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Questionamento socrático: o que é e como aplicar na psicoterapia cognitivo-comportamental

O que é o questionamento socrático?

Também conhecido por diálogo socrático, maiêutica socrática ou ainda por empirismo colaborativo, o questionamento socrático é uma ferramenta muito útil para psicólogos cognitivo-comportamentais, embora não seja esta uma ferramenta exclusiva da abordagem. Isso porque o racional desse questionamento não foi desenvolvido por um psicólogo, mas sim por um filósofo chamado Sócrates, há muitos séculos atrás, datando mais ou menos do século IV a.C.

Através deste método, e por meio de perguntas,
o sujeito é guiado a reflexões diversas, alcançando novas verdades, novos modos de encarar e aceitar a realidade que lhe cerca e conseguindo enxergar uma perspectiva diferente
(dos Santos, 2017; dos Santos melo, 2012).

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Como o questionamento socrático é aplicado na Psicoterapia Cognitivo-Comportamental?
 

Não existe uma fórmula e/ou uma lista de perguntas que o psicoterapeuta pode usar e aplicar o questionamento socrático. Ele se trata de uma técnica bastante flexível e adaptada para uso em diferentes contextos (Waltman et al., 2023).

O método pode ser muito eficaz para proporcionar mudanças em padrões de pensamentos e crenças rígidas, e com isso provoca mudanças na vida do paciente, por meio da
reestruturação cognitiva
(Bieling, McCABE & Antony, 2009; Waltman et al., 2023).  

Essa ausência de ‘’estrutura’’ para se seguir durante a aplicação do diálogo socrático é, inclusive, motivo de pânico e muita insegurança em psicoterapeutas em formação, os quais se perguntam: mas essa é a melhor pergunta? Mas será que fiz a pergunta certa? Será que guiei o meu paciente para o caminho certo?

A fim de aliviar o sofrimento do psicoterapeuta recém formado, existem algumas recomendações para um psicoterapeuta conseguir de fato aplicar o diálogo socrático em sua prática clínica, pressupõe-se que ele:  

  • seja empático e assuma uma postura colaborativa; ou seja, espera-se que psicoterapeuta aplique o empirismo colaborativo. O método socrático funciona como uma aprendizagem corretiva e o mesmo pode não ser tão fácil de ser feito automaticamente; 
  • é necessário que haja
    aliança terapêutica
    , ou seja, relação de trabalho entre o psicoterapeuta e seu paciente;
  • apresente uma postura de curiosidade genuína no cliente, ou seja, que o psicoterapeuta mostre engajamento no processo de guiar a condução de descobertas em seus clientes;
  • verifique a compreensão do paciente, busque compreender qual é a forma que o paciente tem definido a situação que tem enfrentado. Como ele defini certas palavras? Qual o significado que aquilo tem pra ele neste momento de vida? 
  •  estimule o automonitoramento e autoconsciência para facilitar a percepção e rotulação de seus pensamentos, sentimentos e comportamentos;
  • pressupõe-se também que o psicoterapeuta utilize muito diálogo e uma escuta ativa permitindo que o paciente consiga experimentar as diferentes emoções despertadas nesse processo em sessão.

Embora o método socrático não tenha uma estrutura a ser seguida de modo rígido, isso também não significa que o mesmo pode ser aplicado de qualquer forma, de qualquer jeito.

A técnica do questionamento socrático é posta em prática quando o psicoterapeuta
estrutura perguntas que são intencionalmente realizadas a partir do que ele pensa que poderia ajudar e/ou guiar seu paciente à reflexão, à mudança de pensamento, à flexibilização cognitiva.

O objetivo é fazer com que o paciente se envolva diretamente com as questões problema, assumindo o pensamento independente e a auto exploração da questão problema. Esse método possibilita maior aprendizagem por parte do paciente e maior colaboração por parte do psicoterapeuta. 

Um bom diálogo socrático consegue realizar uma
análise do problema trazido pelo cliente, dividindo-o em partes menores.
Ou seja, olhando cada parte do problema de modo específico para, aos poucos, ir sintetizando a formação de novas ideias. Desse modo, a lógica por trás de um bom diálogo socrático envolve
decompor a situação a fim de melhor compreendê-la
(Waltman et al., 2023). 

É possível também utilizar a estratégia do questionamento socrático para ajudar na resolução de problemas do paciente. Para isso, é necessário que psicoterapeuta se guie para investigar quais são as cognições que causam maior sofrimento. Com base nessa pergunta, o psicoterapeuta evita em não focar no conteúdo cognitivo central visto que em uma sessão, inúmeras cognições podem emergir e podem gerar dúvidas sobre qual focar naquele momento.  

Um equívoco frequente, especialmente entre os psicoterapeutas iniciantes, é a tentativa de promover pensamentos positivos em vez de adotar uma perspectiva mais realista, fundamentada na realidade e na identificação das distorções presentes nela.

Outro erro muito frequente é cair na armadilha do psicoterapeuta fornecer uma descoberta ao cliente ao invés de guiá-lo até essa descoberta. Nosso papel é estar junto, guiando e fornecendo perguntas de modo que o paciente irá chegar, no seu tempo, em suas descobertas. 

O processo do questionamento socrático pode incluir diferentes etapas. Primeiramente, há a análise, que envolve a desconstrução do tema em questão. Em seguida, vem a síntese, onde ocorre a reconstrução do que foi analisado. Adicionalmente, pode-se passar por uma etapa de antítese, que consiste na busca por argumentos ou evidências contrárias às ideias estabelecidas. Esse processo reflete a aplicação do pensamento dialético, que engloba uma tese, uma antítese (desconstrução das partes) e uma síntese (reconstrução das partes), permitindo maior flexibilidade, amplitude de perspectivas sobre uma mesma situação e transformação na percepção do fenômeno em questão.

Existem também algumas competências que um bom psicoterapeuta pode colocar em prática a fim de desempenhar bem a aplicação do questionamento socrático tais como:

  • a habilidade de focalização, ou seja, identificar pensamentos que são centrais de serem trabalhados em sessão, buscando os pensamentos quentes e guiando o paciente a identificar esses pensamentos;
  • a curiosidade colaborativa, tentando identificar o que o paciente não consegue enxergar devido ao processamento da realidade através de filtros e/ou erros de processamento.  

Conclusão

O questionamento socrático, uma prática milenar concebida pelo filósofo Sócrates, transcendeu os séculos e encontrou um lugar significativo na terapia cognitivo-comportamental.

Ao longo deste texto, exploramos o que é o questionamento socrático, como ele é aplicado na prática clínica, os desafios enfrentados pelos terapeutas e as competências necessárias para sua eficácia. 

Em primeiro lugar, destacamos a flexibilidade inerente ao questionamento socrático. Longe de seguir uma fórmula predefinida, esse método exige que o terapeuta se adapte às necessidades e peculiaridades de cada cliente. Essa adaptabilidade pode ser um desafio para terapeutas em formação, que muitas vezes enfrentam dúvidas e inseguranças sobre suas abordagens.

Um dos pontos cruciais ressaltados é a importância da empatia e da colaboração entre terapeuta e cliente. Essa aliança terapêutica é fundamental para criar um ambiente seguro e propício à exploração e reflexão. Além disso, destacamos a necessidade de curiosidade genuína por parte do terapeuta, que deve demonstrar engajamento no processo de descoberta do cliente. 

Durante o artigo, enfatizamos que
o objetivo final do questionamento socrático é capacitar o cliente a assumir um papel ativo em sua própria jornada de autoconhecimento e mudança
. Isso envolve não apenas a identificação e desconstrução de padrões de pensamento disfuncionais, mas também a síntese e reconstrução de novas perspectivas e compreensões.

Por fim, exploramos as competências-chave a serem desenvolvidas para o trabalho com o questionamento socrático, como a habilidade de focalização e a curiosidade colaborativa, essenciais para orientar o cliente no processo de autoexploração e descoberta.

O questionamento socrático é muito mais do que uma estratégia de intervenção — é uma filosofia de diálogo e descoberta que capacita os clientes a transformarem suas perspectivas de vida. 

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Como citar este artigo:
Donadon, M. F., Lobo, B. O. M., & Neufeld, C. B. (2024, 01 abril).
Questionamento socrático: o que é e como aplicar na psicoterapia cognitivo-comportamental.
Blog da Artmed. 

Autoras

  • Mariana Fortunata Donadon 

Possui Graduação em Psicologia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP- USP); Licenciatura em Psicologia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP- USP); É Bacharela em Psicologia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP- USP); Possui Bacharelado Especial em Pesquisa em Psicologia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP- USP). Fez Mestrado em Saúde Mental pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto na Universidade de São Paulo (USP); Doutorado em Saúde Menta pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto na Universidade de São Paulo (USP). É Especialista em Clínica com enfoque em Psicoterapia Cognitivo comportamental pelo Centro de Terapias Cognitivas para atendimento de crianças, adolescentes e adultos (CTC-VEDA). Possui certificação internacional em Psicoterapia cognitivo comportamental (União Europeia - DGERT internacional); É Membra da Comissão de Artigos Científicos do Centro de Terapias Cognitivas de Ribeirão Preto (CTC VEDA). É Professora conteudista de material didático e instrucional para o curso de Psicologia do Centro Universitário Estácio de Ribeirão Preto. Atualmente é Psicóloga clínica com enfoque de atendimento em crianças, adolescentes e adultos e docente de cursos Pós-Graduação em Psicologia na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), no Centro de Terapias Cognitivas (CTC VEDA), Faculdade Psicologia (FAPSI) a qual atua como supervisora clínica e no Centro Universitário Unifafibe. É autora de inúmeros livros na área da saúde mental e psicoterapia cognitivo comportamental. Atua principalmente nos seguintes linhas de pesquisa: Instrumentos de avaliação em saúde mental; psicopatologia; saúde mental; avaliação psicológica; psicoterapia cognitivo comportamental; tradução e adaptação de escalas de avaliação em saúde mental; supervisão de estágios e Psicologia Clínica. É Terapeuta associada à Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC) e a Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências (AESBE). Psicóloga associada à Associação de Psicologia Americana (APA). Atua em clínica particular como Terapeuta Cognitivo-Comportamental atendendo crianças, adolescentes e adultos. 

  •  Beatriz de Oliveira Meneguelo Lobo 

Psicóloga e Mestra em Psicologia – área de concentração Cognição Humana pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Especialista em Terapias Cognitivo-Comportamentais com Formação em Terapia do Esquema. Professora em cursos de Pós-Graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia Cognitivo-Comportamental na Infância e Adolescência e Terapia do Esquema. Supervisora Clínica. Pesquisadora Colaboradora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental - LaPICC-USP da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP). 

SOBRE A EDITORA-CHEFE

Carmem Beatriz Neufeld:
 Psicóloga. Pós-Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental – LaPICC-USP. Professora Associada do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo – USP. Presidente da Associação Latino-Americana de Psicoterapias Cognitivas - ALAPCO (2019-2022). Presidente da Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023).