Medicina 4.0: três perguntas sobre a aplicação novas tecnologias na medicina

A cada dia, novas tecnologias são lançadas e rapidamente incorporadas ao nosso dia a dia.
Smartphones são parte integral da rotina de quase todas as pessoas; se tornaram o principal canal de acesso à internet no Brasil e no mundo. Compras realizadas por aplicativos são atividades corriqueiras; ligações telefônicas estão quase desaparecendo e sendo substituídas por interações em aplicativos de mensagens.
“Ir ao banco” é uma atividade raramente necessária. O uso de smartwatches é disseminado, com monitoramento contínuo de parâmetros biológicos, como frequência cardíaca, gasto energético, atividade física e qualidade do sono.
Mais recentemente, ferramentas interativas de chatbots mudaram a forma como trabalhamos, comparamos produtos e aprendemos. Com todas essas mudanças ocorrendo nas atividades do dia a dia, seria surpreendente que os cuidados de saúde não fossem impactados.
Assim, neste artigo, exploraremos como essas novas tecnologias impactam os cuidados de saúde e a medicina: um conjunto de mudanças que pode ser chamado, entre outros nomes, de medicina 4.0.
O que é Medicina 4.0?
Na história contemporânea, costuma-se dividir a evolução da indústria em quatro grandes fases.
A primeira revolução industrial foi marcada pela mecanização e pelo uso do vapor; a segunda, pela eletrificação e pela produção em massa; a terceira, pela introdução da informática e da automação; e a quarta, mais recente, pela integração entre sistemas digitais, conectividade e inteligência artificial.
Esta última também é chamada de Indústria 4.0.
Por analogia, esse conceito foi “emprestado” para a área da saúde. Assim, fala-se hoje em Medicina 4.0 para descrever um conjunto de transformações que acompanham essa nova fase tecnológica do mundo.
Algumas destas mudanças já foram implementadas e outras ainda estão em andamento. É importante deixar claro que não se trata de um termo com definição rígida ou consensual, mas sim de um rótulo para agrupar mudanças que vêm ocorrendo rapidamente.
A Medicina 4.0 pode ser entendida como a aplicação de ferramentas da área de tecnologia da informação aos cuidados de saúde.
Isso inclui telemedicina, internet das coisas (Internet of Things - IoT), inteligência artificial, sensores e dispositivos wearables ou implantáveis, além da capacidade de integrar e analisar grandes bases de dados.
Mais do que tecnologias isoladas, o ponto central é a integração entre elas: dados são capturados por dispositivos, transmitidos por redes, armazenados na nuvem e analisados por sistemas computacionais.
Talvez uma das principais mudanças seja a possibilidade de que os cuidados deixem de ser episódicos (em consultórios, clínicas, hospitais) e passem a ser mais contínuos, conectados e mais disponíveis.
Há a promessa de escalabilidade e de popularização de informações e de atendimento. Monitoramento remoto, acompanhamento à distância e intervenções digitais tornam-se cada vez mais comuns, aproximando a medicina da rotina corriqueira e não estando presente apenas nos momentos de doença.
O que já usamos (e às vezes nem percebemos)?
Apesar de parecer um mundo distante e pouco concreto, existem algumas aplicações englobadas pelo conceito de Medicina 4.0 que já usamos no dia a dia.
Talvez o principal deles seja o teleatendimento. A pandemia de COVID-19 foi um grande catalisador de iniciativas antes modestas e focais: houve expansão rápida, regulamentação mais clara e, principalmente, aceitação por parte de médicos e pacientes.
O que antes era um ponto de debate, hoje é consenso. Consultas remotas são rotina em diversas áreas, com destaque para a saúde mental, o acompanhamento de condições crônicas e as orientações iniciais. Além disso, a consultoria entre profissionais, seja formal ou informal, tornou-se mais ágil e acessível.
A automatização dos registros de atendimento é outro exemplo de uso, invisível para os pacientes, mas muito útil e impactante. Ferramentas de captura da consulta, muitas vezes integradas a sistemas de prontuário eletrônico, já estão disponíveis para uso comercial.
Essas ferramentas têm um impacto relevante, uma vez que reduzem o tempo gasto com tarefas administrativas e abrem espaço para a melhora da interação médico-paciente. É um bom exemplo de tecnologia capaz de aumentar a humanização do cuidado.
Plataformas digitais para tirar dúvidas clínicas não são novidade e bases como UpToDate e DynaMed já fazem parte da prática há anos. Mas, recentemente, os chatbots entraram no cotidiano do estudo e do aprendizado dos médicos.
Elas são úteis para revisar conceitos, especialmente para perguntas focais, organizar raciocínios ou explorar hipóteses diagnósticas. Já existem, inclusive, recomendações sobre como utilizá-las de forma responsável no ensino e na aprendizagem.
O ganho de agilidade e de acesso à informação é evidente, mas também existem riscos concretos. Há evidências de menor retenção de informações, riscos de atalhos cognitivos, dependência excessiva e possível prejuízo no desenvolvimento de habilidades clínicas (especialmente para profissionais em formação).
Todos esses problemas podem levar a consequências negativas para pacientes.
Outro exemplo são os dispositivos vestíveis (wearables). Smartwatches são amplamente utilizados para monitorar a atividade física, os padrões de sono e outros parâmetros fisiológicos, oferecendo feedback imediato e incentivando mudanças de comportamento.
Para além da promoção da saúde, é possível identificar fibrilação atrial. Isto foi demonstrado em estudos de larga escala, como o famoso Apple Heart Study. Ainda que o impacto clínico destas ferramentas sobre desfechos duros esteja em avaliação, o seu uso faz parte da vida cotidiana.
O que é esperado pela frente?
A promessa da Medicina 4.0, em especial com o uso da inteligência artificial, é gerar impacto direto na eficiência e na qualidade do cuidado.
Ao aumentar a eficiência e permitir o uso de ferramentas automatizadas como primeira linha de atendimento, espera-se ampliar o acesso à saúde, especialmente em regiões remotas ou com escassez de especialistas.
A redução de custos também faz parte desta ampliação do acesso. A combinação de telemedicina (seja com atendimento remoto ou consultoria) permite levar cuidado qualificado para além dos grandes centros, ampliando ainda mais o acesso e superando barreiras geográficas ao atendimento médico e ao acesso a especialistas.
Outro ponto central é a integração de dados de múltiplas fontes (prontuários, wearables, aplicativos), o que permite decisões mais precisas. Possibilidade de detecção precoce de eventos graves de saúde já estão em testes. Isto também se alinha ao movimento de descentralização do cuidado, com monitoramento contínuo e intervenções mais próximas do cotidiano dos pacientes, o que diminui a dependência de atendimentos presenciais.
A revisão e monitoramento constantes de decisões e o apoio de ferramentas de decisão médica têm o potencial de reduzir erros.
Por outro lado, os desafios são relevantes. A gestão de dados torna-se complexa diante do grande volume e da diversidade de informações. Os custos computacionais não são desprezíveis, gerando impactos financeiros e ecológicos significativos. A escalabilidade dessas soluções em sistemas amplos depende de uma infraestrutura robusta.
A segurança e privacidade dos dados são outros pontos críticos, dado o valor e a sensibilidade das informações em saúde. O treinamento de algoritmos de inteligência artificial em bases de dados pouco diversas pode enviesar decisões e aprofundar desigualdades de acesso.
E quanto mais dependemos de sistemas digitais, mais falhas nesses sistemas põem em risco a segurança das informações e a saúde dos pacientes.
Por fim, como qualquer nova tecnologia a ser usada em pacientes, a eficácia e a segurança clínica precisam ser avaliadas e comprovadas antes do uso disseminado.
Ainda há poucos dados de estudos clínicos randomizados em larga escala que mostrem o benefício em desfechos clinicamente relevantes das diferentes tecnologias que discutimos neste artigo.
E uma pergunta extra: vou perder meu trabalho como médico?
A resposta curta é: não se sabe.
Não é novidade que diversas tarefas estão sendo automatizadas. Em especial, aquelas repetitivas e que seguem padrões. Assim, profissionais que atuam em contexto extremamente padronizado tendem a ter seu trabalho mais impactado.
Subsituição completa não é o horizonte mais concreto. O que se espera é uma mudança de posição: médicos deixarão a execução do trabalho final e assumirão a supervisão e monitoramento de falhas. É provável que também atuem em casos duvidosos.
Análises sobre automação sugerem um impacto limitado na prática médica. Estimativas indicam que entre 0,4% a 10% das atividades médicas seriam totalmente automatizáveis. Ou seja, a maior parte do trabalho médico permanece dependente de habilidades que vão além da simples execução técnica.
Em suma, atividades repetitivas baseadas no reconhecimento de padrões tendem a ser progressivamente automatizadas.
De outro lado, competências tipicamente humanas ainda são centrais: julgamento clínico em cenários complexos, comunicação, empatia e tomada de decisão em cenários de incerteza e com informações incompletas.