando oposição desafiante e conduta antissocial. A partir disso, pode-se definir assertivamente quais técnicas e intervenções serão mais adequadas para cada caso, considerando também as características dessa fase do desenvolvimento e os aspectos socioculturais.
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Desafios da psicoterapia com adolescentes
Ao considerar o atendimento psicoterapêutico com adolescentes, os princípios básicos das abordagens psicológicas se mantêm, entretanto é necessário a adaptação de manejo e estratégias (Neufeld et al., 2017). Neste contexto, um equívoco comum é conduzir a terapia de forma semelhante a outras faixas etárias, seja ao não realizar nenhuma adaptação do atendimento adulto ou ainda adaptar indistintamente à terapia infantil.
Nesse contexto, a construção do vínculo terapêutico é um aspecto que apresenta características únicas com os adolescentes. Usualmente, estes jovens não buscam a terapia por iniciativa própria e geralmente são trazidos pelos seus responsáveis ou por indicação da escola. Isto pode propiciar a resistência no processo terapêutico, assim como desmotivação. Frente a esses desafios, é importante que o terapeuta construa em conjunto com o adolescente um espaço que faça sentido para ele, que seja facilitador de mudanças e visto como um local que poderá lhe trazer benefícios (Neufeld et al., 2017).
De forma prática, isso pode se traduzir como uma postura empática e não julgadora, considerando os desafios da adolescência, mas não se restringindo a olhar o adolescente apenas por essa ótica de turbulência. Por exemplo, nota-se que uma situação que para um adulto pode ser banal, como não ser convidado a um evento, para um adolescente poderá ser fruto de intensas emoções e, nesse contexto, um terapeuta assertivo deve ser capaz de empatizar com esta visão e auxiliar o jovem no desenvolvimento de habilidades para lidar com seus desafios. Outro aspecto prático que colabora à psicoterapia com adolescentes é a inserção dessa prática em seu mundo, integrando os interesses dos pacientes, o que pode ocorrer tanto em termos de exemplos para os assuntos abordados, quanto para fortalecer o vínculo terapêutico.
Importância do envolvimento da família no processo terapêutico
Conforme mencionado acima, as adaptações são necessárias ao processo terapêutico com adolescentes. Dentre as diferenças para outras faixas etárias, está a inclusão de familiares no tratamento. Para adultos, esta estratégia costuma ser utilizada apenas em casos muito específicos, ao passo que com crianças é algo intrínseco ao acompanhamento psicológico. Já no caso de adolescentes, o envolvimento é importante, pois os jovens ainda são fortemente inseridos no núcleo familiar e dependentes de seus responsáveis de diversas formas, porém a intensidade dessa inserção é variável.
As intervenções psicológicas para adolescentes que incluem os pais apresentam impactos significativamente maiores, principalmente quando se trata de questões externalizantes (Pine et al., 2024). Entretanto, é importante considerar as características desenvolvimentais da necessidade de individualidade e autonomia. Assim, a família pode ser envolvida através da orientação de pais ou conjuntamente em sessão com o adolescente, sempre preservando o sigilo. De forma prática, é essencial equilibrar o papel dos responsáveis com a relação terapêutica e a privacidade do jovem. Sempre que possível, deve-se obter concordância do adolescente para abordar certos assuntos com a família e não relatar detalhes do conteúdo da terapia para os responsáveis, o que infringiria o sigilo e afetaria significativamente a confiança do adolescente no terapeuta.
Técnicas e abordagens terapêuticas eficazes
De acordo com a literatura acercas das intervenções psicológicas para adolescentes, o escopo cognitivo-comportamental abarca as abordagens terapêuticas eficazes, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e as terapias baseadas em
mindfulness
(Dunning et al., 2018; Fordham et al., 2021). Para fins didáticos, a sigla TCCs será utilizada para se referir a tais intervenções.
Assim, a primeira etapa na intervenção dentro das TCCs é a avaliação, que irá avaliar de forma global e contextualizada as queixas comportamentais, cognitivas e emocionais do adolescente, assim como possíveis diagnósticos (Pureza et al., 2014). É desejável a participação de pais e escola neste processo, além do próprio adolescente. A partir das informações coletadas na avaliação e ao longo das primeiras sessões, é elaborada a conceitualização cognitiva, que irá permitir a compreensão do funcionamento do jovem, sempre considerando as características desenvolvimentais e contextuais. A conceitualização inclui o sistema de crenças, comportamentos compensatórios e fatores importantes da história de vida até o momento.
Com base na conceitualização, será realizado o planejamento da intervenção e escolhidas as técnicas mais eficazes para aquele determinado paciente. Ainda que esta escolha parta da compreensão do caso, alguns recursos e estratégias mostram-se particularmente úteis na adolescência. Um exemplo é o uso de baralhos, tanto para o momento avaliativo, facilitando as perguntas necessárias do momento, quanto durante as intervenções, auxiliando na compreensão de emoções e pensamentos. Outro exemplo é relacionado à psicoeducação, elemento indispensável da terapia nas TCCs, que para os adolescentes deve ser adaptado à linguagem destes e pode-se utilizar de materiais de seu interesse, como músicas e vídeos. Para mais detalhes sobre a condução da terapia com adolescentes e técnicas das TCCs, indica-se Friedberg et al. (2010) e Neufeld (2017).
Casos práticos e exemplos de aplicação
Para ilustrar de forma prática alguns pontos elencados neste artigo, pode-se tomar como exemplo um adolescente com obesidade. Neste contexto, a psicoterapia entra como um dos componentes do tratamento multidisciplinar, que envolve minimamente também nutrição e educação física, podendo integrar também medicina e enfermagem.
O acompanhamento se iniciaria com a avaliação, na qual deve-se investigar as dificuldades atuais, dados relevantes da infância e do contexto familiar, a presença de possíveis diagnósticos (por exemplo, Transtorno de Compulsão Alimentar). Considerando a demanda clínica de obesidade, seria importante avaliar os aspectos cognitivos, comportamentais e emocionais relacionados à alimentação, ao corpo e à atividade física.
Em seguida, a psicoterapia individual poderia ser conduzida com a adolescente, mas também seria pertinente a participação em atendimento grupal, que é eficaz para essa demanda. Quanto ao envolvimento familiar, este seria de suma importância nesse contexto, visto que os pais são responsáveis pela organização da alimentação e de oportunidades para atividade física, assim como os hábitos da família. A conceitualização cognitiva é o ponto de partida para a definição das estratégias e técnicas a serem utilizadas, porém a literatura mostra que é comum abordar psicoeducação sobre obesidade e tópicos associados, reestruturação cognitiva ligada ao comportamento alimentar, regulação emocional e manejo de comportamentos.
Conclusão
A psicoterapia com adolescentes pode ser uma ferramenta importante para promover o desenvolvimento adequado dos jovens, auxiliando na aprendizagem de habilidades para lidar com os desafios desta etapa. Ainda, diversos transtornos e problemas cotidianos da vida adulta podem ser minimizados se houver a intervenção neste período crítico desenvolvimental. Para trabalhar com este público, é indispensável o conhecimento de características da adolescência e as adaptações decorrentes no processo terapêutico, como técnicas, recursos e envolvimento de familiares. Diversas abordagens psicológicas permitem o trabalho com esta faixa etária, com destaque na literatura científica para aquelas do escopo cognitivo-comportamental.
Como citar este artigo: Santos, E. F. L., Lobo, B. O. M., & Neufeld, C. B. (Fev., 2025).Psicoterapia com adolescentes: técnicas e abordagens terapêuticas.Blog da Artmed.
Autoras
- Eloha Flória Lima Santos
Psicóloga graduada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP. Membro do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC). Especializada em Psicologia da Saúde no Contexto Hospitalar com ênfase em Psicologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP (HCFMRP-USP).
- Beatriz de Oliveira Meneguelo Lobo
Psicóloga e Mestra em Psicologia (área de concentração Cognição Humana) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Doutoranda em Psicologia em Saúde e Desenvolvimento pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP), com bolsa pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Especialista em Terapias Cognitivo-Comportamentais e com Formação em Terapia do Esquema. Pesquisadora e Supervisora no Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental (LaPICC) da Universidade de São Paulo (USP). Associada à Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC).