Sarcopenia em idosos: causas, formas de rastreio e tratamento

A sarcopenia é uma síndrome caracterizada pela perda progressiva e generalizada de massa, força e função muscular esquelética, que pode ou não estar associada ao envelhecimento. Essa condição é considerada um dos principais fatores que contribuem para a redução da funcionalidade e da qualidade de vida em idosos. A sarcopenia pode levar à diminuição da capacidade de realizar atividades diárias, como caminhar, subir escadas ou até mesmo levantar de uma cadeira, aumentando o risco de quedas, fraturas e dependência funcional.
O impacto da sarcopenia na funcionalidade é significativo, pois a fraqueza muscular e a perda de mobilidade limitam a autonomia do idoso, afetando sua independência e bem-estar. Além disso, a redução da massa muscular está associada a alterações metabólicas, como resistência à insulina e aumento do risco de doenças crônicas, o que pode agravar ainda mais a saúde geral. A qualidade de vida também é comprometida, já que a perda de funcionalidade pode levar ao isolamento social, depressão e diminuição da autoestima.
Causas e fatores de risco da sarcopenia
De acordo com o artigo Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis (Cruz-Jentoft et al., 2019), as causas da sarcopenia podem ser divididas em primárias e secundárias.
A sarcopenia primária está diretamente relacionada ao processo de envelhecimento. Com o avanço da idade, ocorrem alterações fisiológicas que contribuem para a diminuição da massa muscular, como a redução da síntese proteica, o aumento da resistência anabólica e a disfunção mitocondrial. Além disso, há um declínio natural nos níveis de hormônios anabólicos, como testosterona e hormônio do crescimento, que desempenham papéis cruciais na manutenção da musculatura.
A inatividade física, comum em idosos, também agrava esse quadro, acelerando a perda muscular. Já a sarcopenia secundária é influenciada por fatores externos ao envelhecimento. Entre as causas estão doenças crônicas, como diabetes, insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e câncer, que podem levar à inflamação sistêmica e ao catabolismo muscular.
A má nutrição, especialmente a ingestão inadequada de proteínas e calorias, é outro fator significativo, pois compromete a capacidade do corpo de reparar e manter a massa muscular. Além disso, o sedentarismo prolongado, imobilização e o uso de certos medicamentos, como corticosteroides, também podem contribuir para o desenvolvimento da sarcopenia secundária.
A sarcopenia também pode ser classificada em aguda e crônica. A sarcopenia que dura menos de 6 meses é considerada uma condição aguda, enquanto a sarcopenia que dura ≥ 6 meses é considerada uma condição crônica. A sarcopenia aguda geralmente está relacionada a uma doença ou lesão aguda, enquanto a sarcopenia crônica provavelmente está associada a condições crônicas e progressivas e aumenta o risco de mortalidade. Essa distinção visa ressaltar a necessidade de conduzir avaliações periódicas de sarcopenia em indivíduos que podem estar em risco de sarcopenia para determinar a rapidez com que a condição está se desenvolvendo ou piorando. Espera-se que tais observações facilitem a intervenção precoce com tratamentos que podem ajudar a prevenir ou retardar a progressão da sarcopenia e resultados ruins.
Métodos de rastreio e diagnóstico da sarcopenia
O European Working Group on Sarcopenia in Older People – 2ª revisão (EWGSOP2) atualizou o seu algoritmo para busca de casos de sarcopenia, diagnóstico e determinação de gravidade.
O raciocínio para essa atualização é lógico e prático — para tornar o algoritmo consistente com nossa definição de sarcopenia atualizada de 2018 e para torná-lo direto para promover seu uso em ambientes clínicos.
Especificamente, a recomendação é conforme o acrônimo FACS (Find/encontrar – Assess/avaliar – Confirm/confirmar – Severity/severidade) para uso em práticas clínicas e em estudos de pesquisa. Na prática clínica, o EWGSOP2 aconselha o uso do questionário SARC-F para encontrar indivíduos com provável sarcopenia. Também é aconselhado o uso de medidas de força de preensão e de levantar da cadeira para identificar baixa força muscular.
Para gerar evidências que confirmem músculos de baixa quantidade ou qualidade, recomenda-se a avaliação do músculo pelos métodos de densitometria por dupla emissão de raio-X (DXA) e bioimpedância (BIA) em cuidados clínicos usuais e por DXA, ressonância magnética nuclear ou tomografia compuratorizada em pesquisas e em cuidados especializados para indivíduos com alto risco de resultados adversos. Recomendam-se as medidas de desempenho físico (Short Physical Performance Battery - SPPB, timed-up-and-go test - TUG e teste de caminhada de 400 m) para avaliar a severidade da sarcopenia.
Na figura abaixo, está descrito o fluxograma proposto pelo EWGSOP2 para rastreio de sarcopenia.
Figura 1. Sarcopenia: algoritmo EWGSOP2 para busca de casos, diagnóstico e quantificação da gravidade na prática. As etapas do caminho são representadas como F-A-C-S. Considerar outras razões para baixa força muscular (por exemplo, depressão, síndrome do pânico, distúrbios de equilíbrio, distúrbios vasculares periféricos).

Tratamento da sarcopenia e o papel da fisioterapia
A sarcopenia é uma condição comum em idosos e o seu manejo está relacionado a intervenções multiprofissionais uma vez que as causas são multifatoriais e impactam na força, massa e desempenho físico do idoso. O treinamento resistido, ou de força muscular, é considerado a intervenção mais eficaz para combater a sarcopenia.
Estudos demonstram que exercícios de força promovem aumento da massa muscular, melhora da função física e redução do risco de quedas. Além disso, atividades aeróbicas e exercícios de equilíbrio podem complementar o tratamento, melhorando a capacidade funcional global.
A ingestão adequada de proteínas também é outro fator que potencializa a síntese muscular. Recomenda-se que idosos consumam entre 1,0 e 1,2 gramas de proteína por quilo de peso corporal por dia, com ênfase em fontes de alta qualidade, como carnes magras, ovos e laticínios. A suplementação com aminoácidos essenciais, como a leucina, também tem sido estudada como uma estratégia para estimular a síntese proteica muscular.
Em alguns casos, a suplementação com vitamina D pode ser benéfica, especialmente em indivíduos com deficiência, pois ela desempenha um papel importante na saúde muscular. Além disso, pesquisas recentes investigam o uso de medicamentos como agonistas de receptores de andrógenos e inibidores de miostatina, embora ainda não haja consenso sobre sua aplicação clínica.
A combinação dessas estratégias, adaptadas às necessidades individuais, pode ter um benefício na estrutura e função muscular e, por consequência, no quadro de sarcopenia. O rastreio como ferramenta de identificação precoce de mudanças na força muscular e mudanças no estilo de vida devem ser implementadas para preservar a independência e a qualidade de vida dos idosos.
Em recente revisão do tipo unbrella que englobou revisões sistemáticas com metanálises, com o objetivo de fornecer uma visão geral baseada em evidências de intervenções nutricionais visando sarcopenia ou pelo menos 1 dos 3 critérios de sarcopenia (ou seja, massa muscular, força muscular ou desempenho físico) em pessoas com idade ≥ 65 anos, foram identificados 15 estudos. Os seguintes suplementos foram examinados: proteínas, aminoácidos essenciais, leucina, β-hidroxi-β-metilbutirato, creatina e suplementação multinutriente (com ou sem exercício físico). O estudo apontou que recomendar leucina possui a melhor evidência uma vez que tem os melhores resultados na massa muscular.
Já a suplementação de proteína associado ao treinamento de força é recomendada para aumentar a massa muscular e a força, em particular para pessoas obesas e por ≥ 24 semanas. No entanto, devido ao reduzido número de estudos e a baixa/moderada qualidade das revisões, o nível de evidência que apoia a maioria das recomendações foi baixo a moderado.
Conclusão
A intervenção precoce e o acompanhamento contínuo são processos que deverão acompanhar o manejo da sarcopenia em idosos. A sarcopenia, caracterizada pela perda progressiva de força, massa e desempenho físico, impacta diretamente a mobilidade, independência e qualidade de vida.